Pôquer papal. Artigo de Massimo Faggioli

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28 Abril 2014

A expressão "pôquer papal" revela, de modo inconsciente, todo o risco a que a Igreja vai ao encontro com a decisão da canonização dos dois papas, que identifica cada vez mais a forma moderna do catolicismo com o seu ícone planetário, o papado.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minnesota, nos EUA. O artigo foi publicado no jornal Europa, 26-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A expressão "pôquer papal" para definir a liturgia do dia 27 abril de 2014 descreve a cena de quatro papas: dois papas vivos (o reinante Francisco e o emérito Joseph Ratzinger) na canonização de dois papas antecessores seus (João XXIII e João Paulo II) – antecessores cronologicamente muito próximos, se não seus contemporâneos.

Mas a expressão "pôquer papal" revela, de modo inconsciente, todo o risco a que a Igreja vai ao encontro com essa decisão, que identifica cada vez mais a forma moderna do catolicismo com o seu ícone planetário, o papado.

É um risco do qual se fará a soma no longo prazo, como sempre acontece com aquilo que diz respeito ao catolicismo.

É um risco a partir de diferentes pontos de vista. Do ponto de vista do equilíbrio dos diversos elementos que fazem do catolicismo o que ele é há séculos: uma Igreja universal e local; uma Igreja fortemente regulada pelo ponto de vista jurídico, mas aberta ao dinamismo da experiência humana; uma Igreja de forte sistema cultural, mas também inculturada de muitas maneiras diferentes.

A elevação do papado à santidade (quase todos os papas do século XX estão a caminho da beatificação) representa, do ponto de vista da história do catolicismo, um elemento recente, que inicia entre Pio X e Pio XII, na primeira metade do século XX e acelera durante João Paulo II.

Não está claro se a canonização do grande investidor na "fábrica de santos", João Paulo II, significa um encerramento a essa fase, ou uma nova aceleração, que, neste ponto, só pode se estender para trás e sem poder evitar decisões cruciais sobre casos particularmente delicados (como o de Pio XII).

É um risco até porque, se ninguém duvida da santidade pessoal de João XXIII e de João Paulo II, é evidente que as características da sua fama de santidade são diferentes. Boa parte dos católicos que vão assistir à cerimônia do dia 27 de abril de 2014 verão em um papa, mas não no outro, a consagração de uma certa visão e experiência de Igreja.

Só poucos católicos conseguirão ver, naturaliter, sem uma operação intelectual e espiritual isenta de esforços, em Roncalli e em Wojtyla uma herança unitária.

Roncalli é o papa que abriu o Concílio Vaticano II, surpreendendo todos pela decisão e pela direção dada ao debate. Wojtyla é o papa que assumiu o Vaticano II, apropriando-se do poder de encerrar algumas questões que o Concílio tinha recém-aberto (sexualidade e contracepção), de declarar resolvidas questões que o Concílio nunca havia abordado (o papel da mulher na Igreja), mas também de ir além do ditado textual do Concílio sobre algumas questões que literalmente salvaram a Igreja do "choque de civilizações" (relação com o judaísmo e diálogo inter-religioso).

Diferentes são as memórias dos dois papas, até porque de Roncalli sabemos muito graças aos estudos históricos dedicados a ele (especialmente na Itália e em Bolonha) nos últimos 30 anos, enquanto do outro sabemos relativamente pouco – não apesar, mas justamente graças à midiatização do papado.

Sobre o longuíssimo pontificado de João Paulo II e sobre a adequação de algumas de suas decisões (sejam teológicas, sejam disciplinares, como para a teologia da libertação e os Legionários de Cristo) por um longo tempo pesará uma sombra de incerteza.

O pôquer papal é um risco, enfim, também para o pontificado de Francisco, que é uma mistura particular e totalmente original de modelos diferentes de papado. Francisco mostrou compreender os riscos inerentes a um papado superdimensionado, em que a autoridade adquirida pelo bispo de Roma funciona necessariamente por subtração de todas as outras autoridades institucionais intermediárias, mas, no fim, funciona também por obscurecimento, esquecimento e relativização do acesso às verdadeiras fontes da vida cristã, a Bíblia e os sacramentos.

Em abril de nove anos atrás, na morte de João Paulo II, parecia que a Igreja não podia não se dizer wojtyliana. Desde então, muitas coisas aconteceram: o primeiro desmentidor do wojtylismo não foi o Papa Francisco (independentemente do que digam os nostálgicos e os amigos do jornal Il Foglio), mas justamente Bento XVI.

A dupla canonização de João XXIII e João Paulo II representa, naquela cena do sagrado e do império que é Roma, uma espécie de balanço público, mas inconsciente, de um cinquentenário de história da Igreja, aquele foi aberto pelo Concílio Vaticano II.

João Paulo II é o papa que fez mais santos e bem-aventurados de todos, graças à "fábrica de santos". A grandíssima parte deles não "são" mais santos, mas "foram" santos: consumados e esquecidos. Resta ver se a memória de João Paulo II e João XXIII permanecerá ligada (como a de quase todos os outros santos) a uma nação, a uma geração, a uma ordem religiosa particular e a uma tradição espiritual, ou se se tornará algo diferente. Na roleta da Praça de São Pedro, o catolicismo fez a sua aposta.

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