Francisco: os poderosos não querem a paz porque vivem de guerras

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Por: André | 13 Maio 2015

Puseram-lhe uma pulseirinha e deram-lhe o “capacete da paz”, “porque és o nosso primeiro operário da paz”. As crianças o receberam cantando “We are de world”, saudaram-no entre coros e abraços. O Papa Francisco recebeu na segunda-feira, 11 de maio, 7.000 crianças da Fábrica da Paz e abandonou o discurso que havia preparado para responder às 13 perguntas que as crianças lhe fizeram. Os temas foram muito variados: da paz e da guerra até a prisão e a doença. “Onde não há justiça não há paz”, fez as crianças repetirem em coro e depois lhes explicou que no mundo não há paz porque os poderosos lucram com a indústria das armas.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi e publicada por Vatican Insider, 11-05-2015. A tradução é de André Langer.

A iniciativa, organizada pela psicóloga Maria Rita Parisi e outras pessoas, pretende mobilizar as instituições, os meios de comunicação, os organismos eclesiais, organizações não governamentais, as forças do trabalho e da política para construir “agora e no futuro” um mundo de paz.

Um menino egípcio que mora na periferia de Roma (“Tor Pignattara te ama e te espera”, disse) recordou que, assim como muitos filhos de migrantes, ele provém de um país no qual há pobreza e guerra; em seguida perguntou ao Papa por que “os poderosos não ajudam as escolas”. “Pode-se fazer uma pergunta mais ampla”, respondeu o Papa: “Por que muitos poderosos não querem a paz? Porque vivem das guerras, a indústria das armas é poderosa! Os poderosos ganham a vida fabricando armas e vendem-nas a este ou aquele país: é a indústria da morte... lucram com isso. Vocês sabem que a cobiça provoca muito dano, esse desejo de ter mais, mais dinheiro: e quando vemos que tudo gira em torno do dinheiro, que o sistema econômico gira em torno do dinheiro e não em torno das pessoas, do homem e da mulher, sacrifica-se muito, e fazem-se guerras para defender o dinheiro. E por isso muitas pessoas não querem a paz: ganham mais com a guerra, dinheiro, mas perdem as vidas, a cultura, a educação, perdem muitas coisas. Um padre já idoso que conheci há alguns anos dizia: o diabo entra pela carteira, pela cobiça, e por isso não querem a paz”.

“Querido Papa, tenho 9 anos e sempre ouço falar da paz, mas o que é a paz?”, perguntou um menino que estava em uma cadeira de rodas; explicou-lhe que irá a Lourdes com a Unitalsi [União Nacional Italiana de Transporte de Doentes a Lourdes e a outros Santuários] e pediu-lhe para que manejasse o trem para que não chegue atrasado. “Muito bem!”, respondeu o Papa. “A paz – prosseguiu – é, em primeiro lugar, a ausência de guerras, mas também que haja alegria, amizade entre todos, que cada dia se dê um passo na direção da justiça, para que não haja crianças famintas, doentes que não tenham acesso à saúde. Fazer tudo isso é fazer a paz. A paz é um trabalho, não é ficar parado; é trabalhar para que todos tenham a solução para os problemas, para as necessidades que têm em suas terras, em suas pátrias, em suas famílias, em suas sociedades: assim se faz a paz, artesanalmente!” A paz “não é um produto industrial; a paz é um produto artesanal, é construída diariamente com o nosso trabalho, com a nossa vida, com o nosso amor, com a nossa proximidade, com o nosso amor. A paz é construída todos os dias”. Na sequência, Jorge Mario Bergoglio pediu que as crianças repetissem em coro: “Onde não há justiça não há paz”.

A prisão foi outro tema sobre o qual o Papa refletiu com as crianças. Um menino que se encontra no reformatório de Casal del Marmo, em Roma, perguntou ao Papa: “A resposta para as crianças como eu é a prisão. Está de acordo?” “Não – respondeu Francisco –, não estou de acordo”. Precisa-se ajudá-las “a levantar-se, a reincorporar-se com a educação, com o amor, com a proximidade, mas ir à solução da prisão é o mais cômodo para esquecer aqueles que sofrem. Dou-lhes um conselho – disse o Papa dirigindo-se às crianças –, quando disserem a vocês que aquele está na prisão, digam para vocês mesmos: eu também posso cometer os mesmos erros que ele cometeu. Todos podemos cometer os erros mais feios. Nunca condenem, ajudem sempre para que se levantem e para que se reincorporem à sociedade”.

Uma menina, cujo pai se encontra na prisão, perguntou a Francisco se “há a possibilidade de perdão para os que fizeram coisas feias”. E o Papa disse: “Ouçam bem isso. Deus perdoa tudo. Somos nós que não sabemos perdoar. Somos nós os que não encontramos vias de perdão, muitas vezes por incapacidade ou porque é mais fácil encher as prisões do que ajudar a seguir em frente aqueles que se equivocaram na vida. A via mais fácil é ir à prisão, sem perdão. E o que significa o perdão? Tu caíste e eu te ajudo a te levantar, a te reincorporar na sociedade. Há uma música muito bonita que os alpinistas cantam: na arte de subir, a vitória não é não cair, mas não ficar caído. Todos caímos, todos nos equivocamos, mas a nossa vitória, sobre nós e sobre os outros, é não ficarmos caídos e ajudar os outros para que não fiquem caídos. Este é um trabalho muito difícil; é mais fácil descartar da sociedade uma pessoa que cometeu um erro feio e condená-la à morte metendo-a pelo resto da vida na prisão. O trabalho deve ser sempre o de reincorporar, não ficar caído”.

Rafael, um menino latino-americano que teve problemas no coração, comoveu o Papa com suas perguntas. “Há alguma razão – respondeu o Papa – pela qual um menino, sem ter feito nada de mal, possa vir ao mundo com os problemas que teve? Esta pergunta é uma das mais difíceis de responder: não há resposta. Houve um grande escritor russo, Dostoievski, que se fez a mesma pergunta: por que as crianças sofrem? Só se pode olhar para o céu e esperar respostas que não se encontra”. O que posso fazer para que uma criança sofra menos? “Estar perto dela. E a sociedade trata de ter centros de cura, centros de ajuda paliativa, trata de desenvolver a educação das crianças com doenças. Eu – disse o Papa – não gosto de dizer que uma criança é incapacitada, não: todos têm a capacidade de nos dar alguma coisa, de fazer alguma coisa”.

E houve perguntas mais pessoais. “Eu brigo muitas vezes com a minha irmã. Tu brigaste alguma vez com tua família?” “Levanta a mão quem nunca brigou com um irmão ou com alguém da família: nunca? Todos já fizemos isso!”, respondeu o Papa. “Faz parte da vida, porque eu quero brincar uma coisa e o outro quer brincar outra coisa, e depois brigamos... mas, no fim, é importante fazer as pazes. Brigamos, mas não acabemos o dia sem ter feito as pazes”. O Papa reconheceu que “briguei muitas vezes, inclusive agora, me ‘esquento’ um pouco, mas sempre procuro fazer as pazes juntos”.

“E se uma pessoa não quer fazer a paz contigo, o que fazes?”, perguntou-lhe outra menina. “Em primeiro lugar, respeito a liberdade da pessoa”, respondeu Bergoglio. “Se esta pessoa não quer falar comigo, não quer fazer as pazes, se tem dentro de si não digo ódio, mas um sentimento contra mim, é preciso respeitá-la: rezar, mas nunca vingar-se”. “Não gostaria de estar mais em paz?”, perguntou-lhe outro menino. “Muitas vezes gostaria de um pouco de tranquilidade, repousar um pouco mais, é verdade: mas estar com as pessoas não tira a paz. O que tira a paz é não amar, a inveja, a avareza, tirar as coisas dos outros: isso tira a paz. Mas estar com as pessoas é precioso. Cansa um pouco; eu já não sou mais nenhum jovem, mas não tira a paz”.

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