Uma encíclica única escrita por dois papas que se contradizem

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08 Julho 2013

A sua verdadeira encíclica o Papa Francisco vai publicar no próximo ano e será sobre a pobreza. Porque esse é o tema que mais está no seu coração no momento em que a crise aferra os pobres e os empobrecidos em nível planetário.

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 06-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Não por acaso, o secretário papal, Pe. Xuereb, comentando a visita a Lampedusa, disse: "Enquanto no norte há os ricos que desperdiçam, por outro lado, há um Sul que deixa tudo para tentar a sorte e muitas vezes encontra a morte". A Lumen Fidei, a encíclica escrita a quatro mãos com o ex-pontífice RatzingerFrancisco o reconhece expressamente na introdução – é, ao invés, um ato político.

Bento XVI havia deixado a encíclica inacabada, e se tratava de neutralizar toda eventualidade, mesmo a mais leve, que deixasse traços um magistério bipolar. A "palavra" do ex contra as "palavras" do pontífice reinante.

Francisco tinha e tem outros programas. Remodelar o IOR a fundo, reorganizar a Cúria, reformar o Sínodo dos Bispos, pôr de pé um mecanismo de governo colegial com o episcopado. Mas Ratzinger teve a ideia pouco feliz de se inventar o título de "papa emérito", tendendo à veste branca, em vez de vestir o hábito cinza de monge e de se chamar somente – nobremente – de "padre Bento".

E então Bergoglio teve que enfrentar nesses meses também esse problema. Ele explicou que Bento XVI, abdicando, ouviu a voz do Senhor, abraçou-o como um irmão aposentado, colocou-o no mesmo genuflexório em Castel Gandolfo, nessa sexta-feira o levou junto para a bênção de uma estátua o arcanjo São Miguel dentro do Vaticano, e, portanto, a encíclica escrita a quatro mãos (um inédito absoluto na história dos papas) é uma forma afetuosa e elegante de encerrar o jogo. Sepultando toda sombra de dualismo papal.

No texto, podem-se notar as mãos diferentes. Ratzinger cita Nietzsche e Dostoiévski, disserta sobre a fraqueza da razão que não produz luz suficiente quando nega a fé. Bergoglio insiste no compromisso paciente a perdoar, na fé como "lâmpada que não é uma luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia na noite os nossos passos". Em suma, sua é a abordagem plana e conversacional que fascina os peregrinos em São Pedro. "Caminho" é uma das suas palavras-chave. E, portanto, o "crente não é arrogante", a fé o estimula ao "testemunho e ao diálogo com todos". A fé também não deve "servir para construir uma cidade eterna, no além; ela nos ajuda a edificar as nossas sociedades", favorece um caminho para um futuro de esperança.

Observa o bispo teólogo Bruno Forte (em um livro de comentários publicado pela editora La Scuola, com a contribuição também do filósofo humanista agnóstico Salvatore Natoli) que, para Francisco, o crente nunca pode se fechar no próprio "eu", desinteressando-se pelo bem comum.

Mas, por outro lado, essa também era a posição de Bento XVI desde a sua primeira encíclica, Deus Caritas est. Ao apoiar a ligação inseparável entre verdade e amor, Ratzinger e Bergoglio se encontram. "Sem amor – diz-se na encíclica Lumen Fidei que começa a conclusão do Ano da Fé –, a verdade torna-se fria, impessoal, opressiva".

Mas, em última análise, Francisco não gosta de "raciocinar" sobre a fé. Ele gosta fundamentalmente – e crentes e não crentes logo captaram isso – de um cristianismo realmente praticado com solidariedade e misericórdia. É por isso que na encíclica (além de citações enciclopédicas tradicional também sobre o amor conjugal entre homem e mulher) São Francisco e Teresa de Calcutá são exaltados como exemplos. Porque, nos leprosos e nos pobres, "eles compreenderam o mistério que há neles". O que importa para o papa argentino é uma fé que ensina o cristão a reconhecer o rosto de Deus "através do rosto do irmão".

Há muita inquietação em amplos setores conservadores do catolicismo – não só em alguns setores vaticanos – diante do novo curso, diante da revolução para a qual Bergoglio está levando a Igreja passo a passo. Bergoglio quer arrastar a enorme estrutura eclesiástica do catolicismo imperial romanocêntrico para uma Igreja-comunidade. Proclamando santos João XXIII e João Paulo II no outono europeu, ele relança as ideias-guia do Concílio e encerra, simbolicamente, a época das discussões (e das repressões) do pós-Concílio. "A fé – afirma-se na encíclica – não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida".

Essa coragem do futuro assusta os conservadores, temerosos de mudanças grandes demais. Por isso, insistem em dizer nos corredores vaticanos que "a Igreja é sempre a mesma, embora cada papa tenha o seu estilo pessoal". Não se trata de estilo. Trata-se de objetivos. Bergoglio trabalha pela mudança.

Próxima etapa: a nomeação do secretário de Estado e ministro das Relações Exteriores. Depois, talvez, uma ampliação do Conselho da Coroa dos oito cardeais. Mas o terror maior é sentido na Cúria pelos monsenhores citados por razões de carreirismo, sexo e corrupção no grande dossiê secreto sobre o Vatileaks. O papa que decapitou o IOR não terá receio de fazer cair a cabeça de alguns prelados.

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