Os indígenas. Os grandes esquecidos na visita do Papa ao Equador

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Por: André | 29 Junho 2015

“Louvado seja Jesus Cristo! Amados filhos e filhas. Pai Apunchic Jesus Cristo yupaichashca cachun! Cuyashca churicuna, ushushicuna". Estas palavras foram pronunciadas por São João Paulo II em sua visita à cidade de Latacunga em seu encontro com os indígenas, em 1985.

O comentário é publicado por Religión Digital, 26-06-2015. A tradução é de André Langer.

E, dirigindo-se aos milhares de indígenas reunidos, disse: “... faço meu o pedido que vossos bispos fizeram em Puebla: ‘Que as Igrejas particulares se esmerem por adaptar-se, realizando o esforço de transvasamento da mensagem evangélica para a linguagem antropológica e para os símbolos da cultura em que se insere’ (Puebla 404).

Com este propósito, desejo encorajar os sacerdotes e religiosos para evangelizar, tendo bem em conta a vossa cultura indígena; e a acolher com alegria os elementos autóctones de que eles mesmos participam. Nessa linha, faço meu o pedido que vossos bispos fizeram em Puebla: ‘Que as Igrejas particulares se esmerem por adaptar-se, realizando o esforço de transvasamento da mensagem evangélica para a linguagem antropológica e para os símbolos da cultura em que se insere’ (Puebla 404).”

Até onde chegou o encorajamento?

No mês de julho, o Papa Francisco virá ao nosso país. Estará em Quito e Guayaquil. Reunir-se-á com “a sociedade civil”, com a comunidade acadêmica, com o clero e as pessoas consagradas. Presidirá duas eucaristias em Quito e em Guayaquil. E visitará um santuário. Além disso, visitará o seu bom amigo, o Pe. Paquito Cortés, para pedir-lhe sua bênção.

Mas não haverá um encontro com a comunidade cristã indígena, fruto do “transvasamento da mensagem evangélica”. Provavelmente, estarão presentes na Praça São Francisco com suas vestimentas, o mais folclórico de suas vidas. Mas voltaram a ser invisíveis como indígenas cristãos e estarão entre a “sociedade civil”.

Os responsáveis pela preparação da visita nos dirão que “não havia tempo para todos e cada um dos setores da Igreja”.

Será que a Igreja, leia-se hierarquia, se uniu à niveladora do sistema de mercado no qual todos somos iguais na medida em que temos a mesma capacidade de compra? Será que passaram a rasoura e alguns poderão entrar na Igreja de São Francisco, ao passo que outros deverão ficar na praça?

Será que os esforços de dom Leonidas Proaño, Mario Ruiz, Gonzalo López Marañón, Luna Tobar, de tantos padres, catequistas, religiosos e religiosas mergulhados no mundo indígena e sonhando uma igreja indígena estão fora de moda?

Será verdade o que disseram a dom López Marañón quando aceitaram sua renúncia por conta da idade, que seu trabalho de 40 anos nas selvas amazônicas não estava na linha da Igreja e que por isso mandavam outros para que pusessem ordem?

Se o Papa Francisco soubesse dos preparativos de sua visita ao Equador e o “fervor” de seus irmãos bispos, incluindo o representante diplomático do Vaticano, para preparar esta visita...

O fato de que o Papa Francisco não se encontre com a igreja indígena será creditado a várias razões: que não existe como tal porque não a deixaram nascer; que se misturou na visão comum de uma mestiçagem perversa; que se esqueceu Puebla, ou que não interessa aos atuais responsáveis pela preparação, pois não lhe dão importância.

Afinal de contas, uma vez mais se cumpre o velho ditado eclesiástico: “De Roma vem o que para Roma vai”.

E isso que, por ocasião do centenário da encíclica Lacrimabili Status Indorum, de 07 de junho de 1912, do Papa Pio X, Bento XVI enviou uma carta a dom Salazar Gomes, arcebispo de Bogotá, na qual relembra a verdade histórica de tantos séculos de exploração e marginalização dos povos ancestrais da nossa América.

Com efeito, já o Papa Bento XIV publicou uma encíclica no dia 20 de dezembro de 1741 intitulada Inmensa Pastorum, onde condena a situação de maus-tratos e abusos por parte de pessoas que se diziam crentes e católicas e condena o tratamento dado aos povos indígenas.

O mesmo Pio X, volta a condenar os abusos contra os povos indígenas (por parte dos seringueiros que assolaram a Amazônia na segunda metade do século XIX e começo do século XX) e ordena que sua encíclica seja lida e ensinada em colégios, universidades, seminários católicos...

Pergunto-me: quantos bispos, arcebispos, reitores de universidades e de seminários leram estes documentos dos Papas? Quantas teses de doutorado estudaram este tema da situação dos indígenas e povos ancestrais da nossa América?

Indigna a notícia de que não haverá um encontro especial entre o Papa e os servidores católicos das nacionalidades indígenas. Apenas sua presença para fazer algumas leituras na Eucaristia no Parque Bicentenário.

Repito: indignante. Dom Proaño costumava dizer que a Igreja tem uma enorme dívida com os indígenas, e ainda está pendente. O Papa Francisco verá os numerosos servidores (catequistas e animadores), ministérios próprios, resultado da inculturação do Evangelho (Evangelii Nuntiandi, n. 20)?

Alguém se lembrará da memória de Alejandro e Inês, cujo martírio e morte heróica se celebrará no dia 21 de julho?

Que pena, sr. núncio, senhores arcebispos de Quito, Guayaquil, Cuenca e Portoviejo! Também vocês estão contribuindo para tornar menos confiável a mensagem libertadora de Jesus. A nossa Igreja é católica, ou seja, universal, onde todas as culturas, raças, línguas encontram acolhida. Fomentar outros modos de viver a fé e expressá-la não representa um ataque à sua unidade.

Vocês vão me desculpar, mas como lhes cai bem aquilo que Jesus disse aos fariseus: “Cegos e guias de cegos”. Não são capazes de ver os sinais dos tempos. Com indignação e tristeza.

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