Sinfonia ortodoxa. Artigo de Enzo Bianchi

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15 Abril 2014

Sínodo pan-ortodoxo, um evento realmente de porte histórico: há mais de 12 séculos, as Igrejas do Oriente não ser encontravam em concílio. Ele será realizado em 2016 em Istambul e é um sinal da necessidade de unidade dos cristãos e da primavera eclesial que estamos vivendo. O governo turco teria permitido que a primeira sessão ocorra na mais antiga igreja de Constantinopla, Santa Irene: lá onde em 381 foi realizado o Concílio de Constantinopla, o Ecumênico II.

A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal Avvenire, 09-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Definir como "histórica" a decisão tomada em Istambul no mês passado pelos patriarcas e arcebispos das Igrejas ortodoxas autocéfalas não é ênfase retórica: desde o segundo Concílio de Niceia (787 d.C.), passaram-se mais de 12 séculos sem que as várias Igrejas do Oriente se reencontrassem em concílio para refletir e deliberar juntas sobre como realizar no mundo contemporâneo o anúncio e o testemunho dados ao eterno Evangelho de Jesus Cristo.

Não só isso: é desde o início dos anos 1970 que, por solicitação do então Patriarca Ecumênico Atenágoras I, iniciaram os trabalhos "preparatórios" em vista daquele Sínodo pan-ortodoxo que só agora finalmente tem uma data (o ano de 2016) e um lugar (ConstantinoplaIstambul) de celebração e um caminho de preparação imediata definido por etapas definitivas e aproximadas.

Nos últimos 50 anos, muitas coisas mudaram na sociedade, mesmo naquelas nações onde, historicamente, a fé cristã era vivida, celebrada e transmitida segundo a grande tradição oriental: o colapso do comunismo e a recém-encontrada liberdade de confessar a própria pertença a Cristo e à Igreja, mas também a dilatação do fenômeno migratório. E algumas dessas mudanças também acentuaram novidades no âmbito eclesial: o confronto com outras confissões cristãs, a recaída universal do caminho empreendido pela Igreja Católica com o Concílio, o fim da cristandade com a consequente mudança de modalidade de relação com a sociedade civil, o encontro cotidiano com crentes de outras religiões, com formas não comunitárias de religiosidade, com uma secularização cada vez mais difundida...

As Igrejas ortodoxas, não tendo um centro unitário de autoridade como a Igreja de Roma com o papa, tiveram que se esforçar para encontrar um acordo sinfônico: temeu-se até que – dado o surgimento de novas tensões ou o refortalecimento de antigas divergências – o Sínodo teria que passar por adiamentos perenes, se não até ver cancelada a sua própria celebração.

Além disso, as Igrejas cristãs – e muitas das ortodoxas em particular – estão passando por uma fase de fraqueza, de minoria dentro dos Estados e das sociedades em que vivem: basta pensar na situação dramática dos cristãos no Oriente Médio. Mas, paradoxalmente, justamente essa fraqueza tem contribuído para o "milagre" do anúncio do Sínodo de 2016: os cristãos sentem que precisam reencontrar a unidade, intensificar a comunhão, sem a qual o futuro da sua presença em certas áreas do globo se torna precária.

Eu tive o dom de acompanhar de modo particular e atento o fatigante itinerário desse projeto sinodal, conheci de perto a ânsia pastoral e a solicitude pelas Igrejas que Bartolomeu I anima: de modo convicto, ele se esforçou para que o Sínodo fosse celebrado, apesar de todas as dificuldades, até mesmo inesperadas, imprevistas. Eu era o seu hóspede quando chegou-lhe a notícia de que o governo permitiria que a primeira sessão sinodal fosse realizada na mais antiga igreja de Constantinopla – a Igreja de Santa Irene (foto), a "Santa Paz" – lá onde, em 381, foi realizado o I Concílio de Constantinopla, o II ecumênico: o patriarca estava radiante, comovido, e juntos agradeceremos ao Senhor.

Por isso, é lícito esperar sinais de esperança tanto desses dois anos de preparação final, quanto da cúpula que será realizada sob a presidência do patriarca ecumênico. Acima de tudo, um processo de confirmação da fé e, ao mesmo tempo, de renovação das modalidades para testemunhá-la neste mundo secularizado, em que os cristãos se tornaram uma minoria.

Um esforço de certa forma análogo ao realizado pela Igreja Católica com o Concílio Vaticano II, mas que, naturalmente, poderá levar mais em conta fenômenos culturais e sociológicos que surgiram com mais intensidade nesses últimos 50 anos: pense-se, por exemplo, na temática ecológica com a qual há tempo o Patriarcado Ecumênico se comprometeu, nos efeitos da globalização e da interconexão de problemáticas como a migração ou a justiça social.

Um segundo desafio será o de encontrar caminhos de comunhão: na riquíssima sinfonia da autonomia das Igrejas: todas igualitárias, e cada uma reunida em torno de um patriarca com o próprio sínodo, as Igrejas ortodoxas precisam encontrar caminhos de comunhão para além das fronteiras nacionais ou regionais.

Não se trata de renunciar a uma fecunda valorização de elementos e tradições "locais", nem de constituir uma espécie de "federação" com seus delegados, porta-vozes ou representantes unitários, mas sim de viver concretamente a concórdia entre local e universal, entre um e muitos, entre atenção e respeito pelo particular e capacidade de "pensar grande" e de respirar a plenos pulmões.

Nisso, o Sínodo poderia ser – como foi o Vaticano II – um evento abençoado também para as outras Igrejas, começando pela católica. Se a ortodoxia sempre afirmou a sinodalidade, no Ocidente afirmamos sobretudo o primado. Um Sínodo pan-ortodoxo, presidido pelo primus inter pares, poderia favorecer, em âmbito católico, a reflexão sobre o fato de que o primado sofre ao ser exercido sem sinodalidade e, em âmbito ortodoxo, a consciência de que uma sinodalidade sem um primus que anime a comunhão e desempenhe concretamente o ministério da unidade corre o risco de paralisia. Certamente, o caminho continua sendo difícil, sujeito a trechos tortuosos e a tentações recorrentes: pense-se que os apóstolos já discutiam sobre "quem dentre eles era o primeiro"...

No entanto, resta a convicção de que a fixação da data do Sínodo pan-ortodoxo é mais um sinal da nova primavera eclesial que estamos vivendo. A minha geração viveu a do início dos anos 1960 com o Concílio e o Papa João XXIII, mas também experimentou que, na história, frequentemente, essas primaveras são interrompidas por geadas repentinas.

Hoje algo novo, mas também antigo está florescendo: o frescor do Evangelho. Os nossos irmãos e irmãs em humanidade olham de novo para Jesus Cristo e para as Igrejas que O anunciam e O testemunham, porque sentem a necessidade de sentido, porque a sua vida anseia por ser salva, porque esperam experimentar palavras e gestos de misericórdia.

Verdadeiramente vivemos um tempo favorável para a Igreja e para o Evangelho. Além disso, a Igreja sempre vive uma época favorável quando aceitar voltar para o seu Senhor, quando renuncia a se curvar sobre si mesma, quando não se endurece na defesa de privilégios, quando se encontra sendo pobre, em minoria, e assume essa fraqueza como seguimento de Cristo pobre e nu. Talvez justamente essa condição de pobreza e de serviço é a grande oportunidade de anúncio crível do Evangelho.

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