Bispos americanos debatem o lugar da pobreza em suas prioridades futuras

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16 Junho 2015

Uma discussão robusta irrompeu nessa quinta-feira de manhã quando os bispos norte-americanos discutiram sobre a forma como as suas prioridades daqui para frente podem refletir aquelas estabelecidas nestes dois primeiros anos de pontificado do Papa Francisco.

A reportagem é de Brian Roewe, publicada pela National Catholic Reporter, 11-06-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Numa das três votações na ordem do dia durante o encontro anual dos bispos, passou-se da apresentação à discussão e, daí, à aprovação de um projeto inicial cujo objetivo é estar baseado no atual pontificado.

Era esse o plano, disse Dom J. Peter Sartain, de Seattle, presidente da Comissão para as Prioridades e Planos, que junto com Dom Gregory Aymond, bispo de Nova Orleans, enfatizou que as prioridades da conferência propostas para 2017-2020 – resultantes das várias sondagens feitas pelos bispos – estavam em fase de elaboração. A votação final da prioridades virá na Assembleia Geral de 2016, a ser realizada em novembro em Baltimore.

“O que aconteceu hoje é exatamente o que eu esperava”, disse Sartain durante uma coletiva de imprensa. “O que vimos, na prática, foi o próprio processo de planejamento”, com uma nova consulta a ser feita nos comitês e em reuniões futuras.

As cinco prioridades apresentadas – família e casamento; evangelização; liberdade religiosa; a vida e a dignidade humanas; e vocações – mostraram-se muito parecidas com aquelas enfatizadas pela conferência dos bispos nos últimos anos. Mas os bispos sublinharam que a novidade estava nos detalhes, que cada prioridade era propositadamente ampla, com ênfases específicas associadas a cada ponto.

Por exemplo, sobre a família e o casamento, as áreas de ênfase convidam os casais jovens para o sacramento do Matrimônio, proporcionando uma formação para aqueles casados na igreja e um trabalho social às famílias desestruturadas. Na prioridade da evangelização, a Comissão citou Francisco, usando a expressão: “o discipulado missionário”.

“Acho que o que temos agora é uma explicitação do que estávamos fazendo o tempo todo” disse Sartain. Mesmo assim, vários bispos expressaram, um após o outro, certa preocupação com a percepção e a direção das prioridades aprovadas.

Primeiro foi o recém-nomeado Dom Christopher Coyne, de Burlington, Vermont, que expressou a preocupação de que, tal como apresentadas as prioridades, parecem que “estamos fazendo a mesma coisa que sempre fizemos”. Coyne, presidente eleito da Comissão para as Comunicações, sugeriu que as prioridades sejam apresentadas com suas ênfases para “dar uma compreensão real do que estamos fazendo”.

Dom Joseph Tobin, de Indianapolis, ecoou o seu ex-bispo auxiliar.

“Embora não encontre nenhum problema com estas cinco prioridades, penso que elas são uma reafirmação das prioridades que este organismo adotou no passado. Estou preocupado que a novidade que o Papa Francisco está fazendo à Igreja universal (...) não esteja refletida nas prioridades”, disse ele.

“Não tenho certeza de como estes pontos de ênfase funcionam, mas eu diria que a novidade de Francisco deve condicionar, de forma muito visível, as prioridades futuras de forma que fique claro nós o levamos a sério e que estamos aceitando a sua orientação pastoral”, disse Tobin, acrescentando que desejava que fosse dada uma prioridade mais clara aos marginalizados.

Dom George Thomas, da Diocese de Helena, no estado de Montana, foi mais direto: “Quero expressar a minha decepção. Eu realmente acho que precisamos dar uma visibilidade muito maior à situação dos pobres, à disparidade econômica que tantas famílias sentem, à pobreza rural, ao desemprego, à luta dos trabalhadores pobres. Gostaria de pensar que, com a evolução destas prioridades, haverá muito mais visibilidade e ênfase a elas na Conferência dos Bispos e que o conjunto dos bispos colocaria o seu peso moral na defesa dos pobres dos EUA”.

Quando pareceu que a discussão seria interrompida por motivos de horário, Dom Blase Cupich, arcebispo de Chicago, pediu que fosse feita uma discussão completa. Cupich disse depois que achou “impressionante” que o único uso da palavra “defesa”, nas prioridades, veio quando se tratou da liberdade religiosa. Cupich levantou a questão da imigração como uma outra área em que se precisa trabalhar.

“Estamos enfrentando uma política de imigração falida”, disse ele. “Esta questão tem um enorme impacto na vida familiar, no casamento. Me parece que devemos ser capazes de refletir, em nossas prioridades, certos aspectos desta defesa junto às pessoas e aos pobres que para cá imigram”.

Ele também expressou concordância com o bispo de San Diego Dom Robert McElroy, que no início salientou que as prioridades deveriam refletir claramente uma compreensão católica da liberdade religiosa, que se manifesta em três níveis: no da consciência individual, no das comunidades religiosas e no dos empregadores seculares.

Em declarações ao National Catholic Reporter após a reunião, McElroy, membro da comissão de prioridade e planejamento, disse que, embora medidas foram tomadas para refletir o pontificado de Francisco nas prioridades, “elas precisam ser ampliadas”.

Ele disse acreditar que a questão da pobreza ou precisa ser mais destacada ou se tornar uma prioridade à parte.

“Acho que a questão da pobreza é extremamente importante neste momento da história da Igreja no país e no mundo”, disse ele.

Aymond disse durante a coletiva de imprensa que a Comissão não pensou em ir além das cinco prioridades. Ele disse que o grupo prefere limitar o conjunto deles aos cinco que foram apresentados, “tecendo aquelas preocupações e nuances que depositamos nesta primeira elaboração: uma grande ênfase e um trabalho social junto àqueles que estão em situação de pobreza. Precisamos ser mais específicos, precisamos ser mais diretos”.

Cupich disse ao National Catholic Reporter que sentiu que os bispos estavam, talvez, se movendo em direção a dar um destaque maior à questão da pobreza. Ele disse que pensou que eles também poderiam querer considerar se a liberdade religiosa deva ser uma prioridade singular ou se ela melhor se ajusta dentro do âmbito da evangelização.

“É uma preocupação. Precisamos ter certeza de que a liberdade religiosa está protegida, mas se está – ou não – acima do estado de pobreza é, penso eu, um assunto para um debate posterior”, disse ele.

Sobre a liberdade religiosa, Dom Yousif Habash, da Igreja Católica síria em Newark, Nova Jersey, expressou a preocupação de que os bispos continuassem a falar sobre a liberdade religiosa sem abordar a perseguição religiosa, em particular a perseguição aos cristãos no Oriente Médio, na Ásia e na África.

“Estou em apuros. O cristianismo está em apuros”, disse ele.

No debate aberto e livre, outros bispos manifestaram uma preferência por enfocar a pobreza nos próximos anos. Dom Michael Bransfield, da Wheeling-Charleston, Virgínia Ocidental, descreveu esta preferência em termos de comunidades mineiras de sua região. O cardeal aposentado de Washington, Theodore McCarrick, disse que ficou “muito feliz” quando a discussão sobre a pobreza começou e que a palavra-chave de papado Francisco vem sendo os pobres.

“Creio que quando o Santo Padre vier aqui, ler sobre o que estamos falando e ver o que estamos planejando, seria ótimo se, em algum lugar aí, houvesse uma frase dizendo que não vamos esquecer os pobres”, ele disse.

Perguntado como a próxima encíclica papal sobre o ambiente pode influenciar as prioridades, Aymond destacou que a primeira área de ênfase da prioridade “vida e dignidade humana” afirma: “Formar discípulos alegres dispostos a proclamar a santidade da vida humana e da criação de Deus”. No entanto, disse ele, este é um exemplo de uma área que poderia exigir uma reformulação para dar ao meio ambiente uma maior atenção.

Sartain disse que, além da encíclica, o próximo Sínodo Ordinário dos Bispos sobre a família e o Ano Santo da Misericórdia também terão um efeito na iteração final do plano. Cupich disse ao National Catholic Reporter que espera que os temas da encíclica surjam entre as prioridades dos bispos.

“Acho que o papa está falando sobre questões do dia de uma forma que eleva o nível de discussão. (...) Estou em busca de um documento que, realmente, estabeleça as preocupações principais, e teremos de levar isso em consideração em nossos próximos encontros”, ele disse.

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