A surpresa dos 100 dias de Francisco. Artigo de Brunetto Salvarani

Revista ihu on-line

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Clarice Lispector. Uma literatura encravada na mística

Edição: 547

Leia mais

Mais Lidos

  • Santa Teresa de Jesus: inquieta, andarilha, desobediente e muito mais...

    LER MAIS
  • COP26. Kerry reduz as expectativas sobre a cúpula de Glasgow: “Rumo a compromissos ainda insuficientes para alcançar…”

    LER MAIS
  • Diocese Anglicana no Paraná sagrará bispa coadjutora em Curitiba

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


22 Julho 2013

A referência à vida humana e espiritual do pobrezinho de Assis, no agir e no falar do sucessor de Bento XVI, se tornou a chave de leitura, tão indiscutível quanto exigente, do seu programa pastoral.

A opinião é do teólogo italiano Brunetto Salvarani, professor da Faculdade Teológica da Emilia Romana e ex-professor da Università di Milano-Bicocca. É cofundador e diretor da revista QOL, de pesquisa bíblica, ecumenismo e diálogo judaico-cristão. O artigo foi publicado na revista Rocca, n. 14, 15-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Eu não sei quem será o próximo papa, mas estou certo de que a figura de que a Igreja precisaria é a de um homem profundamente espiritual. Mais do que um político ou um teólogo, hoje se precisaria disso...". As palavras do padre Rosino Gibellini, diretor literário da Queriniana e grande conhecedor das dinâmicas teológicas do século XX, são pesadas, mas certas, pronunciadas, diante de uma pergunta minha, apenas dois dias antes da eleição a novo bispo de Roma de Jorge Mario Bergoglio. Com Rosino, encontramo-nos também depois desse evento, quando ele pôde declarar toda a sua satisfação com relação do desejo acima: "Conseguimos".

O pedido de um pontificado marcado mais pela espiritualidade, pelo exemplo pessoal e pela marca pastoral, do que – por exemplo – pela reflexão teológica ou pelo impacto político, era aliás crescente, à espera do conclave: também e sobretudo com base no difuso cansaço com relação à imagem que, nos últimos anos, as instâncias vaticanas forneceram, não por vontade de Bento XVI, aos observadores.

Dos fantásticos feitos do improvável corvo às revelações progressivas do Vatileaks, do prolongamento depressivo do dossiê-pedofilia e entornos, aos contrastes insistentes entre Secretaria de Estado e outros poderes, nada foi poupado: com o Papa Ratzinger em dificuldade para frear o acúmulo de boatos e malediências diversos, espalhados a mãos cheias sobre aqueles que, é preciso admitir, a própria mídia, de bom grado e não sem uma boa dose de malícia, se debruçou ainda mais e pesadamente.

Assim, lida nessa luz, a sua epocal renúncia ao sólio em fevereiro parece ser algo mais do que a admissão aberta de uma fragilidade humaníssima já impossível de gerir no quadro de uma agenda de compromissos cada vez mais pesada e problemática, isto é, a declarada urgência de uma reviravolta, na linha de uma Igreja que agora, bon gré mal gré, seguindo as diretrizes do Vaticano II, se pensa segundo uma historicidade real.

Um novo estilo e coerente

Aqui deve ser colocado o que ocorreria em seguida: as discussões entre os cardeais nas congregações antes do conclave, a eleição rápida, nada pragmática, de um forasteiro, Francisco, a sua reiterada vontade de se autodefinir, desde o surpreendente "Boa noite!" da sacada, mais como bispo de Roma do que como papa, e assim por diante.

Com o resultado de que, em poucos dias, a partir daquele 13 de março que hoje já parece tão distante, nos familiarizamos com um estilo inovador com relação ao que estávamos acostumados (onde estilo, lembre-se, não se refere tanto à adoção de um visual mais sóbrio e contido, mas, segundo as indicações de Christoph Theobald, a indispensável coerência entre mensagem proclamada e vivida); mas também e sobretudo, com os repetidos traços de uma espiritualidade tão nova quanto antiga, semeados cotidianamente com uma intensa atenção à capacidade de memorização do interlocutor.

Passagens bíblicas esmiuçados e atualizados com extrema simplicidade, a retomada de frases de efeito, conexões com a realidade de cada dia: sobre um pano de fundo integrador que, constantemente, se detém sobre a possibilidade dada pela "vida boa" do Evangelho e sobre a oportunidade de evitar uma certa tristeza de fundo que caracterizaria o cristão para abraçar a "alegria da fé" (por exemplo, na homilia do Domingo de Ramos). Eis a receita, jornalisticamente falando, do sucesso popular tão vistoso que Francisco está obtendo.

É possível ir além, tentando captar os traços peculiares da espiritualidade que ele está propondo aos fiéis, jovens ou não, mas sempre muito numerosos, que o estão ouvindo com significativa participação? Tentemos, com a devida cautela diante de um papado evidentemente em andamento, fortalecidos, no entanto, por uma teoria de sinais bem pouco ambíguos e, ao invés, transparentes. Sobre a qual tanto se escreveu, até despertar, como corolário, vastíssimas expectativas, sentimentos de gratidão, esperanças de uma mudança de ritmo...

Liberdade e serviço

Começando pelo fato de que o primeiro pontífice jesuíta não pode não ter como base do seu pensamento a espiritualidade inaciana, tão característica e pontual. Esse dado emergiu com força – dentre outras coisas – por ocasião do seu discurso aos estudantes das escolas geridas pelos jesuítas na Itália e na Albânia, no dia 7 de junho.

Quando Bergoglio lembrou que, de acordo com os ensinamentos de Santo Inácio, na escola o principal elemento é aprender a ser magnânimos: "A magnanimidade: essa virtude do grande e do pequeno, que nos faz olhar sempre para o horizonte. O que significa ser magnânimos? Significa ter o coração grande, ter grandeza de alma, ter grandes ideais, o desejo de realizar grandes coisas para responder ao que Deus nos pede, e justamente por fazer bem as coisas de cada dia, todas as ações cotidianas, os compromissos, os encontros com as pessoas, fazer as pequenas coisas de cada dia com um grande coração aberto a Deus e aos outros. É importante, então, cuidar da formação humana voltada à magnanimidade".

É por isso que qualquer instituição educativa, continuou, deveria ampliar não só a dimensão intelectual dos discentes, mas também a humana. Entre as virtudes a serem mais desenvolvidas – a lealdade, o respeito, a fidelidade, o compromisso –, Francisco optou por se deter em particular sobre dois valores cruciais: a liberdade e o serviço.

Na sua opinião, liberdade significa saber refletir sobre o que fazemos, saber avaliar o que é bom e o que é mau, os comportamentos que favorecem o crescimento: a partir disso, não deveríamos ter medo de ir contra a corrrente, embora não seja fácil, para nos tornarmos pessoas que possuem uma espinha dorsal forte, capazes de enfrentar a vida com coragem e paciência (parrésia e ypomoné).

No que diz respeito ao serviço, ele também exortava os presentes a não se fecharem em si mesmos ou no seu próprio pequeno mundo, mas sim a se abrirem aos outros, especialmente aos mais pobres e necessitados, a trabalhar para melhorar o mundo em que vivemos. Até serem verdadeiros exemplos no serviço aos outros.

Mas, para ser magnânimo com liberdade interior e espírito de serviço, é necessária a formação espiritual. Em primeiro lugar, fazermo-nos cada vez mais próximos de Jesus Cristo, responder ao seu chamado, sentir a sua presença na nossa existência: "Na oração, no diálogo com Ele, na leitura da Bíblia, vocês vão descobrir que Ele está realmente próximo. E aprendam também a ler os sinais de Deus na vida de vocês. Ele sempre nos fala, até mesmo através dos fatos do nosso tempo e da nossa existência de cada dia. Cabe a nós escutá-lo". É impossível não captar uma alusão ao tema dos sinais dos tempos, tão caro a João XXIII!

O discurso do dia 7 de junho, a quase três meses do início do caminho de Francisco, na verdade, se fundamenta em alguns dos pilares da espiritualidade de Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus: uma visão profundamente imersiva, pode só se dar viendo el lugar, olhando com atenção para o contexto em que nos encontramos. De fato, pede-se para se contemplar o mistério evangélico entrando na cena, rompendo – por assim dizer – a perspectiva brunelleschiana e imergindo totalmente na vida.

Por isso, a ideia de uma espiritualidade alienante, separada da história, ou que remete a um tempo tranquilo e sem problemas, não é de Inácio. Nem a do papa argentino, como vimos. Longe disso!

Francisco de Assis, chave de leitura

Para melhor compreender a trajetória espiritual que Francisco está traçando, convém voltar à escolha do nome. Diante das primeiras hipóteses, que se deleitavam sobre as reais motivações de uma decisão tão inédita – uma das mais referidas era a conexão com o jesuíta missionário Francisco Xavier –, foi ele mesmo, no dia 16 de março, encontrando os jornalistas na Sala Paulo VI, que esclareceu definitivamente a questão.

E o fez em modalidade narrativa, contando uma história vivida em primeira pessoa: "Na eleição, eu tinha ao meu lado o arcebispo emérito de São Paulo, o cardeal Hummes: um grande amigo, um grande amigo! Quando a coisa se tornava um pouco perigosa, ele me confortava. E quando os votos subiram a dois terços, veio o aplauso costumeiro, porque foi eleito o papa. E ele me abraçou, me beijou e me disse: 'Não te esqueça dos pobres!'. Essa palavra entrou aqui: os pobres, os pobres. Depois, imediatamente, com relação aos pobres, eu pensei em Francisco de Assis. Depois, pensei nas guerras, enquanto o escrutínio prosseguia até todos os votos. E Francisco é o homem de paz. E assim veio o nome no meu coração: Francisco de Assis. Para mim, é o homem da pobreza, o homem da paz, o homem que ama e cuida da criação, o homem que nos dá esse espírito de paz, o homem pobre... Ah, como eu gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres".

A partir desse dia, a referência à vida humana e espiritual do pobrezinho de Assis, no agir e no falar do sucessor de Bento XVI, se tornou a chave de leitura, tão indiscutível quanto exigente, do seu programa pastoral. Com o qual é possível interpretar, confundindo-se entre os tantos gestos convocáveis, o abraço, mais do que nunca simbólico, que ele reserva de regra, nas festivas imersões entre as pessoas que lotam a Praça de São Pedro, aos portadores de deficiências; o lava-pés da Quinta-Feira Santa na prisão juvenil romana de Casal di Marmo, dentre outros, a dois jovens muçulmanos; as visitas às paróquias de periferia da sua diocese; e assim por diante.

E depois as frases de efeito: a guerra, suicídio da humanidade; a recomendação a não ter medo da ternura; São Pedro não tinha conta no banco; o risco de lobbies e de corrupções... Tudo acompanhado pelo convite a mudar de mentalidade, a fazer metanoia em uma direção bem precisa.

Como aconteceu com o jovem filho de Pedro Bernardone, segundo o seu relato autobiográfico, contida no Testamento (1226): "... quando eu estava no pecado, parecia-me repugnante suportar a visão dos leprosos, e o próprio Senhor me levou ao seu encontro, e eu experimentei com eles misericórdia, e, enquanto me afastava deles, o que me parecia repugnante mudou-se em doçura da alma e da carne".

E como Bergoglio, ainda arcebispo de Buenos Aires, tinha intuído, em diálogo com o rabino Skorka, defendendo que "Francisco de Assis contribuiu com o cristianismo com uma nova concepção da pobreza em oposição ao luxo, ao orgulho e à vaidade dos poderes civis e eclesiásticos da época", a ponto de desenvolver "uma mística da pobreza e da privação" e de mudar a história.

Bispo de rua

Deve-se notar, para evitar equívocos, que, no projeto espiritual do Assisense – e do seu homônimo de oito séculos depois – não há nenhum desvio espiritualista, nem qualquer alienação da conflitualidade inerente às vicissitudes humanas. Assim como o primeiro havia recusado os modelos monásticos do claustro fechado e autossuficiente para escolher, como espaço de pregação e penitência, o mundo inteiro, assim também Bergoglio, na Argentina, era considerado um bispo de rua, porque esse era o horizonte em que ele tinha escolhido se mover, não concebendo as paróquias e as igrejas como hortus conclusus. A ponto de idealizar a Carpa misionera, a tenda missionária: uma mesa simples e uma tenda amarela postas nos lugares mais frequentados da metrópole portenha, para onde se leva uma Virgen de Luján, a Nossa Senhora venerada no santuário nacional, e se celebra a Eucaristia.

E, mais, enquanto o primeiro tinha realizado um mimo profético de altíssimo perfil, despindo-se publicamente diante do bispo Guido e do atônito pai, indicando o despojamento de tudo como condição necessária para abraçar o desafio radical do Evangelho, assim também o papa escolheu viver em Santa Marta, renunciando ao apartamento preparado para ele e se vestir o mais simplesmente possível.

Poderíamos continuar. Resta o fato de, agora, Bergoglio acumulou um grande crédito junto à opinião pública, sobretudo em perspectiva – franciscanamente falando – do casamento com a Senhora Pobreza, e dos seus reflexos sobre as instâncias vaticanas, não menos do que sobre as dinâmicas do cristianismo global.

Nessa estrada em que se segue nu o Cristo nu, ele é chamado a continuar; nessa estrada é de se esperar que ele continue caminhando, com resultados nem mesmo imagináveis hoje.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

A surpresa dos 100 dias de Francisco. Artigo de Brunetto Salvarani - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV