Divorciados, o primeiro ponto crítico para o papa. Artigo de Gian Enrico Rusconi

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10 Outubro 2013

A reação da Igreja alemã ao afastamento progressivo dos seus fiéis é uma resposta sincera à sua consternação de se sentirem rejeitados pelas suas escolhas conscientes de vida. É atenção à "humanidade real", segundo o espírito do Papa Francisco. Não é mais uma questão de dentro ou de fora da Igreja, mas sim de profunda evolução e maturação "antropológica" da sociedade atual.

A análise é do historiador e cientista político italiano Gian Enrico Rusconi, professor emérito de Ciências Políticas da Universidade de Turim, em artigo publicado no jornal La Stampa, 09-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"No que diz respeito ao acesso à comunhão para os divorciados em segunda união, não há nenhuma novidade, porque o documento da diocese de Friburgo provém de um escritório pastoral local e não investe contra a responsabilidade do bispo".

Se um homem da Igreja inteligente como o porta-voz vaticano, o padre Federico Lombardi, precisa usar esse argumento "administrativo" para neutralizar o desafio (ou "a brecha") dos bispos alemães, a situação é séria. Mais rapidamente do que o esperado, a revolução comunicativa da pastoral do Papa Francisco alcançou o seu ponto crítico.

Dentro da Igreja, assistiremos a confrontos duros nos próximos meses, mesmo que devidamente blindados – mas todos irão se concentrar na competência doutrinal e pastoral de quem e de como devem ser geridas as consequências da abordagem "misericordiosa" do Papa Bergoglio. Ninguém ousará a dizer que está em jogo a incapacidade da doutrina tradicional de controlar a situação. Ninguém admitirá a inconsistência da "antropologia" avançada nos últimos anos em prol da doutrina moral da Igreja.

Basta olhar para as reações oficiais e oficiosas destas horas na boca de importantes homens da Igreja. É difícil pensar que o conceito tradicional de divorciado em segunda união visto como "adúltero segundo a práxis bimilenar da Igreja Católica" (como afirmam os tradicionalistas) possa conviver com a abertura de "uma porta para aqueles que trazem sobre os ombros um matrimônio fracassado, recomeçaram outra vida sentimental e querem continuar fazendo parte da comunidade dos fiéis".

Adultério ou deplorável fracasso de um matrimônio? E quanto ao conceito de pecado de adultério? Do "pecado" obsessivamente identificado na relação sexual – o pecado primário, segundo a infeliz herança do agostinianismo?

Como laico, eu deveria ficar quieto, tratando-se de uma questão totalmente interna à comunidade eclesial. Mas, se as recentes e enfatizadas aberturas de reconhecimento e de estima entre o mundo laico e o mundo religioso têm um sentido, eu considero legítimo fazer algumas considerações.

Não há a necessidade de ser teólogo para afirmar que o acesso à comunhão dos divorciados em segunda união não é uma concessão pastoral misericordiosa, mas toca o significado do sacramento eucarístico, assim como ele foi até aqui entendido na prática religiosa atual.

Ele coloca em primeiro plano a ideia da comunidade de fé ("o partir do pão"), à qual os divorciados em segunda união gostariam de continuar pertencendo. Ele se afasta de uma visão da eucaristia como "apropriação" privada do corpo de Cristo, pela qual "para ter acesso à eucaristia é preciso estar na graça de Deus, enquanto os divorciados estão em contraste com a lei de Deus sobre o matrimônio" (como afirma a doutrina tradicional).

Eu não consigo ver como esse contraste pode ser dissolvido – dando prioridade à primeira opção – sem uma revisitação séria das argumentações doutrinais hoje postas em campo.

Naturalmente não faltam aqueles que, com astuta malícia, reduzem a iniciativa da Igreja alemã, que se financia mediante as contribuições daqueles que são formalmente pertencentes, a uma tentativa de captar fundos cada vez mais escassos para o crescente abandono. Eu considero, ao invés, que a reação da Igreja alemã ao afastamento progressivo dos seus fiéis é uma resposta sincera à sua consternação de se sentirem rejeitados pelas suas escolhas conscientes de vida. É atenção à "humanidade real", segundo o espírito do Papa Francisco.

Mas, então, não é mais uma questão de dentro ou de fora da Igreja, mas sim de profunda evolução e maturação "antropológica" da sociedade atual. O discurso volta sobre os temas de fundo da "natureza humana", "natureza da família", "os direitos fundamentais do indivíduo" etc., sobre os quais o autêntico diálogo entre leigos e crentes-de-Igreja continua sendo (na Itália) substancialmente evitado.

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