“Usar a diplomacia para o bem da humanidade”. Entrevista com Pietro Parolin

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Por: André | 09 Setembro 2013

Em entrevista exclusiva, o novo Secretário da Santa Sé, Pietro Parolin, dá detalhes do que espera alcançar com a máquina diplomática. E conta, de Caracas, onde ainda é núncio apostólico, como vê a geopolítica a propósito dos esforços do Papa Francisco para conseguir a paz na Síria.

 
Fonte: http://bit.ly/15DMfr9  

A entrevista é de Carlos Zapata publicada pelo Diário Católico, da Venezuela e reproduzida por Vatican Insider, 07-09-2013. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Chama a atenção o movimento do Papa no plano diplomático ao convocar um dia de jejum e oração pela paz na Síria. Temos com Francisco um novo Bento XV, a propósito da trégua obtida durante a I Guerra Mundial?

Bento XV não teve tanto sucesso, porque você sabe que ele tentou de todas as maneiras parar a guerra e não conseguiu. Lamentavelmente, Bento XV não foi ouvido. Os grandes poderes não lhe fizeram caso. “A guerra é uma matança inútil”, disse. Essa frase foi muito citada; mas, de fato, não conseguiu grandes coisas. E sim, foi o presidente (Woodrow) Wilson quem adotou as propostas feitas pelo Papa, e foram os famosos 14 pontos sobre os quais se estabeleceu o armistício, primeiro, e a paz, depois; que foi também uma paz instável, porque, no final das contas, deu origem à II Guerra Mundial.

Mas ele buscou a paz, assim como outros pontífices...

Certamente. A paz sempre foi uma das preocupações dos Papas. Então, aí temos Bento XV. E imagine tudo o que fez o Papa Pio XII, durante a II Guerra Mundial, para aproximar-se um pouco mais e conseguir a paz! Eu fui testemunha direta e dou testemunho das tentativas que fez João Paulo II quando começou a Guerra no Golfo e depois a Guerra no Iraque. Que palavras fortes utilizou! E que ação diplomática empreendeu! Porque nesse caso, além do contato com as diferentes chancelarias, enviou dois emissários: um a Bush (presidente dos Estados Unidos) e outro a Saddam Hussein (presidente do Iraque), para ver se era possível conseguir, digamos, um arranjo pacífico; buscar uma solução, uma via de saída para tudo isso. Então, me parece que o Papa Francisco se coloca nessa esteira, nesse caminho: o de uma grande preocupação da Santa Sé com a paz no mundo.

É essa a finalidade da diplomacia?

Eu diria também que a razão de ser de uma diplomacia da Santa Sé é a busca da paz. E se a diplomacia da Santa Sé teve tanto renome e tanta aceitação em todo o mundo, no passado e no presente, é precisamente porque se acima dos interesses nacionais, que às vezes são interesses muito particulares. Ela se coloca nesta visão do bem comum da humanidade.

E, na sua opinião, a propósito do que menciona de João Paulo II e considerando sua aliança com Lech Walessa, quais são os novos muros de Berlim que a Igreja deveria derrubar?

Creio que hoje, obviamente, o objetivo fundamental é conseguir a paz no meio da diversidade que temos em um mundo multipolar. Já não há os blocos como antes. Isto é uma análise geopolítica comum... Há diferentes poderes. Surgiram poderes diferentes, assim como todos os problemas que estes acarretam. Porque nós pensávamos em nossos desejos de paz e de felicidade, que a queda dos muros tradicionais – o muro de Berlim, do bloco entre países comunistas e o Ocidente – traria a paz e a felicidade ao mundo. E não foi bem assim. Eclodiu todo o problema do terrorismo. Então, eu penso que o muro a se derrubar é o de identificar como todas estas diferentes realidades conseguem chegar a um acordo e trabalhar juntos para o bem de todos. Assumir as diferenças para que não sejam divisões, mas que se tornem colaborações em prol da humanidade.

E que papel exerce neste aspecto a Secretaria de Estado do Vaticano?

A Secretaria de Estado do Vaticano, acredito, que deve reinventar sua presença; porque os cenários são diferentes. Temos as grandes atuações históricas do cardeal (Agostino) Casaroli na época dos grandes blocos e todo a questão da östpolitik, mas também tudo o que se relacionado com a defesa dos direitos humanos. Agora me parece que as coisas se complicaram um pouco.

Muda de estilo... Também de finalidade?

Não. O que quero dizer é que se tem que reiventar a forma da presença, mas o objetivo permanece o mesmo. E falando dos grandes desafios, superando este relativismo, que é uma praga! Porque eu o veria dentro do discurso que lhe estava fazendo: de compor as diferenças.

Caso não houver um terreno comum que se pode pisar, isto é, caso não houver uma verdade objetiva na qual todos nos reconhecemos, será muito mais difícil buscar pontos comuns. E este terreno comum é a dignidade da pessoa humana em todas as suas dimensões, onde não se exclui a dimensão transcendente; não é somente a dimensão pessoal, social, política, econômica, mas também a transcendente, pela qual se reconhece que o homem é feito à imagem e semelhança de Deus, e que Deus é sua fonte.

É dessa maneira que o vê o Santo Padre?

O Papa Francisco insistiu muito nisso: esta é a fonte mais sólida para garantir o respeito dos direitos humanos, o respeito da dignidade do homem e dos povos em uma convivência pacífica.

E para alcançar a paz, podemos esperar com Pietro Parolin uma ofensiva diplomática mundial mais incisiva?

Esta é uma pergunta complicada. Vi que a Secretaria de Estado foi impulsionada pelas iniciativas do Papa, que tomou também um movimento diplomático. Eu espero que possamos retomar isso, porque nós temos esta grande vantagem em relação a outras Igrejas e a outras religiões: poder contar com uma presença institucional internacional através da diplomacia. Então, nós temos que aproveitá-la!

Aproveitá-la em que sentido?

No sentido de utilizar estes instrumentos. Não deixá-los aí. Mas utilizá-los bem, como a diplomacia vaticana sempre fez. Sobretudo, em um momento de emergência. Utilizá-los para alcançar os grandes objetivos do bem da humanidade. Mas quero sublinhar, especialmente, que eu estou na completa dependência do Papa.

Esperamos uma Igreja, desse ponto de vista, mais protagônica?

Sim. Sobretudo, aproveitar melhor estes instrumentos que temos. A rede das Nunciaturas, os contatos que temos nas organizações internacionais...

Alguns vaticanistas indicaram nas últimas horas que a geopolítica vaticana vai estar agora mais longe das manchetes. Você acha que é isso mesmo que vai acontecer?

Você sabe muito bem que, por inclinação pessoal, eu não quero a diplomacia das manchetes, mas uma diplomacia que seja efetiva. Nós não buscamos, penso eu, a popularidade. Sinceramente, ninguém de nós quer isso, mas o efeito. E temos que levar em conta o que diz o Evangelho: que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita.

Está Parolin trabalhando diretamente, ou assessorando – como se disse –, o trabalho que está sendo feito no caso da Síria?

Não, não. Eu ainda não tomei posse. Absolutamente não. Eu assumirei as minhas funções no dia 15 de outubro e até lá exercerei, mediante Deus, as funções correspondentes. Além disso, eu tenho dor de cabeça laboral de chega aqui na Venezuela. Mas, a minha ideia é que, para além dos detalhes e das coisas concretas, aproveitemos estes instrumentos que temos como Igreja Católica. Foram construídos ao longo da história e são valiosas ferramentas que servem para ajudar o mundo.

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