PUC-SP rejeita criação da cátedra Foucault

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30 Abril 2015

Primeira universidade do mundo, fora da França, a abrigar uma coletânea de áudios do filósofo Michel Foucault, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) pode ter de devolver o material. O Conselho Superior da Fundação São Paulo, mantenedora da universidade, recusou no início do ano a criação de uma cátedra do pensador.

A reportagem é de Isabela Palhares, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, 30-04-2015.

Os professores responsáveis pelo projeto foram informados sobre a decisão na semana passada. Nesta quarta-feira, 29, em reunião, o Conselho Universitário (Consun) informou que vai encaminhar um pedido de reconsideração ao Conselho Superior, órgão deliberativo máximo formado pela reitora Ana Cintra, bispos da Arquidiocese de São Paulo e o cardeal d. Odilo Scherer.

A cátedra universitária é uma instância acadêmica destinada a fomentar o debate em torno de algum pensador ou teórico e para a preservação e atualização de seu trabalho. Foucault é conhecido por suas críticas às instituições sociais, entre elas a Igreja Católica. Além disso, era homossexual e foi uma das primeiras figuras públicas francesas a morrer por complicações da aids.

Órgão máximo

Segundo representantes da Associação de Professores da PUC (Apropuc), a recusa do Conselho Superior teria sido motivada pelo fato de as ideias de Foucault não estarem em consonância com os princípios católicos. No entanto, a justificativa da decisão não foi formalmente apresentada ao Consun na reunião desta quarta.

O professor Márcio Alves da Fonseca, um dos proponentes da cátedra, disse que os áudios foram doados, em 2011, pelo Collège de France, instituição em que Foucault ministrava os cursos gravados. À época da doação, intermediada pelo Consulado-Geral da França, foi solicitado que a universidade criasse uma cátedra para o filósofo. “Não se trata de dar um tratamento ideológico para o trabalho de Foucault, mas reconhecer sua importância acadêmica”, disse Fonseca.

Caso não haja a criação da cátedra, ele disse não saber se o material terá de ser devolvido à instituição francesa. “Existia uma expectativa deles, eu não sei quais podem ser as consequências”, disse.

Os áudios, gravados entre 1971 e 1984, já estão disponíveis na biblioteca do Departamento de Filosofia da PUC desde 2012. A universidade até montou uma plataforma eletrônica para oferecer os áudios para alunos e pesquisadores e evitar a reprodução e degradação dos arquivos.

Em discussão

Em nota, a PUC informou apenas que o assunto segue em discussão na universidade e na Fundação São Paulo e ainda não tem uma nova decisão sobre a criação da cátedra. Também informou que sempre apoiou a pesquisa e destacou que o incentivo à investigação científica e à produção de conhecimento são marcas da PUC. O Estado tentou contato com o cardeal d. Odilo Scherer, mas foi informado que ele estava em viagem e não poderia dar entrevistas.

Para lembrar

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) foi, durante o regime militar, um abrigo para professores e estudantes de movimentos de esquerda. Nos anos 1970, a universidade contratou professores que haviam sido aposentados compulsoriamente de instituições públicas pelos militares, como Florestan Fernandes e Octavio Ianni.

O Teatro da PUC (Tuca) também se tornou um dos principais locais de manifestações políticas durante a ditadura e no período de redemocratização. O espaço recebia reuniões da União Nacional dos Estudantes (UNE) e se tornou um polo de discussão da intelectualidade brasileira da época.

Para especialistas, crítica a cristianismo incomoda religiosos

Para especialistas na análise dos trabalhos de Foucault, a crítica do filósofo ao cristianismo é o que incomoda os religiosos. “Foucault dizia que o cristianismo exerce um poder pastoral nas pessoas, que a religião é uma forma de dominação, uma sujeição e não libertação”, explicou Margareth Rago, professora do Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Para Alfredo Veiga-Neto, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), as ideias de Foucault são libertárias do ponto de vista da sexualidade, das relações de poder e educação e, por isso, sofrem resistência de alguns setores. “Mas a presença intelectual dele no Brasil é grande e tende a crescer nos próximos anos.”

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