Um caminho penitencial sério para os divorciados em segunda união. Entrevista com Christoph Schönborn

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13 Outubro 2014

Um caminho penitencial sério, não banal, que dê "atenção" ao sofrimento dos filhos ("Vocês carregaram o peso do conflito matrimonial de vocês sobre os ombros dos seus filhos?"), dos cônjuges abandonados, à reconciliação depois do fracasso de um matrimônio ("Como querem pedir a comunhão se vocês ainda têm no coração todo o rancor pelo que viveram no matrimônio?"), ao peso da própria consciência diante de Deus, sem esquecer os "casais heroicos" que optam por permanecer fiéis ao ex-cônjuge sem se casar novamente.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada no sítio Vatican Insider, 10-10-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É com esse "convite a um olhar mais amplo", capaz de se debruçar sobre toda a família, começando pelos filhos, que o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena e presidente da Conferência Episcopal Austríaca, falou no Sínodo extraordinário sobre a família no debate sobre a hipótese de conceder a Comunhão aos divorciados em segunda união

Eis a entrevista.

Eminência, do que o senhor falou na sua primeira intervenção na Aula sinodal?

Eu sugeri que se aprofunde a visão do Concílio Vaticano II sobre a Igreja e que se faça a analogia entre a Igreja e o sacramento, especialmente o sacramento do matrimônio. Desde sempre, a família foi vista como a pequena Igreja, a Igreja doméstica, a "ecclesiola". No Vaticano II, foi dado um passo doutrinal muito importante em relação às outras Igrejas e comunidades cristãs e com respeito às outras religiões.

A visão patrística sempre tentou ver não só o que falta nas outras religiões, mas também o que é positivo, como promessa, semente, esperança. E o Vaticano II retomou essa visão patrística das outras religiões e das outras comunidades eclesiais para dizer: certamente, a única Igreja de Cristo é realizada concretamente, "subsistit in", na Igreja Católica. Mas acrescenta imediatamente depois: isso não impede que também haja fora do corpo da Igreja Católica muitos elementos de santificação e de verdade que levam à unidade católica.

E, com base nessa famosa frase da constituição conciliar Lumen gentium, no parágrafo 8, formulou-se todo o decreto sobre o ecumenismo e todo o decreto sobre as outras religiões, a Nostra aetate. A minha sugestão é simples. Tomar essa analogia para dizer: certamente, a plenitude do sacramento do matrimônio "subsistit" na Igreja Católica, onde há o sacramento com as três finalidades, fides, proles, sacramentum, a fidelidade, os filhos e o vínculo indissolúvel. Essa é a plenitude do sacramento. Mas, aplicando o Vaticano II, se poderia dizer que isso não impede que haja também fora dessa plena forma do sacramento do matrimônio múltiplos elementos de santificação e de verdade.

Pode dar alguns exemplos?

Temos em todo o mundo, por exemplo, e se vê isso muito claramente nos testemunhos dos padres sinodais, o fato das uniões de fato, coabitação sem matrimônio oficial. E, certamente, a Igreja diz – e tem razão em dizê-lo – que algo falta aqui coisa, falta a explícita aliança matrimonial sacramental. Mas isso não impede que também haja elementos que são quase promessas dessa promessa: a fidelidade, a atenção um ao outro, a vontade de fazer família. Tudo isso não é o que nós esperamos de um matrimônio completo, mas já é alguma coisa. Penso que essa abordagem pode nos ajudar naquilo que o Papa Francisco tanto nos disse: acompanhem-nos, antes de julgar e colocar nas "caixinhas", acompanhem-nos e façam com que descubram, pouco a pouco, com a ajuda de Deus, o testemunho dos casais e das famílias cristãs, a plenitude do sacramento matrimonial.

O senhor contou que é filho de divorciados em segunda união...

Meus pais se divorciaram quando eu tinha 13 anos. Para mim, foi extremamente doloroso. Eu diria que o momento mais difícil da minha vida foi a noite em que fiquei sabendo que meus pais iam se divorciar. Mas nós, filhos, não estávamos perdidos. A família – primos, tios – se comprometeu conosco, filhos, com a minha mãe, também com o meu pai. A família se substituiu ao fracasso do matrimônio.

O tema dos divorciados em segunda união, mesmo não sendo o único tema, está no centro do debate. O senhor pensa que, no fim do debate sinodal, se chegará a admitir, em certos casos, esses casais à Comunhão?

O Sínodo não é um Concílio, não tem a tarefa de fazer votações como um Concílio. Ele faz sugestões a serem transmitidas ao papa, como nos sínodos anteriores. Acima de tudo, o que eu também tentei tornar presente no Sínodo é o convite a um olhar mais amplo. Agora temos o olhar da "galeria", vê-se apenas o problema dos divorciados em segunda união. Mas não se vê o problema da família mais ampla, porque cada casal que se divorcia geralmente tem filhos, pais, talvez até mesmo avós, irmãos, irmãs, tios...

Um divórcio nunca toca apenas duas pessoas; sempre toca uma rede social, que é a família, e o que me parece faltar gravemente nas discussões atuais é esse olhar sobre a família. Os africanos sempre dizem: há a família restrita, pais e filhos, e a família mais ampla, o grande contexto familiar. Se vivemos sem esse contexto, é dramático. A família é a rede de sobrevivência para o futuro, como dizem os sociólogos, os especialistas do futuro da nossa sociedade. Onde o Estado se enfraquece, onde falta a capacidade do Estado de sustentar os indivíduos em dificuldade, torna-se cada vez mais evidente que a rede de sobrevivência, de salvaguarda do indivíduo é a família. Falando de divorciados em segunda união sem o olhar sobre a família é dramaticamente unilateral.

E a questão da comunhão aos divorciados em segunda união?

Essa é também uma questão de comunidade. Vive-se em uma rede familiar. A minha proposta, antes de pedir decisões práticas imediatas, de pensar se os divorciados em segunda união podem ou não ter acesso à Comunhão, é fazer algumas perguntas. Quase como um caminho penitencial ou, digamos, um caminho de atenção. Eu disse isso nessa quinta-feira ao Sínodo.

A primeira atenção deve ser aos filhos. Se um casal se divorcia, os filhos se dividem entre pai e mãe, talvez uma nova união de um e do outro. A minha pergunta aos pais que fazem um caminho de conversão e de penitência é sempre esta: vocês carregaram o peso do conflito matrimonial de vocês sobre os ombros dos seus filhos? Porque esse é o drama que se vive hoje muitas vezes. Que culpa os filhos têm? Por que não os deixaram de fora disso, já que eles já sofrem com o fato de que o amor que vocês tinham fracassou?

A segunda atenção que eu peço nesse caminho de penitência é esta: o que o esposo, a esposa se tornam depois do divórcio, o que permanece? Nas nossas grandes cidades, temos milhares e milhares de "viúvas" ou de "viúvos" de divórcios, que ficam sozinhos porque foram abandonados. Aqueles que têm uma nova relação se encontram humanamente em uma situação mais confortável, mais segura, mas e aqueles que ficam sozinhos? A Igreja deve ter atenção pelas pessoas que sofrem. O papa nos convida a prestar atenção aos pobres: os pobres na nossa sociedade são os filhos dos divorciados e as pessoas que ficam sozinhas.

A terceira atenção, que falta completamente nas nossas discussões, diz respeito à história da culpa no primeiro matrimônio para as pessoas que contraíram um novo matrimônio. Houve um caminho, ao menos uma tentativa de reconciliação? Talvez não seja possível que essas duas pessoas voltem a ser esposo e esposa, mas ao menos que não haja ódio, que não haja essa raiva no coração de ambos. Eu lhes pergunto: como vocês querem pedir a Comunhão se ainda têm no coração todo o rancor por aquilo que vocês viveram no matrimônio? Há todo um caminho de reconciliação, ao menos dentro do possível, a ser feito.

Há também uma quarta atenção. Temos em nossas comunidades cristãs muitos casais que mantêm a fidelidade (ao ex-cônjuge depois do divórcio), às vezes a um alto preço, porque eles dizem: prometemos um ao outro a fidelidade até a morte, mesmo que viessem momentos duros, fiéis às promessas. Que encorajamento a Igreja dá a esses casais? Se todos falam só daqueles que se casaram novamente como se eles fossem os mais pobres – e certamente eles merecem uma grande atenção –, é preciso uma grande atenção também àqueles casais, às vezes heroicos, que dão o exemplo de uma fidelidade contra o vento e as marés.

Um último ponto, uma última atenção: a atenção à consciência. Porque cada um de nós está sozinho na sua consciência diante de Deus. E talvez possamos introduzir um processo de nulidade com argumentos, mas só Deus sabe a verdade da minha vida. E, antes de admitir à Comunhão uma ou outra situação, talvez haja primeiro uma questão pela qual cada um de nós deve responder diante de Deus. Como eu me encontro, em consciência, diante de Deus? Não digo isso por ameaça: a consciência é amorosa, porque Deus nos ama, nos fala no coração. Mas é preciso se perguntar: o que significa a minha situação de recasado na minha consciência? Em geral, gostaria de salientar que o fato de que haja pessoas que desejam tão fortemente a Comunhão sem poder ter acesso a ela, enquanto há pessoas que podem comungar e se aproximam da Eucaristia às vezes por hábito, é uma forte lembrança para recordar o valor da Comunhão: como ela é preciosa!

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