Celibato dos padres: as diversas cartas na mão de Bergoglio

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04 Março 2015

Não há apenas a proposta de indulgência para os padres casados sobre a mesa do Papa Francisco. No delicado dossiê pontifício sobre o celibato dos sacerdotes, encontram espaço diversos projetos provenientes das Igrejas locais.

A nota é de Giovanni Panettiere, publicada no blog Pacem in Terris, 02-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Da África do Sul ao Brasil, trata-se de teses levantadas na ótica de encontrar soluções credíveis para o antigo problema da crise vocacional e para a urgência de garantir a missa dominical em cada comunidade católica.

Na Amazônia, por exemplo, de acordo com dados oficiais, em 800 realidades eclesiais, contam-se apenas 27 presbíteros para 700 mil fiéis. A Eucaristia é celebrada duas ou três vezes por ano, enquanto a confissão é uma miragem.

O que fazer? Recentemente, no tradicional encontro quaresmal do papa com o clero romano, o reitor da igreja de San Giovanni Battista dei Genovesi, padre Giovanni Cereti, sugeriu a Bergoglio um caminho para reintegrar aqueles padres que, com a autorização e a bênção da Igreja, escolheram o caminho do matrimônio, participam da vida da Igreja, mas estão proibidos de celebrar a missa. No mundo, estima-se que eles sejam mais de 100 mil (fonte: ildialogo.org).

Inclinado há décadas em favor da readmissão à comunhão dos divorciados em segunda união – ajudou o cardeal Walter Kasper na redação do controverso relatório introdutório ao consistório sobre a família –, Cereti propõe uma forma de indulgência para esses "ex-sacerdotes". Ou, ao menos, para alguns deles.

"Na Igreja antiga – argumenta o teólogo – a indulgência era dada para remover a penitência depois da absolvição. Hoje, se ela fosse aplicada aos muitos padres casados que desejam voltar, eles poderiam ser readmitidos ao ministério, avaliando caso a caso. Seria uma solução que curaria a ferida da dolorosa falta de tantos coirmãos que escolheram a vida matrimonial, embora não querendo abandonar o sacerdócio."

A perspectiva de referência para Cereti remete ao Concílio Vaticano II, "que autorizou o diaconato mesmo para quem não é célibe, preparando assim o caminho para a constituição de um clero uxorado [casado] também na Igreja de rito latino".

O discurso é diferente para o catolicismo oriental, em que os padres com família são uma realidade indiscutível.

Mais do que uma "ferida", para o papa, a questão dos padres casados é "uma chaga". Ao reitor da San Giovanni Battista, um Bergoglio particularmente atento e consciente do problema teria confidenciado que, "até agora, a Igreja não encontrou um caminho para curar essa chaga e, para ser sincero, não sei se encontrará".

Palavras prudentes que, mesmo assim, não impedem que Francisco lance sinais de fumaça particularmente encorajadores para os novatores. Como na missa em Santa Marta no dia 10 de fevereiro passado, na qual também participaram cinco presbíteros casados. Uma novidade absoluta dentro dos muros leoninos.

O pontífice também deixa aberta a porta do debate sobre a ordenação dos chamados viri probati, homens casados de comprovada fé e retidão. "Sobre isso, proponham sugestões", teria dito ele ao episcopado brasileiro. A ocasião foi a audiência concedida, em abril passado, a Dom Erwin Kräutler, bispo da diocese de Xingu, na Amazônia.

Recebido o convite, a Conferência dos Bispos verde-amarela imediatamente se pôs a trabalhar. Há meses, de fato, o cardeal Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e grande apoiador de Bergoglio no conclave, está dialogando com a Congregação para o Clero justamente sobre os viri probati.

Hummes, assim como o pontífice, não considera um dogma o celibato dos padres e, há algum tempo, quando era o número um do ministério dos clérigos (2006-2010), tentou abrir algumas frestas. Mas sem sucesso.

Não teve um melhor destino, em 2008, o documento conclusivo do 12º Encontro Nacional de Presbíteros brasileiros. No texto, fazia-se o pedido à Santa Sé para "possibilitar outras formas de ministério ordenado, que não seja o celibatário".

Essa reivindicação, junto com outras relacionadas com os divorciados em segunda união e às nomeações episcopais, depois, fora retirada por decisão do Conselho Permanente do episcopado brasileiro. Melhor não criar tensões com o pontífice da época, Joseph Ratzinger, devem ter pensado os bispos do país sul-americano.

Durante o encontro com Kräutler, Francisco definiu como "interessante" a tese de um prelado alemão, por muito tempo bispo na África do Sul. Dom Fritz Lobinger, este é o nome do pastor, 85 anos, de 1988 a 2004 à frente da diocese de Aliwal, defende a necessidade de ter na Igreja dois tipos de presbíteros.

Os atuais, célibes e assalariados pelas dioceses, e os "anciãos" que teriam uma profissão própria, uma família e não exerceriam o seu mandato de forma individual, mas em uma equipe de três ou mais. Estes últimos não seriam nem mesmo pagos pela Igreja e, dado central, seriam ordenados dentro das comunidades que iriam administrar. Um pouco como acontecia nos tempos dos Atos dos Apóstolos.

Viri probati, dupla tipologia de padres

Qualquer reforma que fosse aprovada, mesmo que apenas para o caso específico do Brasil – não nos esqueçamos de que Francisco defende uma descentralização do poder/serviço eclesial em benefício de uma maior autonomia das Conferências Episcopais nacionais (Evangelii gaudium, 34) –, ainda seria uma exceção à norma plurissecular – introduzida definitivamente pelo Concílio de Trento (1545-1563) – que proíbe, na Igreja de rito latino, a ordenação sacerdotal de homens casados.

Seria uma revolução por si só de resultados imprevisíveis, dada a firme oposição da galáxia tradicionalista, ainda particularmente representada no Sacro Colégio.

Em suma, além da reorganização da Cúria Romana, da transparência das finanças vaticanas, da luta sem descontos contra a pedofilia, da atualização da pastoral familiar, o papa também está lidando com outro canteiro de obras muito delicado.

O risco é de que os trabalhos não cheguem nunca ao fim. E que quem hoje celebra o clima mais propício ao debate na Igreja, até mesmo sobre um assunto espinhoso como o celibato eclesiástico, continue profundamente decepcionado.

Até porque a última reforma, em ordem de tempo, no campo do clero uxorado no Ocidente se deve a Bento XVI, à sua constituição apostólica Anglicanorum coetibus (2009), que permite que grupos de fiéis, leigos e pastores anglicanos, desejosos de se converterem ao catolicismo, entrem na Igreja de Roma, mantendo a sua identidade. Incluindo o matrimônio para os ministros de culto. Quem diria?

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