“O lulismo é a baliza desta eleição”. Entrevista especial com Bruno Lima Rocha

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21 Outubro 2014

“O espaço do centro da política foi perdido pela coalizão de governo e isto se observa tanto na votação apertada de Dilma como na composição do Congresso”, avalia o jornalista e cientista político.

 Foto: encrypted-tbn3.gstatic.com

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais e o crescimento de Aécio Neves nas intenções de voto para o segundo turno são consequência, em parte, “de uma grande crise de projeto” que assola “as estruturas permanentes do movimento popular brasileiro”, à medida que os movimentos sociais “não aderem plenamente ao lulismo (pois este implica em pacto social) e tampouco rompem com o mesmo governo”, avalia Bruno Lima Rocha na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail.

Para ele, a crise dos movimentos sociais não está relacionada com a relação que eles passaram a ter com o Estado desde o início do governo Lula, em 2002, porque “todos os setores que reivindicam conquistas concretas e políticas públicas terminam relacionando-se com o Estado”, mas no Brasil, pontua, “vemos cada vez menos pressão e, em troca, o exercício da louca teoria do ‘governo em disputa’. Isto confunde a base e gera dupla lealdade entre os militantes-organizadores. Se formos para a questão sindical, aí o cenário é ainda pior. A postura recalcitrante foi vista já em 2013 (quando o partido de governo entendeu que havia “um golpe da direita”) e depois manifesta em 2014. Infelizmente, o patrimônio social do povo brasileiro — o de ter um movimento popular pujante e com reivindicações permanentes — terá de se redescobrir, e ir para além da forma de adesão aos partidos eleitorais”.

Rocha esclarece ainda que PT, PSB e PC do B compõem o grupo do que denomina de “ex-esquerda” brasileira, porque abriram mão da luta de classes e abandonaram “bandeiras e grupos de alianças históricas. O PSB traiu seu aliado mais importante, e o PT fez o mesmo ao aproximar-se de oligarcas para ter maioria no Congresso”.

Com a reconfiguração de alianças para o segundo turno, Rocha salienta que “Aécio só desponta como presidenciável com chances reais de vitória porque o lulismo sofreu uma fratura simbólica — tanto com Marina como com o PSB. Daí o espaço político repactuado neste segundo turno”. Para ele, por conta dos novos pactos políticos, “o PSB deixara de ser linha auxiliar do PT e como legenda de ‘centro’, retoma a posição que tinha durante o governo Itamar, como sendo um governo de coalizão nacional. O PSB, como tem projetos de poder próprios e não tem um programa inflexível, termina aderindo à campanha de Aécio para ser um agente com poder maior do que como aliado auxiliar do PT e sua coalizão oligárquica.

Marina arrisca quase tudo ao legitimar os tucanos e dar um voto de confiança ao PSDB, invertendo a Carta ao Povo Brasileiro. O PSB tende a se reorganizar — por exemplo, rachando por dentro e se aproximando ainda mais do frágil PPS. E, não sei se mesmo com a vitória de Aécio e uma possível participação de Marina em seu governo, a REDE consegue se constituir”.

Bruno Lima Rocha possui graduação em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e mestrado e doutorado em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Atualmente, leciona nos cursos de Relações Internacionais, Ciência Política e Jornalismo na Unifin, na ESPM-Sul e na Unisinos.

 Foto: IHU

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como interpreta o resultado do primeiro turno das eleições?

Bruno Lima Rocha - O primeiro turno das eleições no Brasil foi marcado pelo desastre aéreo de Eduardo Campos e a ascensão e queda de Marina Silva. A ex-ministra do Meio Ambiente foi alvo da campanha de seus ex-correligionários (com críticas acertadas) e deixou o espaço aberto para o retorno ao 2º posto do candidato tucano. Sempre disse que o lulismo só perderia para si ou sua dissidência. Esta dissidência foi reforçada, primeiro com a tentativa de voo solo do PSB e depois com o retorno da própria Marina ao centro da cena política. Dilma não venceria em primeiro turno, uma vez que o próprio Lula jamais vencera na primeira volta. Mas, a distância entre ela e seu adversário agora em 2º turno foi menor do que a distância dela para Serra em 2010. O espaço do centro da política foi perdido pela coalizão de governo e isto se observa tanto na votação apertada de Dilma como na composição do Congresso.

IHU On-Line - Quais são as evidências de que está havendo uma dificuldade de reação do movimento popular no Brasil diante do cenário eleitoral? Quais as razões dessa dificuldade?

Bruno Lima Rocha - As estruturas permanentes do movimento popular brasileiro estão, em sua grande maioria, dentro de uma grande crise de projeto. Não aderem plenamente ao lulismo (pois este implica em pacto social) e tampouco rompem com o mesmo governo. O problema não é ter relações com o Estado, isto é uma ideia meio pueril em política. Todos os setores que reivindicam conquistas concretas e políticas públicas terminam relacionando-se com o Estado; mas no Brasil vemos cada vez menos pressão e, em troca, o exercício da louca teoria do “governo em disputa”. Isto confunde a base e gera dupla lealdade entre os militantes-organizadores. Se formos para a questão sindical, aí o cenário é ainda pior. A postura recalcitrante foi vista já em 2013 (quando o partido de governo entendeu que havia “um golpe da direita”) e depois manifesta em 2014. Infelizmente, o patrimônio social do povo brasileiro — o de ter um movimento popular pujante e com reivindicações permanentes — terá de se redescobrir, e ir para além da forma de adesão aos partidos eleitorais. O mesmo se dá com os canais de transmissão de tipo corrente político-sindical. Não há instância intermediária que resista à agenda eleitoral.

Aécio só desponta como presidenciável com chances reais de vitória porque o lulismo sofreu uma fratura simbólica — tanto com Marina como com o PSB

IHU On-Line - Que partidos identifica como sendo ex-esquerda hoje no Brasil? PSB ou PT?

Bruno Lima Rocha - Ambos, e ainda incluo o PC do B. Mas quando digo que o PT é ex-esquerda, é porque o considero o partido social-democrata no Brasil. O PT tem a envergadura do PSOE espanhol, embora tenha um líder carismático. A esquerda eleitoral hoje é pequena e marcada pela disputa com dissidências do PT, o PSTU X PSOL. A centro-esquerda é a “esquerda” que abriu mão da luta de classes, e o PT lidera este campo volátil e propenso a abandonos de bandeiras e grupos de alianças históricas. O PSB traiu seu aliado mais importante, e o PT fez o mesmo ao aproximar-se de oligarcas para ter maioria no Congresso. Uso uma analogia. A ex-esquerda (ex porque não é mais classista) rumou para o centro, já a direita — as direitas — permaneceu no mesmo lugar ou está ainda mais aguerrida.

IHU On-Line - Como interpreta o apoio declarado do PSB e de Marina ao PSDB e seu “rompimento” com o PT? Apesar do apoio do partido, o presidente declarou apoio ao PT. De todo modo, quais são as consequências políticas desse apoio e como ele pode reconfigurar as alianças? Ou, por outro lado, entende que se trata de uma aliança momentânea e baseada em interesses, como tantas outras que assistimos nos últimos anos?

Bruno Lima Rocha - Temos uma superposição de interesses e objetivos. Marina saiu mal do governo e também adoraria ser indicada como herdeira do lulismo. Sua ambição política é de corte individual e opera um discurso muito sofisticado, influenciada por seus mentores pedagógico-empresariais. O PSB deixara de ser linha auxiliar do PT e como legenda de “centro” retoma a posição que tinha durante o governo Itamar, como sendo um governo de coalizão nacional. O PSB, como tem projetos de poder próprios e não tem um programa inflexível, termina aderindo à campanha de Aécio para ser um agente com poder maior do que como aliado auxiliar do PT e sua coalizão oligárquica. Já Marina arrisca quase tudo ao legitimar os tucanos e dar um voto de confiança ao PSDB, invertendo a Carta ao Povo Brasileiro. O PSB tende a se reorganizar — por exemplo, rachando por dentro e se aproximando ainda mais do frágil PPS. E, não sei se mesmo com a vitória de Aécio e uma possível participação de Marina em seu governo, a REDE consegue se constituir.

IHU On-Line - Quais são os efeitos do lulismo nestas eleições?

Bruno Lima Rocha - Vários, pois o lulismo é a baliza desta eleição. Veja bem, a tentativa de Aécio é tornar-se, aos olhos da classe média (média-média, classe C segundo o IBGE), um interlocutor válido, garantindo a permanência das políticas sociais. Esta é a pauta do lulismo. Este também se apresenta diante de uma campanha pautada pelo interesse da maioria — que hoje não é mais miserável e sim composta pelo mundo do trabalho e atravessada pelo pós-fordismo — mas sem adesão ao conflito de classes. Já comparei Lula ao Lech Walesa dos trópicos e não me arrependo da comparação. Lula e sua herança política realizaram a proeza de aumentar o nível de emprego direto sem o aumento da sindicalização e sem tampouco a existência de um vigoroso movimento popular com poderes de veto. Logo, temos no Brasil uma Argentina em tamanho de população “flutuando” entre as condições materiais de vida e a ausência de identificação ideológica. Este é o lulismo, onde Lula termina por operar como agente único de poder de veto dentro do outrora maior partido de (ex) esquerda eleitoral da América Latina.

IHU On-Line - O PT recebe críticas positivas por seu investimento em políticas sociais, mas críticas por manter a política econômica do FHC e por ter cooptado os movimentos sociais. As políticas sociais desenvolvidas nesses 12 anos são suficientes para reeleger o partido?

Bruno Lima Rocha - Seriam se houvesse uma fidelização destas políticas e um trabalho político — do PT — sobre elas. Quando falo trabalho político, é organizativo mesmo. Mas, os agentes econômicos que implantam parte destas políticas, como as maiores empreiteiras e a expertise brasileira na construção civil, são a inimiga de classe direta dos movimentos sociais por habitação. O mesmo se dá na luta do campo, onde mesmo com o Pronaf a relação da agricultura familiar com o agribusiness é muito, muito distante (desigual). Além do desgaste natural de 12 anos de governo e da exposição midiática do Poder Executivo, vale lembrar que Aécio só desponta como presidenciável com chances reais de vitória porque o lulismo sofreu uma fratura simbólica — tanto com Marina como com o PSB. Daí o espaço político repactuado neste segundo turno. Se houvesse uma fórmula mágica onde o eleitorado está pleno de racionalidade de tipo objetiva, o lulismo jamais perderia uma eleição no Brasil.

IHU On-Line - Que relações estabelece entre a direita oligárquica e a ex-esquerda?

Bruno Lima Rocha - É a tal da governabilidade. O Executivo precisa de maioria, se mescla com antigos inimigos, governa com arenistas históricos e depois reclama da defecção ideológica, da crise interna no partido de governo, da fragilidade das alianças. Infelizmente tal política gera crise de identidade com a “esquerda como um todo” e acaba dando um ceticismo geral. É uma pena que isto ocorra, mas o PT e os oligarcas são interligados na estrutura de Estado e, quando tais relações são reveladas, temos casos indefensáveis, como no Mensalão e na Petrobras.

“Lula e sua herança política realizaram a proeza de aumentar o nível de emprego direto sem o aumento da sindicalização e sem tampouco a existência de um vigoroso movimento popular com poderes de veto”

IHU On-Line - O que está acontecendo com a esquerda brasileira?

Bruno Lima Rocha - A esquerda brasileira está minguada na urna e grande na rua, quando consegue convocar quem está desorganizado. Também está tomando consciência dos elementos de democracia direta, daí a necessidade de reforma política e elementos de consulta popular deliberativa. Já a ex-esquerda se confunde e se mescla aos antigos adversários. Termina sendo a melhor gestora do capitalismo, não só como executora da “menos pior” versão de seu modelo econômico como também atenua as dificuldades materiais sem abalar a ordem social desigual e injusta.

IHU On-Line - Como avalia os partidos que apresentaram propostas mais progressistas como o PV e o PSOL? Esses partidos representaram duas alternativas à esquerda? Como explica a pequena representatividade nas eleições?

Bruno Lima Rocha - O PSOL é um partido de esquerda, contando com uma direção e hegemonia interna de tipo reformista radical, como era o PT dos anos 80. Já o PV não é um partido de esquerda, até porque não crê no conflito de classes e opera com alianças de todo tipo. O PSOL cresceria mais se encabeçasse uma coalizão nacional de esquerda eleitoral, a exemplo da Esquerda Unida (IU) da Espanha.

IHU On-Line - As manifestações de junho refletiram nas urnas?

Bruno Lima Rocha - Sim, na estrondosa votação de nulos, brancos e abstenções. As ruas de junho de 2013 foram radicalizadas, mesmo quando os protestos massificaram ao ponto de perda de controle político e possibilidade de “sequestro da pauta” por parte da grande mídia e operadores de direita. Nas jornadas de protesto, formou-se o consenso de que os direitos se conquistam e não cabem nas urnas. Mesmo sem um clima de comoção gerado pela Copa das Confederações, as ruas de junho geraram um caldo de cultura mais à esquerda — de corte libertário — e perene.

IHU On-Line - O senhor mencionou recentemente em um artigo que as manifestações de junho não geraram uma nova articulação de força social. Pode explicar melhor essa ideia? Que tipo de articulação deveria ter surgido, sendo que as manifestações recusavam a presença dos partidos?

Bruno Lima Rocha - As manifestações recusavam tanto o dirigismo da esquerda — de qualquer esquerda — e refutavam o partido de intermediação, de tipo partido eleitoral burguês. Uma nova articulação social seria gerada por estruturas permanentes como uma Coordenação Permanente de Lutas, incluindo diversas pautas específicas, mas gerando uma agenda comum.

A melhor dimensão desta nova articulação seria o Bloco de Lutas em Porto Alegre, embora o mesmo tenha sofrido com a participação de metade de suas forças políticas na agenda eleitoral e, a meu ver, de forma equivocada no lançamento de lideranças públicas como candidatos para representação política. Eu afirmo que os partidos eleitorais mais desorganizam do que organizam a base da população. Os partidos políticos que não são eleitorais, embora operem como minorias políticas, são os melhores organizadores das bases sociais e não comprometem o patrimônio simbólico com a indicação de candidaturas.

IHU On-Line – Nesse mesmo artigo, o senhor faz um questionamento interessante: “O país que sai de junho está à direita ou os governos do PT puseram o Brasil mais à direita?” Tem uma resposta para essa questão? A resposta está associada à falta de reação do movimento popular e também, de algum modo, à cooptação dos movimentos sociais pelo PT?

Bruno Lima Rocha - Sim, sim e sim. Mas também, estamos em 2014 mais à direita porque as ideias de câmbio não vêm sendo gestadas ao longo dos últimos 12 anos. Se as elites brasileiras não fossem tão alinhadas com o ocidente, tão colonizadas, a camada superior da sociedade de classes estaria surfando em berço esplêndido, à frente da 7ª economia do mundo e uma ascensão internacional sem igual. O PT serviu a esta direita econômica, mas não domou a direita mais ideológica, alinhada com o neoliberalismo e subordinada aos interesses dos especuladores. Para concluir, o pós-fordismo no país de empregos de dois salários, sem organização social combativa, é uma forma estrutural de demolir vontades coletivas, atirando as pessoas comuns e correntes na “correria do dia a dia”. Fica difícil fazer política trabalhando, estudando e trancafiado em megaengarrafamentos todos os dias.

IHU On-Line - O que representaria para o Brasil a reeleição de Dilma e mais quatro anos de gestão petista no governo federal ou a eleição de Aécio com o PSDB?

Bruno Lima Rocha - A vitória de Dilma seria a verdadeira consagração do lulismo e do partido de governo. Entendo que, caso isto ocorra, Dilma vai tentar implantar medidas estruturais na infraestrutura produtiva brasileira e deixar para as ruas conquistarem — ou não — a agenda social restante. É preocupante o esgotamento do modelo de crescimento brasileiro, mas nem de longe estamos ou estaremos na crise que a mídia econômica e seus especialistas tentam nos passar. Já se Aécio ganha, as conquistas sociais estão a perigo e isto pode representar um momento delicado. Se o PSDB ganhar e não mantiver as políticas sociais, o país pode pegar fogo, mas certamente com a superação e a crítica ao PT estando muito presentes. O nível de emprego direto, simplesmente, não tem como ser mantido com a execução das propostas já pronunciadas por Armínio Fraga.

IHU On-Line - Que novas alianças devem surgir dessa disputa política considerando a reeleição de Dilma ou, de outro lado, a eleição de Aécio?

Bruno Lima Rocha - O PT está minguado no Congresso e, caso Dilma ganhe, vai depender ainda mais das alianças mais reacionárias ao seu redor: latifúndio, agrobusiness, bancadas do cimento, neopentecostal; deve haver um ataque especulativo contra o país, atirando ainda mais o Copom/BC nos braços do “mercado financeiro” e diminuindo, no curto prazo, os espaços para demandas sociais urgentes. Insisto, caso Dilma ganhe, nenhuma das pautas sociais sairá de iniciativas do Planalto e sim das bases sociais que estão para além da tal da governabilidade. Já Aécio vai recrutar todos os oligarcas que eram da base de FHC e são base do lulismo e ainda terá de acomodar os arrivistas de 2014, como a REDE, o PSB, as defecções de intelectuais outrora progressistas, terá a gestão sindical delegada ao SD-Força Sindical (como no período de Collor, sendo que este setor também apoiou FHC) e, em contraparte, receberá a fratura das centrais sindicais como uma bênção caso venha arrocho e recessão.

IHU On-Line - O que seria um partido com propostas adequadas e relevantes para o Brasil?

Bruno Lima Rocha - Vejo duas possibilidades. Uma seria eleitoral, com a coligação da esquerda restante, unificando em tempos de eleição as siglas de hoje (PSTU, PSOL, PCO, PCB) e estas compartilhando ao menos uma central sindical comum e uma coordenação de lutas populares. Já a esquerda não eleitoral, obviamente de corte libertário, se organiza como minoria ativa, mas precisa de um espaço de unidade de classe, como uma central sindical mais à esquerda e uma coordenação nacional de lutas com bom nível de solidariedade de classe. Este partido de esquerda não eleitoral operaria como mola propulsora das lutas sociais, garantindo para a base da pirâmide social brasileira um instrumento político irredutível, tanto na pressão ao aparelho de Estado e aos agentes hegemônicos como na prática política da democracia de base e na participação da democracia direta — brigando por este elemento na tão desejada e longínqua reforma política.

“O pós-fordismo no país de empregos de dois salários, sem organização social combativa, é uma forma estrutural de demolir vontades coletivas”

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Bruno Lima Rocha - Além de agradecer o espaço, apontar que temos um consenso no Brasil, onde a restauração neoliberal não encontra eco nas urnas e menos ainda no apoio da tão desejada classe C, desorganizada e fruto da mobilidade social proporcionada pelo lulismo. Isto forma um belo patamar para ser trabalhado a partir de 2015, tentando criar no país um poder de veto para assegurar os direitos conquistados.

A saída para a esquerda brasileira é tentar ser o polo organizativo desta enorme camada social desorganizada, mas com interesses diretos que podem ser atingidos. Ao mesmo tempo, é preciso compreender que as pessoas comuns e correntes estão muito envolvidas com seu cotidiano de muito trabalho e pouquíssimo tempo livre. Está difícil organizar quem está solto, o que implica, para as minorias organizadas pelas causas coletivas e sociais, um enorme esforço organizativo e midiático.

Assim, o tempo e a forma de navegação por internet e produção de conteúdo político na web é cada vez mais importante. O mesmo se dá na sala de aula e nos espaços formais de educação. É preciso ter paciência com quem não tem experiência política, urge valorar o livre debate e defender os princípios de igualdade, solidariedade e justiça social em paralelo ao cultivo de valores de democracia direta e participativa.

(Por Patricia Fachin)

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