Etty Hillesum rumo a Auschwitz, com radiosa esperança

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19 Novembro 2013

O olhar de Etty Hillesum sobre o campo de concentração, sobre as deportações é, ao mesmo tempo, plenamente consciente do que está acontecendo, mas também cheio de uma serenidade que a faz seguir em frente e, especialmente, a induz a escrever.

A opinião é da escritora italiana e estudiosa do judaísmo Elena Loewenthal, em artigo publicado no jornal La Stampa, 14-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Quando os arames farpados desaparecerem do mundo, você conseguirá ver o meu quarto. É tão bonito e tranquilo. Passei metade das noites na escrivaninha, lendo e escrevendo, perto da pequena lâmpada. Eu tenho aqui cerca de 1.500 páginas de diário do ano passado e agora eu as releio. Que rica vida vem ao meu encontro em cada página!". Etty Hillesum ainda está em Amsterdã, em setembro de 1942. Nem mesmo dois meses depois ela escreveria de Westerbork, o campo de coleta e de concentração dos judeus holandeses, antes de serem dirigidos para o extermínio.

Quase todas as suas cartas, de fato, vem de lá, daquela espécie de angustiante e longa antessala de Auschwitz. Agora a editora Adelphi as publica na versão crítica integral. E é uma leitura que sacode, desconcerta, comove. Como nos já célebres diários, há nela uma constante e inextrincável mistura entre perfeita lucidez sobre como as coisas estão e uma radiosa, absurda esperança.

O seu olhar sobre o campo, sobre as deportações que, em ritmo regular, levam embora massas de pessoas é, ao mesmo tempo, plenamente consciente do que está acontecendo, mas também cheio de uma serenidade que a faz seguir em frente e, especialmente, a induz a escrever.

"Toda a Europa está se tornando pouco a pouco um único, grande campo de prisioneiros. Toda a Europa acabará dispondo experiências semelhantes, amargas. Será monótono se nos referirmos indistintamente aos fatos nus e crus – as famílias dilaceradas, as propriedades roubadas, as liberdades perdidas". E mais adiante: "A minha caneta não possui acentos tão eficazes para conseguir descrever – mesmo que do modo mais aproximado – as deportações".

Etty verá que lhe serão roubados, pouco a pouco, afetos, rostos familiares. Nessas cartas enviadas a destinatários diversos, ela fala muito do pai, da sua resignação, da sua força, apesar dos problemas de saúde, da agonia que foi se separar dele. É um texto poderoso no seu conjunto, apesar da descontinuidade, apesar de não ser uma correspondência coerente, mas, ao contrário, uma série de mensagens de garrafa jogadas através da fronteira que separa o campo do resto do mundo. No campo, por exemplo, "pronunciam-se palavrões...: frutas, tomates e afins. Mas eu não sei se eles ainda existem lá fora".

Essas cartas certamente devem ser colocadas ao lado do diário: aqui e ali se encontra Etty Hillesum em toda a sua força e doçura. Ela sempre fala tanto dos outros, pouco de si mesma – o que nas correspondências em geral acontece muito raramente. Lendo-os, vem à mente outro livro recente, de grande força. Colombe Schneck é uma jornalista francesa nascida em 1966. Quando ela espera o seu primeiro filho, a mãe lhe pede para chamá-lo, se for do sexo feminino, de Salomé: era o nome de uma prima sua, morta muito pequena em Auschwitz.

Em Le madri salvate (recentemente publicado pela Einaudi), Colombe parte em busca daquele passado removido e o faz com raiva, desconcerto, até mesmo com um desespero absurdo, em retrospecto. O tom é tão distante da calma de Etty, mesmo nos momentos de maior desconcerto: ela faz e pensa nos outros em meio daquela tempestade.

A quem veio depois, é como se coubesse elaborar o horror quando Etty já está em silêncio. No início de setembro de 1943, ela deixa o campo de Westerbork, "cantando – os vagões de mercadorias, afinal, não são tão ruins", escreve ainda em um cartão-postal encontrado nas margens da ferrovia.

 

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