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Por: André | 18 Março 2014

“O primeiro que contou estas histórias incríveis foi um jovem eritreu. Foi levado ao deserto do Sinai, embora quisesse ir para Israel em busca de trabalho. Os traficantes queriam mais dinheiro, mas não conseguiam contatar sua família: sua mãe sequer telefone tinha. E então o mantiveram como um escravo: tinha que bater em outros presos. Caso não o fizesse, recebia ele os golpes. E recebeu muitos”.

 
Fonte: http://bit.ly/1ip0MAb  

A reportagem é de Davide Demichelis e publicada no sítio Vatican Insider, 15-04-2014. A tradução é de André Langer.

Esta é uma história sem nome. A identidade deve permanecer secreta. Mas o rosto, esse não; o rosto deste jovem ficou impresso na mente da Irmã Azezet Kidane, missionária comboniana: “Ficou ali durante um ano e já não tinha mais esperanças de sair dali. E foi salvo por seus próprios companheiros de desventura, as mesmas pessoas em que teve que bater muitas vezes. Quando chegaram a Israel, fizeram uma coleta para libertá-lo”.

A Irmã Azezet foi testemunha de histórias incríveis nos últimos quatro anos. Trabalhou como voluntária em um Centro para Refugiados Africanos em Tel Aviv. Desde que o governo de Berlusconi, em 2008, estabeleceu um acordo com Gadaffi para frear a imigração da Líbia, o Sinai encheu-se de clandestinos. Durante estes últimos quatro anos, 15.000 africanos teriam transitado por esse deserto; pelo menos 3.000 deles teriam morrido de cansaço, por violência ou torturas.  As vítimas são, sobretudo, sudaneses, somalianos, etíopes ou eritreus que fogem das guerras ou de regimes ditatoriais. A Irmã Azezet é eritreia e conhece muito bem suas línguas, razão pela qual foi a primeira a recolher seus testemunhos.

“Os traficantes de homens trazem estes migrantes para o deserto, depois os prendem e pedem mais dinheiro às suas famílias”. A viagem da esperança custa entre 1.500 e 4.000 dólares. Mas algumas famílias, devido às chantagens, reduzem-se à miséria para pagar até 45.000 euros e libertar os seus filhos de um estado de verdadeira escravidão. A Irmã Azezet conseguiu reunir mais de 1.500 testemunhos durante os primeiros dois anos de sua atividade. “Não se podia mais ficar calado. Quando descobri como estas pessoas eram tratadas, senti que suas histórias tinham que ser divulgadas. Todos devem conhecer o trato desumano que muitos migrantes recebem!”

Muitos não querem contar o que viveram. Esquecem-no, como defesa psicológica, ou porque temem as consequências. A Irmã Azezet sabe muito bem disso: “Estou certa de que muitos não me contam o pior. Mas o que sei já é muito... Uma mulher me contou que sofreu muitas vezes violências, enquanto estava acorrentada a outra mulher. Não sabia sequer quem abusava dela, porque estavam com os olhos vendados. A outra mulher morreu, mas as deixaram acorrentadas durante três dias”. As torturas são terríveis, além dos abusos sexuais e dos golpes. Os fugitivos são reduzidos à fome, abandonados nus sob o sol do deserto. Dois sudaneses foram pendurados de cabeça para baixo com uma corda nos punhos e tiveram que amputar-lhes ambas as mãos.

A Irmã Azezet recebeu diversos prêmios pelas atividades que realiza. Entre outros, recebeu o reconhecimento “Herói do Departamento do Tráfico de Pessoas” dos Estados Unidos. Mas o maior prêmio para ela foi poder dar um futuro a estas pessoas, das quais aprendeu muito: “Nunca ouvi palavras de ódio contra seus guardiões. E inclusive as mulheres que ficaram grávidas depois destes atos sexuais violentos, amam os seus filhos como se os tivessem querido. Isto me comoveu muito, como mulher, irmã e missionária”.

Os testemunhos que a Irmã Azezet divulgou chegaram inclusive aos países de origem de todos estes migrantes. A verdadeira solução seria parar a migração em massa, cancelar as fontes de ingressos dos traficantes inescrupulosos. Mas as condições de vida no Chifre da África são tão difíceis, entre guerras e ditaduras, que, apesar de tudo, muitos preferem correr o risco.

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