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21 Fevereiro 2013

"Que a Campanha da Fraternidade que não se reduza a sensibilizar a juventude para fazer 'turismo' no Rio de Janeiro, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude. Uma Campanha que não fique apenas no oba-oba e no puro sentimentalismo, mas que seja capaz de se perguntar, com coragem e determinação, acerca do futuro da juventude no mundo e na Igreja", escreve José Lisboa Moreira de Oliveira, filósofo, teólogo e escritor.

Eis o artigo.

Pela segunda vez a Igreja Católica Romana no Brasil dedica a reflexão quaresmal da Campanha da Fraternidade à questão da juventude. Vinte e um anos atrás (1992) ela via a juventude como “caminho aberto”, ou seja, como potencial capaz de transformar o mundo, a humanidade e a própria Igreja. E isto é verdade, uma vez que na juventude encontram-se todas as possibilidades e esperanças. Os jovens e as jovens serão os construtores do futuro, aqueles e aquelas que irão estar à frente de tantas responsabilidades, tomando decisões importantes que podem melhorar ou piorar a vida do mundo e da Igreja.

Passadas duas décadas convêm nos perguntarmos o que mudou na juventude. No que ela se modificou? Para quem já tem certa idade, como é o meu caso, e vem acompanhando atentamente as mudanças sociais e culturais, é possível perceber transformações verdadeiramente significativas. De modo particular, notamos o impacto da informática na vida dos jovens e das jovens. Eles e elas fazem parte de uma geração que já nasceu conectada com a rede mundial de computadores e sabendo lidar de maneira veloz e inteligente com os aparelhos mais sofisticados, como por exemplo, aqueles da telefonia celular.

Mas notamos também que, embora a juventude continue sendo um “caminho aberto”, muitos caminhos foram fechados para ela. A juventude continua sendo a principal vítima do desemprego, da falta de oportunidades, da violência, das drogas e da propaganda consumista enganosa. O acesso a uma educação de qualidade continua sendo muito difícil. A falta de preparação para o ingresso no mercado de trabalho deixa milhões de jovens sem condições de emprego. Estes, e tantos outros problemas, terminam criando neles e nelas uma sensação de impotência e de vazio. Por essa razão muitos jovens e muitas jovens vivem sem perspectivas e sem esperança. O desespero toma conta e tudo isso os empurra para a apatia e para uma vida sem sentido, fragmentada e cansada. Torna-se cada vez maior o número de jovens entregue ao vício e à delinqüência. Muitos deles e muitas delas concluem suas vidas prematuramente, inclusive por meio do suicídio.

Não faltam, porém, mesmo que em número reduzido, jovens sonhadores e lutadores, comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa e mais solidária. Jovens participantes de projetos simples, mas bem significativos, os quais no silêncio e na constância estão modificando o mundo e a humanidade. Infelizmente o número de jovens que atuam diretamente no espaço da política vem sendo reduzido de forma acelerada. Os partidos políticos, hoje com pouca ou nenhuma credibilidade, abandonaram suas bases e não mais investem na formação política da juventude. As Igrejas, incluindo a Católica Romana, também deixaram de lado iniciativas significativas antes existentes e que muito contribuíram para a formação cidadã dos jovens e das jovens. A Pastoral da Juventude vive à deriva, lutando desesperadamente contra atitudes de bispos e padres autoritários e espiritualistas que só pensam em rebanhões, em eventos de massa, recusando-se a dialogar com jovens mais críticos em espaços formativos como os pequenos grupos de jovens. Neste sentido, pode-se afirmar que, no atual momento, a juventude é a principal vítima dos abusos e dos autoritarismos eclesiásticos. O restante do público católico, quase todo ele infantil, feminil e senil, se conforma facilmente com a “espiritualidade açucarada” que lhe é oferecida.

Percebe-se dentro da atual Igreja Católica Romana (e em outras Igrejas) uma ausência de autocrítica com relação ao modo com o qual se tenta evangelizar a juventude. Não faltam chavões como: “a juventude mora no coração da Igreja” ou “a juventude, lugar teológico privilegiado”, mas, na prática, a teoria é outra. A tão pregada “opção afetiva e efetiva pelos jovens” não passa, em muitos lugares, de mera propaganda enganosa. Em certas igrejas locais tal pregação é uma verdadeira piada de mau gosto que a muitos faz chorar de tristeza. Muitas lideranças católicas e não-católicas se recusam terminantemente a dialogar com a juventude, não ouvindo-a e nem escutando seus anseios. De forma autoritária e dominadora fecham espaços significativos, instâncias de diálogo com o mundo da juventude. Juventude essa que, aliás, é diversificada e multicolorida. É uma juventude formada de “juventudes”.

Certos bispos, muitos padres e lideranças religiosas não toleram jovens críticos, questionadores, que buscam saber a razão e o porquê de determinadas coisas dentro das Igrejas locais. Quando insistem em perguntar e questionar, são abandonados, expulsos, reprimidos e marginalizados. Tais lideranças católicas querem apenas jovens alienados, “ovelhinhas humildes e submissas” que os venerem como verdadeiros deuses, incapazes de questionar suas práticas e suas atitudes. O recente fechamento de institutos e instituições de formação da juventude é a mais visível expressão de intolerância com relação a uma juventude que não se contenta com abobrinhas e quer explicações mais sérias para certas coisas. Havia razão o místico e profeta Arturo Paoli, hoje com mais de cem anos de idade, quando há quase trinta anos atrás, em seu livro Ricerca di una espiritualità per l’uomo d’oggi (Assis: Cittadella, 1984) afirmava: “O espetáculo da juventude religiosa na Igreja atual pode consolar aqueles velhos que desejam os bons meninos que não pedem as chaves de casa, mas caminha na direção da desilusão análoga àquela que se difundiu durante a queda do mito fascista. Somente a verdade nos fará livres, e é extremamente perigoso criar a ilusão da liberdade separando-a da verdade” (p. 190. O grifo é meu).

Estes bispos, padres e lideranças religiosas querem apenas jovens drogados espirituais que estejam tão ocupados com as “coisas de Deus”, a ponto de não enxergarem a realidade. Jovens que não leiam os sinais dos tempos. Querem jovens que não saibam perceber a vontade e a ação de Deus no meio das contradições da história humana. Neste momento em que se percebe na Igreja Católica um vazio de autoridade, no senso evangélico da expressão (Mc 1,22), e a presença de um autoritarismo anti-evangélico terrificante e desumano (1Pd 5,3), é hora de realizarmos uma Campanha da Fraternidade mais séria.

Uma Campanha da Fraternidade que não se reduza a sensibilizar a juventude para fazer “turismo” no Rio de Janeiro, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude. Uma Campanha que não fique apenas no oba-oba e no puro sentimentalismo, mas que seja capaz de se perguntar, com coragem e determinação, acerca do futuro da juventude no mundo e na Igreja. Uma Campanha da Fraternidade que não se emocione com os sensacionalismos baratos destes eventos de massa para a juventude, mas que seja capaz de se perguntar sobre a razão pela qual, na Europa, os jovens não chegam a um por cento dos católicos praticantes. No Brasil ainda não estamos neste patamar, mas, se continuarmos não dialogando com a juventude inteligente e crítica, em breve superaremos a Europa.

Aproveitemos desta Campanha da Fraternidade sobre a juventude para meditarmos sobre esta pergunta de Jesus: “Por que vocês não julgam por vocês mesmos o que é justo?” (Lc 12,57). Os jovens críticos, maioria absoluta no mundo de hoje, esperam de nós, os cristãos e as cristãs, uma justificativa séria para continuarem tendo esperança (1Pd 3,15).

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