São Francisco e o louvor à criação. Quando era o homem que temia a natureza

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17 Junho 2015

“No-lo ensinaram na escola, dizendo-nos que foi um dos primeiros textos em língua vulgar. E é belo que o italiano tenha iniciado assim: louvado seja! Que é como dizer, com todas as próprias forças, obrigado!”. Com estas palavras, afirma “um frade”, um comentário original em várias línguas em livraria a poucos dias: São Francisco, Louvado seja, meu Senhor! (Padova, Edições Messaggero di Padova, 2015, 120 págs., 12 euros) aos cuidados de Fabio Scarsato, com ilustrações de Luca Salvagno. São – além de Giovanni Bachelet, cuja intervenção publicamos em página – franciscanos e poetas, economistas e filósofos, escritores e jornalistas, homens de Igreja e representantes de religiões, mas também algumas crianças da paróquia de Roncadelle (Brescia) e um casal de leigos franciscanos.

A impressão é que o Canto das Criaturas seja como um grande vitral ao qual cada um olha deixando se capturar por cores e revérberos particulares, também porque historiada por inumeráveis temas, alguns insuspeitados. Da primeira parte, aquela cosmológica, na qual se convocam as criaturas inanimadas para que junto ao homem ergam o próprio louvor a Deus, se passe de fato à segunda parte, de caráter mais antropológico, na qual emergem temas densos do perdão e da paz, do sofrimento e das tribulações, da morte com a qual todos, antes ou depois, devem fazer as contas. De tudo se trata, então, além de um canto tranquilo de um enamorado da natureza que exalta a beleza e se interessa por sua integridade, também porque, nos tempos de São Francisco, não era a natureza a temer o homem, mas vice-versa. Os grandes desmatamentos realizados no coração da Europa durante a Idade Média, para criar pastagens e terras cultiváveis, eram de fato realizados nos moldes de empresas épicas.

A comentário é de Ugo Sartorio, frei franciscano, publicado pelo jornal L'Osservatore Romano, 11-06-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Qual é, então, a correta perspectiva para não entender compreender mal um texto que demasiadas pessoas forçaram com interpretações parciais? Como escreve monsenhor Paolo Martinelli, um dos contribuintes, a própria vida do santo de Assis representa a chave hermenêutica mais segura, em particular os últimos dois atribulados anos de sua existência: ou seja, quando a ordem dos minoritas, sempre mais institucionalizada, parece fugir-lhe das mãos; quando os estigmas, sinal da íntima união com Cristo, já marcam de modo indelével o seu corpo; quando uma desgastante e incurável enfermidade lhe torna insuportável a própria visão da luz.

“Como é possível – comenta Martinelli – que em tais condições tenha podido escrever um Cântico que contém a mais formidável afirmação da positividade do real?”. Somente atravessando esta aparente contradição se chega ao texto do Cântico de modo lúcido, capazes de entender, finalmente em condições de ver com os próprios olhos de Francisco, em profundidade. E o que se vê? Se veem as criaturas finalmente irmanadas, umas junto às outras, revelações do amor de Deus e lugar do restituir-se a Ele a partir do cosmo e do próprio homem. “Quanto são doces e maravilhosos estes termos de irmão e irmã”! – escreve a poetisa Donatella Bisutti.

Segundo ela, "não se adverte, lendo-os, uma espécie de paz infinita descer no coração? E não se é levado a acolher estas palavras de Francisco como uma revelação da verdadeira essência, do verdadeiro significado do mundo?”

Francisco foi o único, também entre os santos, que colheu esta dimensão de fraternidade universal que resolve e dissolve todo conflito, evitando, todavia, qualquer tentação de uma leitura panteísta do universo, que é bem outra coisa”. A terra é a única das criaturas a ser chamada simultaneamente “irmã” e “mãe”, sendo ela que “sustenta e governa”, isto é que nos procura o alimento para sustentar-nos, para a qual a conduta do homem perante ela é decisiva.

Infelizmente, comenta o gastrônomo Carlo Petrini, “as políticas que pomos na existência perante o solo ou a agricultura estão bem longe de ter um olhar amoroso sobre a terra e sobre quem a trabalha”. Como bem sabemos, todavia, transcurar a terra significa, de fato, não cuidar do amanhã, do futuro de todos, em particular da geração vindoura, para a qual, sublinha a biblista Irmã Elena Bosetti, é necessário reencontrar a sintonia que o Santo de Assis teve com a mãe terra.

“Para fazer isto se requer humildade, não no sentido de um genérico redimensionamento de si mesmos, quanto muito mais da recuperação de uma correta relação com Deus. Se o Cântico inicia com a palavra ‘Altíssimo’, ele conclui com o termo humildade, que apela para o húmus, uma vez mais a terra. Empastado de pó, o homem é livre interlocutor de Deus, e esta é sua verdadeira grandeza, o que o torna o parceiro de Deus colocado no jardim para que o cultive e o custodie” (Gênesis, 2, 15) indica o habitar do homem em sua especificidade, aquela que o torna único em relação a todo ser vivo: se cultivar exprime o trato mais ativo e transformador do agir humano, no sentido de que o homem intervém sobre a vida e a transforma tomando a iniciativa, não pode faltar a dimensão do custodiar, que não significa defender a invariabilidade absoluta do que existe, quanto principalmente respeitar sua finalidade, sem pressões e compromissos. A perspectiva correta é, portanto, aquela do cultivar custodiando e do custodiar cultivando, interpretando criativamente aquela função de stewardship (gestão, administração) que Deus desde o início confiou ao homem. Esta é a genuína perspectiva bíblica da qual o santo de Assis se faz arauto.

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