Por detrás da bola

Revista ihu on-line

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Mais Lidos

  • O que muda (para pior) no financiamento do SUS

    LER MAIS
  • Ou isto, ou aquilo

    LER MAIS
  • Desmatamento na Amazônia aumenta 212% em outubro deste ano, aponta Imazon

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

30 Junho 2014

"Viração. Hoje a "patria está de chuteira" diriam os mais fanáticos. Milhões de técnicos estão de plantão para garantir mais uma vitória do páis anfitrião.. Atrás da bola rola muita vida. Estar atento e senti-la não faz mal a ninguém Andar por esse país e conhece-lo por dentro, não apens nos estádios, é uma desafiadora missão", escreve Egon Heck, secretariado nacional do CIMI, ao enviar, no sábado passado, o artigo que publicamos a seguir.

Eis o artigo.

Vem correndo um moleque feliz. Descontraído, sente-se livre. Enquanto  os demais estão amarrados a uma TV ou estádio, ele, com outros seus iguais, conquistou um pedaço da rua deserta. Estrada que vira campo  de futebol não é novidade. Causa espanto quando isso acontece em pleno dia da semana, em rua movimentada. Só sucede num país eletrizado pela Copa do Mundo. A criançada da periferia agradece.

Do outro lado da rua, a cachorrada  anda em fila indiana, atrás do prazer, sem saber como esconder o profundo mal estar que lhe proporcionava aquele barulho infernal, dos rojões. Chegaram a expressar a intenção de se esconder em algum local a prova de barulho. Mas aonde se esconder, se os estouros eram tantos que não lhes deixavam nenhuma alternativa. O jeito era suportar a dor nos tímpanos buscando se divertir ou protestar, com umas orquestradas latidas e uivadas.

Enquanto isso, em várias regiões do país, silenciosamente, cidadãos desse país, se preparam para mais uma jornada da “Caminhada Troca de Saberes”. Atividade de interação, troca de saberes e solidariedade. Momentos ímpares de encontro consigo mesmo, com as populações, com a natureza. Cada passo é uma partilha. Cada abraço é a valorização e respeito ao diferente. O caminho vai sendo feito em harmonia com a mãe terra e a natureza acolhedora, com sua beleza e a sabedoria profunda de seus habitantes primeiros. Salve os Javaé, Karaajá e Avá Canoeiro, sobreviventes. Salve a Ilha do Bananal em sua rica sócio e biodiversidade, que será o berço de nossos sonhos e ações nas próximas semanas.

Ilha do Bananal – Malvado Tory (branco) – turismo, prostituição e cachaça

Consta nos livros de geografia de que se trata da maior ilha de águas fluviais do mundo. Carregamos o estigma de “maiores do mundo” em alguns aspectos. Portanto nada de mais se a ilha do Bananal nos brinda também com esse título.

O velho cacique Arutana desabafa: “todas as doenças foram trazidas por ‘tory’. O que estragou a gente foi doença e bebida” Em depoimento registrado pela jornalista Memélia Moreira publicada em FSP, 25/04/1977 com as manchetes “Carajás um povo ameaçado de extinção” e “Turismo pode acabar com índios que moram na Ilha do Bananal”. Era o momento em que se estava começando a implantação um grande projeto de turismo que tinha como ícone e famoso Hotel John Kennedy. O Hotel na ilha, com suíte presidencial fora construído por Juscelino Kubistchek, num dos mais belos lugares do país. Serviria para refúgio e turismo dos altos escalões dos governos. Acabou na decadência total e só voltou ao cenário econômico quando  a Superintendência de Desenvolvimento do Centro Oeste-Sudeco, entregou à Goiastur o lendário hotel, nas margens do Rio Araguaia. Era dia do índio de 1977. Mais um golpe para a população indígena da ilha.

Transaraguaia – “estrada assassina”

Assim D. Pedro Casaldáliga classificou esse empreendimento do governo militar (Folha de São Paulo 19-10-1983). Em seu depoimento na Comissão do Índio da Câmara, disse que a estrada é “absolutamente inviável, pois atinge áreas que são leito do rio Araguaia e sua construção exigirá a realização de obras de aterro num percurso igual a 80 km.”... e prosseguiu “se o governo quisesse de fato beneficiar a população da região bastaria que com apenas 20 por cento dos recursos previstos para a construção da Transaraguaia, realizasse obras de correção e pavimentação da estrada do Calcário, que serve hoje à população do Araguaia”.

A construção dessas estrada cortando ao meio a ilha do Bananal foi duramente criticada por instituições, organismos e pessoas ligadas ao meio ambiente, populações indígenas e indigenistas e direitos humanos. ’Não é preciso ser nenhum profeta para adivinhar que essa estrada irá acabar com a flora e fauna da região... Os índios da Ilha do Bananal já demonstraram que não aceitam, sem luta, o extermínio ecológico do lugar que abitam” (Brasigois Felício – O Popular 28-08-1983) O autor qualifica a construção dessa estrada como  “crime de lesa humanidade e de “ecocídio sistemático”.

A pressão para abrir estradas na ilha  continuam. No ano passado  foi relizado um rally atravessando a ilha do Bananal para entregar um documento ao governador pedindo a construção de uma estrada asfaltada cortando a ilha do Bananal.

Nos próximos 20 dias estaremos caminhando nesse chão de forma respeitosa e solidários na defesa da natureza e dos povos indígenas.

Caminhantes, pé na estrada, com muita dignidade, pois o chão que vamos pisar é sagrado, é a mãe terra dos povos Javaé, Krajá e Avá Canoeiro.

Para entender melhor

Caminhada troca de saberes

É um momento, no início ou metade do ano, em  algumas dezenas de pessoas se encontram parar caminhar em determina espaço do território nacional ou latino americano, para sentir, conviver e trocar saberes com as comunidades que ali vivem.

São vinte dias de intensa interação e conhecimento da sociobiodiversidade. Embalados pelo lema: verdade, simplicidade e amor, cada caminhante sente-se comprometido com a vida existente na mãe terra. Para maiores informações assista o vídeo em que Antonio Alencar, um dos idealizadores e esteio dessa iniciativa, fala do histórico e objetivos da caminhada troca de saberes.

O Parque Nacional do Araguaia – criado em 1950 com 562 mil hectares.

A construção da estrada seria para atender um polo de produção de álcool e açúcar na região leste do MT e beneficiar 150 empresas agropecuárias.

População originária-indígena

Foram caçados como mão de obra pelos bandeirantes no século XVIII.

O avanço da frente agropecuária se intensificou a partir da “Marcha  para o Oeste", na década de 50. Com a expansão  da pecuária, o meio ambiente e as terras indígenas e seus habitantes foram drástica e violentamente atingidos. Destruição da natureza e proliferação de doenças e epidemias.

Simultaneamente foi estimulado o turismo na região da ilha.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Por detrás da bola - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV