“Francisco é um pastor, próximo do povo, como João XXIII”. Entrevista com Philippe Chenaux

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Por: André | 05 Março 2014

Philippe Chenaux é professor de História da Igreja Moderna e Contemporânea na Universidade Lateranense (em Roma). Por ocasião do primeiro aniversário da eleição de Francisco, ele falou sobre o que o aproxima ou o distingue dos papas que o precederam.

 
Fonte: http://bit.ly/1kOA6s1  

A entrevista é de Aymeric Christensen e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 26-02-2014. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Se compararmos com os seus predecessores, Francisco é um Papa diferente?

Há uma diferença notável em Jorge Mario Bergoglio: é que antes de ser eleito, ele não tinha nenhuma experiência romana. Os outros papas, de João XXIII a Bento XVI, estudaram ou fizeram carreira em Roma. João Paulo II estudou aí, Bento XVI fez carreira aí, especialmente na Congregação para a Doutrina da Fé, portanto, pertencia ao palácio quando foi eleito. Além disso, Francisco, antes de ser eleito, quando ainda era arcebispo de Buenos Aires, evitou tanto quanto possível as viagens a Roma. Isso é importante na maneira como conduz hoje a reforma da cúria com um olhar totalmente de fora, estranho, e mesmo crítico. Ele aparece como alguém totalmente de fora. Por outro lado, Francisco é um papa não somente não romano, mas também não europeu. Ele vem do “fim do mundo”, como ele mesmo disse na noite da sua eleição. Ao vir da América Latina ele tem uma outra experiência de Igreja: uma Igreja que sempre desejou estar próxima do povo. Ele insiste muito nesta imagem da Igreja como Povo de Deus, povo de fiéis.

Mas, um outro ponto importante, na minha opinião, é a relação com o Concílio Vaticano II. Francisco é um papa que não viveu diretamente o acontecimento; para ele, o concílio é uma evidência. Contrariamente aos seus predecessores, ele cita pouco os textos. Provavelmente, por outro lado, porque ele os conhece menos, uma vez que não participou da sua elaboração. Para ele, em primeiro lugar, é o espírito do Vaticano II que conta: a opção preferencial pelos pobres, mas também a cultura do diálogo e do encontro, do qual ele fala muito, e, enfim, a recusa a condenar, de pronunciar anátemas... A Igreja, com ele, é plenamente pós-conciliar. Acrescento, por fim, que Francisco é um papa jesuíta, o primeiro papa jesuíta da história. Nisso ele se distingue de todos os seus predecessores (e não somente de seus predecessores imediatos). É uma identidade que ele reivindica com facilidade – muito mais que sua identidade latino-americana – e que se reflete na sua maneira de governar e de apreender os problemas.

Do ponto de vista do estilo pessoal, em que ele se distingue?

O que imediatamente me impressionou é que ele compreendeu que para atingir as pessoas eram necessários atos, tinha que ser confiável. E a credibilidade da mensagem evangélica passa pelo testemunho concreto. O que explica esse estilo novo, despojado, essa recusa de todo luxo, de toda manifestação exterior de riqueza. Ele se esforça – e penso que o consegue até agora – para devolver a credibilidade à mensagem do Evangelho, colocando-o acima da doutrina. O que não quer dizer que ele renegue a doutrina, mas que não fala muito dela. A título de comparação, Bento XVI é um grande teólogo, seus ensinamentos são magníficos, mas ele tocou muito pouco as pessoas, porque havia, talvez, um déficit de encarnação em seu pontificado.

De que papa recente se aproximaria em termos de perfil?

Ele se pretende um pastor, o que o diferencia muito claramente de Bento XVI, seu predecessor imediato, que era um teólogo. Desse ponto de vista, ele se aproxima sem dúvida mais de João XXIII que dos outros, com sua aproximação não intelectual dos problemas. É um papa que ele cita muito, e não é por acaso que ele vai canonizá-lo no fim de abril, mesmo sem um segundo milagre! João Paulo II, mesmo se querendo um pastor, era um filósofo, um intelectual, e Paulo VI antes dele também. Esta maneira que Francisco tem de querer ser próximo das pessoas, próximo do povo; a recusa de uma certa pompa romana, um estilo muito mais simples, mais evangélico, tudo isso o aproxima indiscutivelmente de João XXIII.

A relação com Paulo VI é menos evidente, menos imediata, mas Francisco também o cita muito. Há grandes textos de Paulo VI que ele cita facilmente, sobretudo no que diz respeito à dimensão missionária da Igreja (em particular a Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi).

No momento da sua eleição, ouvia-se comparações com João Paulo I...

Sim, era uma comparação muito pertinente, na medida em que João Paulo I vinha também, à sua maneira, da periferia, e não tinha nenhuma experiência curial. Mas a comparação para por aí, como seu pontificado durou apenas um mês... Mas é verdade que no começo, por algumas maneiras de ser, por seu estilo, Francisco podia também fazer pensar em João Paulo I.

A eleição de Francisco foi percebida por muitos como um sopro de ar fresco. Seus predecessores conheceram um tal entusiasmo na sua chegada?

No momento da sua eleição, os papas – como, aliás, a maioria dos chefes de Estado – beneficiam-se geralmente daquilo que se chama de estado de graça... Esse foi, talvez, um pouco menos o caso para Bento XVI, que se inscrevia na continuidade de João Paulo II e que não tinha uma imagem muito positiva; mas é verdade para todos os seus predecessores. João XXIII especialmente, após o pontificado de Pio XII, representou um extraordinário vento de novidade. Se acrescentarmos a isso o anúncio do concílio, tem-se verdadeiramente a impressão de que tudo estava em vias de mudar, que a Igreja entrava numa nova era... Com Paulo VI talvez um pouco menos, porque no fundo ele foi eleito para continuar o que João XXIII fez, isto é, levar o concílio ao fim. Com João Paulo I também havia ainda esta impressão de novidade, indiscutivelmente, mas enfim... o pontificado terminou muito rapidamente. E com João Paulo II também: esse papa vindo do Leste marcou a opinião pública desde o início e suscitou uma grande esperança. Mas é verdade que esse fenômeno é talvez mais forte ainda com Francisco do que com os outros...

Essas esperanças foram seguidas por reais reformas?

Alguns papas foram mais reformadores que outros. Paulo VI, por exemplo, foi verdadeiramente um reformador, mesmo se este aspecto hoje caiu um pouco no esquecimento. Retemos mais a imagem de um papa angustiado, preocupado em defender a doutrina, o papa da Humanae Vitae... Mas não se deve esquecer que no começo do seu pontificado ele era muito popular e que ele quis realmente mudar as coisas. Pensemos na reforma da liturgia ou ainda na reforma da cúria. Em nível das estruturas, João Paulo II reformou, sem dúvida, muito menos que Paulo VI.

Bento XVI reformou as coisas especialmente por sua preocupação de jogar luz sobre todos os escândalos que poderiam ter acontecido, como o caso da pedofilia. Esta vontade de transparência deve, indiscutivelmente, ser creditada a Bento XVI, mesmo se essa não é tecnicamente uma reforma das estruturas e das instituições. Além disso, o que a história irá reter é, evidentemente, também o gesto da renúncia, que é um ato em si revolucionário, e que permitiu sem dúvida a eleição de Francisco.

Quando se fala de reforma da cúria, evoca-se com frequência a questão da colegialidade. Francisco pode verdadeiramente fazer evoluir o funcionamento da Igreja nesse nível?

Sobre este ponto havia grandes esperanças com o concílio. Mas houve um retorno a uma forma de centralização no governo da Igreja, apesar da convocação regular de sínodos. Nos discursos e nas declarações oficiais, invocava-se sempre a dimensão colegial, mas na prática as decisões eram tomadas em Roma, e muitas vezes sem muita consulta aos bispos. Penso que o atual papa percebe isso e deseja dar novamente um novo dinamismo a este espírito de colegialidade que foi se perdendo um pouco.

Sem dúvida, Francisco terá a tendência a ser mais autoritário a título pessoal, e isso se pode ver, talvez, em algumas nomeações que ele fez ou nas decisões que ele tomou desde sua eleição. Mas o que ele disse sobre sua maneira de governar na entrevista dada às revistas dos jesuítas era muito justo: ele seria, talvez, naturalmente levado a tomar as decisões sozinho, mas ele se dá conta de que é preciso exercer a colegialidade, e que no fundo as decisões são melhores quando tomadas consultando outros. Este aspecto também tem a ver com sua visão de Igreja como Povo de Deus, e não simplesmente como estrutura hierárquica de poder.

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