Praticar a verdade, e não apenas dizê-la. Artigo de Gerhard Ludwig Müller

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05 Setembro 2013

A Teologia da Libertação leva o nosso olhar para Cristo, que, como nosso salvador e redentor, é a meta para a qual tendemos incansavelmente.

A opinião é do arcebispo alemão Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e presidente da Comissão Teológica Internacional. O artigo foi publicado no jornal L'Osservatore Romano, 04-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

As contribuições de Gustavo Gutiérrez evidenciaram a nós, que estamos aqui na Europa, uma coisa, esta: a injustiça no mundo é um fator que permanece e que só pode ser superado com a disponibilidade de todas as pessoas a voltar o olhar para Cristo.

As questões decisivas do ser quanto acerca da sua origem, o seu destino e o seu estilo de vida encontram cumprimento e solução na disponibilidade de reconhecer Jesus Cristo como Senhor e como aquele que dá cumprimento ao humano. Justamente aí deve-se descobrir um novo impulso para a teologia na Europa.

O voltar-se a Jesus Cristo, o salvador e o libertador da humanidade, tornou-se o imprescindível topos de toda teologia. Mas compreendemos adequadamente as condições de vida nos países da América do Sul? Sabemos sobre a opressiva pobreza que diariamente cobra a vida de milhares de crianças, idosos e doentes só porque lhes falta o mínimo indispensável para viver? Conhecemos a angústia que aferra as pessoas presas na sua doença, muitas vezes forçadas a aceitar a morte como vislumbre de esperança, como saída, e isso quando, ao invés, na Europa, uma pequena operação realizada com um equipamento médico básico lhe salvaria a vida?

Às dificuldades existenciais e aos perigos, acrescenta-se, como forma consciente de humilhante opressão, a educação insuficiente. E também o fato de não reconhecê-la como grave causa de pobreza, portanto, como problema a ser resolvido, pode ser considerado como um aspecto dessa opressão. A educação escolar como dado já adquirido em muitas partes do mundo tem gerado um sentimento de superioridade com relação aos países do chamado Terceiro Mundo. E, no entanto, não devem ser encontradas justamente aí as raízes da exploração, tanto intelectual, quanto material?

E assim ficamos surpresos quando, encontrando as pessoas na América do Sul, vemos e percebemos uma fé cheia de alegria e de vida. A fé testemunhada abertamente e transmitida com amor é um dos maiores tesouros dessas populações, embora agravadas por preocupações cotidianas pela sua própria vida.

Em muitos encontros, essa fé alegre e vivida me deu força e também se tornou para mim uma fonte de inspiração. Olhar para aquilo que é verdadeiramente essencial na vida. Confiar-se em Deus, o criador e verdadeiro cumprimento do humano. O sofrimento de cada dia é a realidade que, no Pai Nosso, faz com que, todos os dias, as pessoas da América do Sul peçam o pão de cada dia. O que faz mover os lábios não é a opulência consumista, mas sim a fome terrível.

Na situação econômica e politicamente crítica dos países latino-americanos, o povo vê na Igreja a única esperança, o lugar onde podem se proteger e que pode dar uma certa segurança existencial. A biografia da Igreja e a do povo ali coincidem. Diante da naturalidade com que se professa e se pratica a própria fé, diante da confiança posta na Igreja e na teologia, muitas vezes – para alguns representantes da teologia alemã e do establishment eclesiástico –, os problemas indicados se tornam temas irrelevantes.

Um agradecimento particular vai ao meu amigo Gustavo Gutiérrez. Nas últimas décadas, ele ilustrou aqueles pilares da chamada teologia da libertação que fazem dela uma doutrina coerente e, em várias ocasiões, ele ofereceu uma visão de conjunto. No entanto, o debate muitas vezes acalorado sobre a teologia da libertação não representa hoje um capítulo fechado da história da teologia.

Justamente Gustavo Gutiérrez indica ao nosso olhar totalmente concentrado na perspectiva europeia o que significa Igreja universal. Com a teologia da libertação, a Igreja Católica pôde aumentar ainda mais o pluralismo em seu interior. A teologia da América Latina revela e propõe hoje novos aspectos da teologia que integram uma perspectiva europeia, muitas vezes incrustada. O tema eclesiológico da communio – a comunidade universal da Igreja, que está acima das categorias étnicas e nacionais – também representa a tentativa de levar a comunidade mundial dos fiéis que abraça todo o mundo a uma solidariedade responsável.

"Tudo o que vocês fizeram a um dos menores dos meus irmãos, foi a mim que o fizeram" (Mateus 25, 40). Como cristãos, não devemos nos isentar dessa responsabilidade. Não podemos permanecer cegos diante das necessidades e da pobreza que os nossos irmãos e irmãs na fé em Jesus Cristo são obrigados a suportar.

A responsabilidade que os cristãos têm em nível mundial foi expressa pelo Concílio Vaticano II na Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Atual com estas palavras: "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" (Gaudium et Spes, 1).

O Concílio sente a responsabilidade com relação a uma única família humana que vai se formando cada vez mais. A catolicidade à qual se alude aqui, no seu significado original de universal, de onicompreensivo, também encontra expressão na Constituição Dogmática sobre a Igreja, lá onde se fala das "condições do nosso tempo", que "tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo" (Lumen gentium, 1).

A única Igreja de Jesus Cristo supera as barreiras, ultrapassa os muros nacionais, étnicos e políticos e leva as pessoas à íntima união com Deus e à unidade de todo o gênero humano (cf. Lumen gentium, 1). A Bíblia nos descreve Cristo como salvador que traz a libertação e a redenção.

Ele liberta o ser humano do pecado – de caráter pessoal, assim como de caráter estrutural – que, em última instância, é causa do fim de toda amizade, é a causa de todas as injustiças e de todas opressões. Só Cristo nos torna livres na verdade, nos leva à liberdade que nos foi dada por Deus. A partir dessa liberdade, somos chamados a ajudar as pessoas, porque cada pobre e cada necessitado é o nosso próximo.

Assim, eu gosto de pensar nesse livro como uma contribuição para a superação da indiferença com relação ao sofrimento e com relação às necessidades dos nossos irmãos e das nossas irmãs, mas também como sistema de coordenadas para a correta interpretação da teologia da libertação. Ela leva o nosso olhar para Cristo, que, como nosso salvador e redentor, é a meta para a qual tendemos incansavelmente.

Gustavo Gutiérrez disse uma vez de modo absolutamente simples e bíblico: "Ser cristão significa seguir Jesus". Seguimento significa agir concretamente. "Quem pratica a verdade vem para a luz, para que apareça claramente que as suas obras são feitas em Deus" (João 3, 21).

Assim, é o próprio Senhor que nos diz para nos comprometermos imediatamente pelos pobres. Praticar a verdade nos leva a estar do lado dos pobres.

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