A nossa encruzilhada moral. Artigo de Francisco de Roux

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Por: André | 18 Fevereiro 2015

“O fracasso humano e das nossas instituições coloca-nos diante da bifurcação de ir fundo na luta pela paz ou afundar em outros 50 anos de inumanidade”, escreve Francisco de Roux, superior provincial da Companhia de Jesus na Colômbia, em artigo publicado no jornal colombiano El Tiempo, 10-02-2015. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

A maior obrigação moral pública que temos neste momento é terminar o conflito armado e empreender a construção das condições de paz a partir das regiões.

Este dever moral pede uma mudança espiritual e estrutural, porque o nosso fracasso humano e das nossas instituições, com nossos seis milhões de vítimas de todos os lados da guerra degradada e absurda, coloca-nos diante da bifurcação de ir fundo na luta pela paz ou afundar em outros 50 anos de inumanidade.

Durante o final de semana, participei em Washington da Conferência Por Colômbia, de estudantes de universidades dos Estados Unidos. O tema foi a análise do nosso conflito. Ali, enquanto os painelistas discutíamos sobre perguntas audazes dos jovens, a maioria mulheres, compreendi melhor a nossa encruzilhada.

Pouco importa que tenhamos território rico, economia estável, tradição católica, herança de indígenas e afros quando estas realidades são questionadas pela nossa consciência e pela comunidade internacional diante da objetividade da barbárie e da “maldição”, para dizê-lo com termos bíblicos.

Enfrentar esta bifurcação exigente e tensionadora e optar pela vida diante do conflito selvagem é o desafio moral. Em Havana busca-se um acordo para acabar com a guerra, mas em nossas mãos permanecem as contradições não desmontadas nem pela Constituição de 1991, nem pelos partidos políticos, nem pelos líderes religiosos, nem pelos educadores, nem pelos empresários, nem pelas organizações sociais, nem pelos formadores de opinião.

O que está em jogo é uma transformação que se inicia com o fim da guerra e que requer a vontade de um país para incorporar o ELN, desmantelar as ‘bacrim’, terminar com as armas na política, acabar com a coca e a mineração criminosa, levar a equidade ao mundo rural, frear a corrupção na Administração e na Justiça e articular as regiões com o país central em um país de propósitos comuns e paixão coletiva pelo bem comum. Isto só é possível se todos nos decidirmos pelo fim da guerra degradada e pela construção de uma democracia de direitos e economia social e justa de mercado.

São muitos os que tiram o corpo nas circunstâncias atuais. Porque os prejuízos e os medos não permitem aceitar que as FARC estejam em séria negociação irreversível, porque resistem em acreditar no propósito do presidente Santos, porque não se informaram, porque a politização torpe os polarizou, ou porque não captam a centralidade do problema rural na crise. O certo é que a sociedade ficou à espera da atuação decisiva, autônoma e pública dos líderes espirituais, sociais, empresariais e políticos que podem definir a bifurcação em um momento impostergável.

É o momento de contribuir com a opinião, com a crítica construtiva e as decisões. Se as FARCs fizeram nestes dias um pedido para que todos nos perdoemos, deveriam corrigir seu pronunciamento, reconhecer primeiro o mal feito em sua ação e aceitar responsabilidades e pedir perdão público. Assim, contribuiriam, dando o primeiro passo, para que cada um reconheça responsabilidades, para construir juntos na verdade, na justiça e na confiança, em vez de retroceder ao ódio e às vinganças.

Nesta situação, trago à baila o texto de Deuteronômio 30,15-20, que desafia a consciência de cada um de nós diante da encruzilhada: “Eis que hoje estou colocando diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a infelicidade... para que mereças a bênção de Deus e a posse da terra. Hoje tomo o céu e a terra como testemunhas contra ti: eu te propus a vida ou a morte, a bênção ou a maldição”.

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