Quando o cardeal Ortega disse a Bergoglio: ''Esta tarde, você será papa''

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30 Março 2015

Há algo altamente simbólico no ato com que o cardeal de Havana, Jaime Ortega Alamino, colocou a primeira pedra da Igreja que trará o nome de João Paulo II, no bairro Antonio Guiteras, a leste de Havana.

A reportagem é de Alver Metalli, publicada no sítio Vatican Insider, 27-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Não só porque coroa – aqui também em sentido metafórico – uma política paciente de pequenos passos, de diálogo, de conciliação nacional, buscada com determinação, mas também porque sinaliza uma direção que ele deixa como herança à Igreja cubana como um todo.

"O diálogo é o novo nome do amor", repete o purpurado com Paulo VI, "é o único caminho", reitera, citando um diálogo seu com Bento XVI. O cardeal Ortega desdobra o sentido dessas duas frases como um lenço na entrevista com Yarelis Rico Hernández há dois meses, "em uma longa manhã de janeiro", publicada apenas na quarta-feira, 25 de março, na Palabra Nueva, a revista da arquidiocese que ele liderou por 33 anos.

Na entrevista, o purpurado reiterou as suas convicções mais profundas: na fé, na vida, nas relações entre as pessoas e destas com a sociedade, aquela mesma concepção que, às 10 horas do sábado, 14 de março, fazia com que ele apoiasse aquele tijolo no terreno onde surgirá a paróquia dedicada ao papa polonês.

Na entrevista, Ortega reiterou o julgamento já conhecida sobre o acordo do dia 17 de dezembro entre Obama e Raúl Castro: "Um acontecimento histórico, um dos maiores da história de Cuba, como a visita de João Paulo II, como a Revolução Cubana...".

Algumas linhas depois, ele lança a questão para a frente, como é seu costume. "Esperamos que possa haver um acordo em nível de Santa Sé com o Estado cubano sobre a Igreja em Cuba, em que se recolha tudo o que foi alcançado, se especifique que isso será mantido para sempre e fique, além disso, como um marco aberto para seguir em frente".

Ortega é o grande artífice desse acordo entre Obama e Raúl Castro, porque escalou uma onda de uma busca paciente de diálogo, que desafiou oposições e culpas, em Cuba assim como em Miami, e também em Roma, onde o purpurado não tinha nem todas as portas escancaradas, como agora com o papa argentino.

É anedótica a observação que ele deixou escapar durante a entrevista: "Às vezes, algum sacerdote que vem do exterior apresenta uma dureza que o nosso sacerdote cubano não têm".

A temporada do cardeal Ortega está no fim, mas a sua abordagem global tem bases sólidas e um papa que a compartilha, portanto, continuará depois dele. Ele completou 78 anos, apresentou a carta de renúncia nas mãos de Bento XVI há três anos, quando ele tinha 75 anos, mas o sucessor, Francisco, ainda não aceitou que ele saia de cena.

"O Santo Padre me disse: 'A tua carta está na minha gaveta, é preciso esperar outro momento, um pouco mais propício, e, depois, veremos'."

Pelo que ele confidenciou à Palabra Nueva, sabemos que, uma vez aceita a renúncia e tornando-se emérito, ele não tem a intenção de se retirar para algum lugar oculto. Sabemos, também, que ele vai viver "muito perto do arcebispado", no Centro Cultural Padre Félix Varela, outra criação sua. Sabemos que ele vai escrever as suas memórias – "Algumas pessoas me recomendaram" – e, talvez, ele já tenha uma editora. Sabemos que ele vai viajar, começando pela América Latina: "Quantas vezes me convidaram no Chile! É um país que eu nunca visitei e me encantaria ver".

Há dois episódios nos seus últimos anos que o cardeal Ortega talvez tenha confidenciado a amigos íntimos, mas que são desconhecidos do grande público e que dizem muito sobre o seu modo de ver as coisas.

O primeiro: "O Papa Bento XVI, na sua última conversa comigo, sete ou oito meses antes da sua renúncia, me perguntou se a Igreja em Cuba estava disponível para o diálogo. Ele me perguntou abruptamente, porque estávamos falando sobre sua viagem a Cuba. Eu respondi que sim, e ele me perguntou se os mais jovens também estavam disponíveis para o diálogo. 'Talvez os mais jovens não viveram as grandes dificuldades que a Igreja teve no passado e não se dão conta de quanto mudou a situação hoje', comentou o Santo Padre. Eu lhe disse: 'Santidade, também há outro fator. Aqueles que viveram uma época muito difícil, de escolas no campo, de muita doutrinação de tipo ideológico que lhes chegava a fatigar, a cansar, tornaram-se, talvez, distantes interiormente, como que visceralmente alheios'. E o papa me respondeu: 'Mas o diálogo é o único caminho'. Eu lhe disse que sim, que todos, como cristãos, compreendemos que esse é o único caminho. E ele me disse: 'A Igreja não está no mundo para mudar governos, mas para transformar com o Evangelho o coração dos homens, e esses homens vão mudar o mundo segundo a disposição da Providência'".

Há outro episódio sobre o qual se tinha alguma noção e não confirmação, um pouco como os astrônomos que chegam à existência um corpo celeste que não veem a partir do equilíbrio de diferentes atrações que o afirmam.

"No dia em que o Papa Francisco foi eleito, eu estava viajando no mesmo micro-ônibus dele, vindo da Capela Sistina para a casa de Santa Marta. Chovia, fazia frio, estávamos sentados um ao lado do outro, e eu lhe disse: 'Jorge, eu gostaria de falar um pouco contigo'. Ele me perguntou: 'Quando?'. Eu lhe disse: 'Agora mesmo, temos 40 minutos antes do almoço'. Ele me perguntou se o meu quarto era grande, eu lhe respondi que sim, era o que peguei no sorteio, ele tinha pego um pequeno e no quinto andar. Ele me indicou: 'Eu vou ao seu quarto'. 'Eu quero falar contigo sobre a América Latina – expliquei – porque tu vais ser papa hoje à tarde'. 'Bueno, si no se vira la tortilla' ['Bom, se o omelete não se virar'], cortou."

O diálogo entre os dois cardeais continua sobre a América Latina, como conta Ortega na entrevista, que lembra a época em que foi vice-presidente do Celam e redigia documentos sobre as desigualdades e sobre a dependência do continente aos Estados Unidos. Até chegar aos dias de hoje.

"A diferença entre ricos e pobres continua sendo ainda grande, mas não existe essa dependência dos Estados Unidos, ninguém pensaria em falar disso em um documento. 'Toda a América Latina está unida, Cuba é quem preside a Celac', eu lhe disse. 'Queríamos ter feito essas mudanças com o nosso povo que estudou Doutrina Social da Igreja nas nossas universidades, mas não foi assim, foram feitas por Hugo Chávez, Evo Morales, os Kirchner, Lula da Silva, Rafael Correa, Daniel Ortega, todos com uma inspiração que vem de trás, da Revolução Cubana de Fidel Castro. E diante dessas mudanças – eu lhe disse –, me parece que eu vejo a Igreja como espectadora. E o que a Igreja está esperando? Que esses governos passem e venham outros que lhe deem um lugar de privilégio e a favoreçam? Às vezes, essa expectativa se torna crítica.' E o cardeal Bergoglio – pois ele ainda não era papa – me respondeu: 'Não, não, a Igreja não pode estar nunca na expectativa, muito menos em uma expectativa crítica. A Igreja nunca pode ser uma simples espectadora. A Igreja tem que acompanhar esses processos em diálogo.' Então, eu lhe contei sobre a minha última conversa com Bento XVI. Ao chegar no fim da minha história e ao lhe dizer a frase que concluiu aquele encontro, ele se emocionou: 'Ah, que frase! Eu colocaria isso em um cartaz, na entrada de todas as cidades do mundo."

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