Laudato Si’ – Prestemos atenção às notas de rodapé

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25 Junho 2015

"Além de quebrar a tradição ao citar textos de conferências nacionais, o Papa Francisco lança mão de uma gama de pensadores católicos. Ele cita oito vezes Romano Guardini, sacerdote e teólogo influente (1885-1968)", escreve Kevin Ahern, eticista teológico e professor assistente de Estudos Religiosos na Manhattan College, em artigo publicado pelo sítio America, 18-06-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Além da utilização de uma linguagem inclusiva de gênero – a primeira nas encíclicas sociais católicas –, um dos aspectos mais surpreendentes de Laudato Si’ são as notas de rodapé. Para ser honesto, elas foram uma das primeiras coisas que olhei. Francisco se afasta da tradição das encíclicas sociais católicas ao citar várias fontes não católicas oficiais, tais como documentos da ONU, as conferências episcopais nacionais e, de modo mais surpreendente, um místico sufi!

Agora, embora possa parecer um tanto pedante para a maioria dos leitores, as notas de rodapé de Francisco constituem um afastamento significativo da tradição. A maioria das encíclicas papais oficiais do ensino social católico têm um estilo específico e as notas de rodapé desempenham um papel importante. Diferentemente das citações que meus alunos usam em seus trabalhos para referirem a origem das ideias apresentadas, as notas de rodapé no ensino papal têm funcionado como uma forma de alertar o leitor para a continuação de uma tradição. Em geral, as notas de rodapé não estão muito preocupadas em fazer referências propriamente; estão mais interessadas em comunicar que este ensino está harmonia com uma longa tradição no assunto, mesmo quando ele pode estar discordando ligeiramente da fonte.

Por exemplo, a Caritas in Veritate, a encíclica social de 2009 do Papa Bento XVI, dispõe de 159 notas. A maioria delas fazem referência aos ensinamentos sociais oficiais de outros papas; várias destas notas se referem aos seus próprios ensinamentos; algumas mencionam os escritos de importantes santos ou dicastérios vaticanos. Nenhum menciona fontes não católicas ou não doutrinárias. Em grande parte, é assim também com as encíclicas sociais de São João Paulo II.

Esta tradição reflete uma teologia específica do papado que entende que o papa deva ser o professor principal da doutrina católica com uma rígida divisão dos papéis entre professor e aluno. Como tal, o papa nunca precisaria aprender de fontes “abaixo” dele. Isso também inclui as declarações emitidas pelas conferências nacionais dos bispos. Por mais de perto 50 anos, tem havido um longo debate quanto ao estatuto do magistério das declarações feitas por grupos de bispos em nível nacional, continental e mundial.

Sob os pontificados de João Paulo II e Papa Bento XVI, as publicações sociais das conferências episcopais nacionais e dos sínodos foram percebidas como carecendo de competência para um ensino (magisterial) com autoridade. Esta alegação é feita frequentemente pelos críticos das políticas sociais da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados UnidosUSCCB (na sigla em inglês), em particular contra os seus ensinamentos sobre a justiça econômica, a paz e o racismo. Em Evangelii Gaudium, o Papa Francisco abordou este ponto quando pediu pelo desenvolvimento do “estatuto das Conferências Episcopais” com “autêntica autoridade doutrinal” para melhor servir a missão da Igreja (n. 32).

Embora não tenha sido bem recebida por todos, Laudato Si’ afirma a autoridade destas estruturas regionais com 20 citações de declarações de 18 conferências episcopais nacionais e regionais. Isso inclui o documento da USCCB, de 2001, intitulado “Global Climate Change: A Plea for Dialogue, Prudence and the Common Good”. A seleção de documentos de várias regiões do mundo parece querer significar algo referente às preocupações expressas pelos bispos quanto aos problemas em jogo. Com efeito, ela construtivamente mostra como a promoção de uma ecologia integral não é apenas a preocupação do Papa Francisco. Embora sutil, é também um aceno para uma visão indutiva e mais descentralizada de Igreja, onde as declarações (os documentos) das conferências episcopais têm valor na formação do ensino social católico universal.

Além de quebrar a tradição ao citar textos de conferências nacionais, o Papa Francisco lança mão de uma gama de pensadores católicos. Ele cita oito vezes Romano Guardini, sacerdote e teólogo influente (1885-1968). Faz uma referência surpresa para o controverso jesuíta Teilhard de Chardin, na nota n. 53, e cita por extenso o Patriarca Bartolomeu no início do texto. Faz também referência a um livro [de John Chryssavgis] publicado pela Fordham University Press, na nota n. 15.

Talvez a referência mais surpreendente é a um místico sufi muçulmano, Ali al-Khawas, na nota n. 159, que diz:

“Um mestre espiritual, Ali Al-Khawwas, partindo da sua própria experiência, assinalava a necessidade de não separar demasiado as criaturas do mundo e a experiência de Deus na interioridade. Dizia ele: ‘Não é preciso criticar preconceituosamente aqueles que procuram o êxtase na música ou na poesia. Há um ‘segredo’ subtil em cada um dos movimentos e dos sons deste mundo. Os iniciados chegam a captar o que dizem o vento que sopra, as árvores que se curvam, a água que corre, as moscas que zunem, as portas que rangem, o canto dos pássaros, o dedilhar de cordas, o silvo da flauta, o suspiro dos enfermos, o gemido dos aflitos…’”.

Ficamos mais impressionados ainda quando lemos a seção intitulada “Os sinais sacramentais e o descanso celebrativo” (n. 233). De um ponto de vista teológico, a inclusão de textos explicitamente religiosos de fora da tradição católica levanta questões interessantes sobre o desenvolvimento da doutrina: O que significa para um documento oficial de doutrina social citar um místico muçulmano? O que isso diz sobre o papel do Espírito Santo para além da Igreja?

Entre as 172 notas de rodapé desta encíclica, nem todas são de fontes surpreendentes. Os escritos de João Paulo II são citados 37 vezes – o mais próximo é o Papa Bento XVI, que vem em segundo lugar com 30 citações. Enquanto alguns podem tentar distanciar os ensinamentos sociais de Francisco sobre o meio ambiente e a economia dos ensinamentos de seus antecessores, estas referências – e este é o propósito delas – devem ajudar a lembrar ao leitor que ele está se baseando numa tradição profundamente estabelecida de preocupação social.

Tal como acontece com outras encíclicas papais, Laudato Si’ destaca a importância de prestarmos atenção às notas de rodapé. Como digo aos meus alunos nos cursos sobre doutrina social católica: sigam as notas de rodapé. Talvez nos surpreendamos com o lugar aonde elas podem nos levar.

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