Cristãos sírios dizem que ataque ocidental poderia piorar as coisas

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07 Setembro 2013

Embora o presidente Barack Obama e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, estejam consultando suas próprias legislaturas antes de usar a força na Síria, há um eleitorado com muito mais coisas em jogo que eles também podem sondar e que, provavelmente, diriam um sonoro "não": os cristãos da Síria.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 04-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Esses cristãos podem não ser fãs do regime do presidente Bashar Assad, mas geralmente preferem o regime ao que eles veem como a alternativa provável – o crescente fundamentalismo islâmico e o caos ao estilo do Iraque, em que as minorias religiosas como eles mesmos estariam entre as primeiras vítimas.

"Nós ouvimos muito dos EUA sobre democracia e liberdade no Iraque, e agora vemos os resultados – como o país ficou destruído", disse o bispo católico caldeu Antoine Audo, de Aleppo, em uma recente entrevista. "Os primeiros a perder foram os cristãos do Iraque".

"Devemos dizer que nós não queremos que o que os EUA fizeram no Iraque se repita na Síria", disse Audo.

Essa posição tem o forte apoio do Vaticano, que lançou uma pressão diplomática plena. O Papa Francisco designou o próximo sábado como um dia de oração e de jejum pela paz, enquanto os diplomatas do Vaticano pediram que todos os embaixadores credenciados junto da Santa Sé participassem de uma reunião sobre a Síria na quinta-feira.

A última vez que esses dois passos foram dados em conjunto foi em fevereiro e março de 2003, quando o Papa João Paulo II e o corpo diplomático do Vaticano lideraram o ataque moral contra a intervenção norte-americana no Iraque.

A devastação da comunidade cristã do Iraque após a queda de Saddam Hussein se esconde no fundo das atitudes tanto do Vaticano quanto da própria Síria. De cerca de 1,5 milhão a 2 milhões de cristãos antes da primeira Guerra do Golfo em 1991, os especialistas acreditam que apenas cerca de 250 mil a 400 mil cristãos permaneçam no Iraque hoje, sendo que o restante foi exilado ou morto.

No fim de agosto, o patriarca greco-melquita católico de Antioquia na Síria, Gregório III Laham, afirmou incisivamente que qualquer intervenção militar dos Estados Unidos no seu país seria um "ato criminoso".

Tal ataque, disse Laham, "só vai ceifar mais vítimas, além das dezenas de milhares desses dois anos de guerra. Isso irá destruir a confiança do mundo árabe no Ocidente". Ele alertou que isso não seria menos grave do que o uso de armas químicas.

Ao longo dos anos, Laham tem sido visto como fortemente pró-árabes e pró-Assad, mas ele não é uma voz isolada. No dia 26 de agosto, Audo disse à Rádio do Vaticano que um ataque ocidental poderia desencadear um conflito mais amplo.

"Se houver uma intervenção armada, isso significaria, creio eu, uma guerra mundial", disse Audo.

Em uma entrevista em separado no fim de abril, ele disse que a minoria cristã da Síria, que representa cerca de 10% da população de 22,5 milhões, "está toda com o presidente Assad".

Essa posição tem sido tão consistente por parte da liderança cristã na Síria que o padre jesuíta Paolo Dall'Oglio, o missionário italiano e ativista anti-Assad que desapareceu na Síria no fim de julho, os acusou de terem sido "cooptados".

"Infelizmente, o regime sírio tem sido muito hábil em utilizar um certo número de eclesiásticos, homens e mulheres, para se propagandear no Ocidente como o único e último baluarte em defesa dos cristãos perseguidos pelo terrorismo islâmico", escreveu Dall'Oglio em uma carta aberta a Francisco em abril.

No entanto, não é apenas a hierarquia que está cético sobre a mudança de regime.

Bashar Khoury, por exemplo, é um católico de rito latino de Damasco, de 29 anos, que recentemente atuou como voluntário na Jornada Mundial da Juventude no Brasil, ajudando a executar a operação de mídias sociais de língua árabe.

Perguntado pelo NCR sobre o que ele faria se Assad cair, Khoury foi claro: "Eu vou deixar a Síria", disse. " Se isso acontecer, os radicais vão assumir, e não haverá nenhum futuro para mim".

Desde a eclosão da guerra civil em 2011, relatos sugerem que os cristãos têm sido os alvos da crescente violência.

Observadores acreditam que dezenas de milhares de cristãos fugiram das zonas de conflito, alguns dos quais indo para o exílio interno, e outros buscando refúgio em países vizinhos, como Líbano, Jordânia, Turquia e Armênia. A Liga Siríaca, um órgão apartidário do Líbano, estimou em maio que há 10 mil refugiados cristãos da Síria apenas em terras libanesas.

Os deslocados somam cerca de 150 mil pessoas que viveram em um estado de sítio virtual durante meses em 40 vilarejos referidos como o "Vale dos Cristãos" na Síria ocidental.

Além de ataques físicos, relatos falam de igrejas e lugares de encontro que foram incendiados, empresas de propriedade de cristãos saqueadas e, em alguns casos, mulheres cristãs que se tornaram alvo de ataques. O jornal The Christian Post informou em dezembro de 2011 que os taxistas fundamentalistas em regiões da Síria controladas pelos rebeldes prometeram atacar qualquer cliente do sexo feminino sem véu que tendesse a ser cristã.

O clero cristão também se tornou um alvo tentador para sequestro, incluindo dois prelados ortodoxos agarrados por forças ainda obscuras em abril. O destino dos prelados permanece desconhecido. No fim de fevereiro, o site Ora Pro Siria, operado por missionários italianos na Síria, afirmou que o preço cobrado por um padre sequestrado girava em torno de 200 mil dólares.

Nesse contexto, pode haver pouca surpresa no fato de que muitos cristãos pareçam preferir o "diabo" que eles já conhecem.

O Ajuda à Igreja que Sofre, um grupo humanitário católico, publicou recentemente um relatório sobre a Síria, citando uma mulher cristã que pediu para permanecer anônima.

"O governo era ruim, mas ao menos estávamos seguros", disse ela. "Não mais. (…) Olhe o que aconteceu com as nossas igrejas em lugares como Aleppo e Homs. Os extremistas nos ameaçam quando queremos celebrar as grandes festas como o Natal e a Páscoa. Eles absolutamente não nos querem na região".

O líder ortodoxo da Síria, o Patriarca Ignatius Joseph III Younan, disse em maio que os cristãos estão tão frustrados com a política ocidental – que ele acredita que esteja fomentando o radicalismo islâmico e o ódio anticristão – que eles podem abrir mão do Ocidente por completo.

"Eu acredito que chegará um tempo em que os cristãos do Oriente Médio não vão mais olhar para o Ocidente pedindo apoio e, talvez, fortalecerão mais as suas raízes com a cultura e a civilização orientais (...) [com] a Rússia, a Índia, a China" , disse ele.

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