"Grécia deve dizer não", defende Prêmio Nobel de Economia

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Por: Cesar Sanson | 30 Junho 2015

"A Grécia deve votar 'não', e seu Governo deve estar pronto para, se for necessário, abandonar o euro". O comentário é de Paul Krugman, economista, prêmio Nobel de Economia em 2008, em artigo publicada por El País, 29-06-2015.

Segundo ele, "praticamente todo o caos temido sobre o Grexit já aconteceu. Com os bancos fechados e os controles de capital impostos, não há muito mais danos a serem feitos".

Eis o artigo.

É evidente, há muito tempo, que a criação do euro foi um erro terrível. A Europa nunca teve as condições prévias para uma bem-sucedida moeda única, sobretudo, o tipo de união fiscal e bancária que, por exemplo, assegura que quando a bolha imobiliária estoura na Flórida, Washington automaticamente protege a terceira idade de qualquer ameaça sobre seu atendimento de saúde e seus depósitos bancários.

Abandonar uma união monetária é, entretanto, uma decisão muito mais difícil e mais aterradora do que nunca; até agora as economias com mais problemas do Continente deram um passo atrás quando se encontravam à beira do abismo. Várias vezes, os Governos submeteram-se às exigências de dura austeridade dos credores, enquanto o Banco Central Europeu conseguiu conter o pânico nos mercados.

Mas a situação na Grécia chegou ao que parece ser um ponto sem volta. Os bancos estão temporariamente fechados e o Governo impôs controles de capital (limites ao movimento de fundos ao estrangeiro). Parece bem provável que o Executivo logo terá que começar a pagar as aposentadorias e o salários em papel, o que, na prática, criaria uma moeda paralela. E na primeira semana de julho o país irá realizar uma consulta sobre a conveniência de aceitar as exigências da troika – as instituições que representam os interesses dos credores – de redobrar, ainda mais, a austeridade.

A Grécia deve votar “não”, e seu Governo deve estar pronto para, se for necessário, abandonar o euro.

Para entender por que digo isso, devemos primeiro estar conscientes de que a maior parte das coisas – não todas, mas a maioria – que temos ouvido sobre o desperdício e a irresponsabilidade grega são falsas. Sim, o governo grego estava gastando além de suas possibilidades no final da primeira década dos anos 2000. Mas, desde então, cortou repetidamente o gasto público e aumentou a arrecadação fiscal. O emprego público caiu mais de 25 por cento, e as aposentadorias (que eram, certamente, muito generosas) foram drasticamente reduzidas. Todas as medidas foram, em suma, mais do que suficientes para eliminar o déficit original e transformá-lo em um amplo superávit.

Por que isso aconteceu? Porque a economia grega desabou, em grande parte, como consequência direta dessas importantes medidas de austeridade, que afundaram a arrecadação.

E esse colapso, por sua vez, teve muito a ver com o euro, que prendeu a economia grega em uma camisa de força. Geralmente, os casos de sucesso das políticas de austeridade – aqueles nos quais os países conseguiram frear seu déficit fiscal sem cair na depressão – vêm junto com importantes desvalorizações monetárias que fazem com que suas exportações sejam mais competitivas. Foi isso o que aconteceu, por exemplo, no Canadá na década de noventa, e na Islândia mais recentemente. Mas a Grécia, sem moeda própria, não tem essa opção.

Com isso quero dizer que seria conveniente o Grexit – a saída da Grécia do euro –? Não necessariamente. O problema do Grexit sempre foi o risco de caos financeiro, de um sistema bancário bloqueado pelas retiradas presa do pânico e de um setor privado obstaculizado tanto pelos problemas bancários como pela incerteza sobre o status legal das dívidas. É por isso que os sucessivos governos gregos aderiram às exigências de austeridade, e pelo que o Syriza, a coalizão de esquerda no poder, estava disposto a aceitar uma austeridade que já havia sido imposta. A única coisa que pedia era evitar uma dose maior de austeridade.

Mas a troika rejeitou essa opção. É fácil se perder nos detalhes, mas agora o ponto fundamental é que os credores ofereceram à Grécia um “pegar ou largar”, uma oferta indistinguível das políticas dos últimos cinco anos.

Essa oferta estava e está destinada a ser rejeitada pelo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras: não pode aceitá-la porque seria a destruição de sua razão política de ser. Portanto, seu objetivo deve ser levá-lo a abandonar seu cargo, algo que provavelmente acontecerá se os gregos escolherem não confrontar a troika e votarem sim na primeira semana de julho.

Mas não devem fazê-lo por três razões. Em primeiro lugar, agora sabemos que a austeridade cada vez mais dura é um beco sem saída: após cinco anos, a Grécia está ainda em pior situação. Em segundo ligar, praticamente todo o caos temido sobre o Grexit já aconteceu. Com os bancos fechados e os controles de capital impostos, não há muito mais danos a serem feitos.

Por último, a adesão ao ultimato da troika acarretaria o abandono definitivo de qualquer pretensão de independência da Grécia. Não nos deixemos enganar por aqueles que afirmam que os funcionários da troika são técnicos que explicam aos gregos ignorantes o que devem fazer. Esses supostos tecnocratas são, na realidade, enganadores que não levaram em consideração todos os princípios da macroeconomia, e que se equivocaram em cada passo dado. Não é uma questão de análise; é uma questão de poder: o poder dos credores para desligar a economia grega, que continuará assim enquanto a saída do euro for considerada impensável.

De modo que é tempo de acabar com esse inimaginável. Do contrário a Grécia enfrentará a austeridade infinitamente e uma depressão da qual não há indícios de seu final.

 

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