Técnica. Ame-a ou deixe-a. Uma abordagem a partir de Jacques Ellul

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12 Abril 2014

A técnica é indissociável da história humana. As civilizações atravessaram as eras se valendo de diferentes técnicas que permitiram a sobreviência das sociedades mais primitivas. Entretanto, jamais se deu tanta importância às técnicas quanto atualmente, cuja tecnicidade passou a ser o paradigma de onde se racionaliza o mundo, desde uma perspectiva de Jacques Ellul. "Um caixa eletrônico, por exemplo, só funciona se você usá-lo da forma como foi programado. Nesse sentido, é um equívoco eliminar a parte 'má' da técnica e ficar com o lado bom", explica Jorge David Barrientos-Parra (foto), durante a conferência A técnica como segunda natureza humana no pensamento de Jacques Ellul. "Não se pergunta se há necessidade de um determinado alimento, cria-se e, depois, gera-se a necessidade, por meio da propaganda de consumo. Trata-se de uma necessidade que é criada e gastam-se milhões para fazer publicidade. As pessoas ficam 'felizes' em ir para o shopping e comprar algo", complementa.

O evento foi realizado na quarta-feira, 09-04-2014, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no Instituto Humanitas Unisinos - IHU. A conferência integra a programação do III Seminário em preparação para o XIV Simpósio Internacional IHU: Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades - A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea.

 

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Fotos: Ricardo Machado/Instituto Humanitas Unisinos-IHU

Jacques Ellul

De acordo com o conferencista, para compreendermos o pensamento de Jacques Ellul (1912-1994), é importante saber qual o lugar de fala do pensador. "Ellul é um francês que viveu e que fez toda sua carreira na Universidade de Bourdeaux. Ele, sistematicamente, rejeitou ir a Paris e ser uma estrela. Preferiu a vida simples da província e ali ficou exercendo suas atividades. Para ele, a técnica sempre foi uma das questões fundamentais na sociedade, à qual não se dá a importância devida", aponta Barrientos-Parra.

Técnica e Fenômeno técnico

Ellul entendia a "operação técnica" e o "fenômeno técnico" como coisas de naturezas distintas. "A 'operacao técnica' trata-se da tecnicidade da ação e não implica um 'como fazer', nem exige eficácia. Basta que se faça determinada coisa de forma pragmática", pontua Barrientos-Parra. O fenômeno técnico, entretanto, é a busca dos homens por um método mais eficaz em toda ordem de coisas. "O decisivo, neste caso, é a intervenção da razão, a convicção de que outros meios podem ser encontrados. Se há uma palavra que é decisiva em nossa época, esta é 'inovação'. Em todos os lugares, nas universidades, inclusive nas ciências sociais aplicadas, isso se tornou uma espécie de palavra de ordem. Há uma corrida, concursos, premiações, para que se inove. Uma busca incessante e febril de inovações", debate o professor. 

Essa questão, para Ellul, é parte inerente da técnica e da sociedade técnica na qual estamos inseridos. Não é a técnica em si, mas a ideia de que temos de explorar estas potencialidades até as últimas consequências.

Racionalidade – Savoir Faire

 
 
Para Jacques Ellul, há duas características muito importantes na sociedade na era da técnica: a exclusão da espontaneidade e a redução de fatos e fenômenos ao esquema lógico. "Vejamos o exemplo do esporte e a técnica para burlar o dopping. Lance Armstrong, o ciclista que venceu diversas vezes o Tour de France, confessou ter feito dopping, tendo usado uma série de substâncias que lhe deram uma performance acima dos demais. Ora, essa exclusão da espontaneidade é muito séria, em toda a ordem de coisas", sutenta o palestrante. Nesse sentido, "todo o problema humano deve ser equacionado, na medida do possível, em uma fórmula matemática. Assim, para resolver o problema, basta resolver a equação matemática e, dessa forma, simplificamos todos os problemas humanos".

Artificialidade

O mundo artificial elimina e subordina o mundo natural. "Por exemplo, a hidrelétrica é de uma força didática muito grande. Porque temos um conjunto de ferramentas que fagocita e domina a força natural, a corrente do rio, a floresta. O natural tende a desaparecer, como desaparecem, em nossas cidades, os rios, agora sepultados por uma avenida", sustenta o professor. "A submissão dos meios ao imperativo da eficácia é sempre maior. Não é o homem que escolhe isso, mas a técnica que se impõe de forma automática. Em uma civilização da técnica, o progresso dela não tem limites", destaca.

Técnica e economia

Segundo Jorge Barrientos-Parra, a técnica econômica aperfeiçoa a organização do trabalho. Não há mais espaço para as fantasias individuais. "O coordenador disso tudo é o Estado, porém um Estado 'eficaz'. O Direito, por exemplo, é uma técnica de controle social, que utiliza uma série de outras técnicas, como a policial. Vivemos, então, uma situação em que o Estado utiliza-se dessas técnicas de controle, que, evidentemente, quanto mais sutil, melhor", explica.

Além disso, destaca o conferencista, há atualmente uma ideia, que é quase um dever moral, de que os empregados precisam "vestir a camisa". "Hoje em dia é muito comum que se exija não somente a alienação da força de trabalho, mas o compromisso com a empresa em que se trabalha. Trata-se de uma conformação (no sentido de tomar forma de algo) do espírito, da liberdade das pessoas. O trabalho tornou-se um valor sagrado", considera.

Totalitarismo

O totalitarismo da técnica, segundo Ellul, se materializa a partir de dois processos de universalização, desde o ponto de vista geográfico e qualitativo. "O primeiro refere-se, por exemplo, a países que ainda não se desenvolveram e pretendem avançar tecnicamente. Já o segundo diz respeito à racionalidade instrumental e à eficácia, o que gera a redução de culturas tradicionais a restos, destroços e fragmentos", esclarece Barrientos-Parra.

 

Quem é Jorge David Barrientos-Parra

Jorge David Barrientos-Parra (foto) possui graduação em Direito pelas Faculdades Metropolitanas Unidas, mestrado pela Universidade de São Paulo e doutorado na Université Catholique de Louvain, Bélgica, todos na mesma área.

Atualmente é professor assistente do Departamento de Administração Pública da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp, campus Araraquara.

É autor de Dívida Externa: do desequilíbrio contratual ao jubileu (São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 2002) e organizador de obras como Jacques Ellul: por uma análise crítica da moderna sociedade técnica (Araraquara: Ed. Unesp, 2009) e Direito, Técnica, Imagem: os limites e os fundamentos do humano (São Paulo: Editora Unesp, 2013).

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