A ''catolicidade'' do ensino superior católico em questão

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07 Dezembro 2012

Fissuras ideológicas e teológicas na paisagem do ensino superior dos EUA ficam à mostra quando ocorre a discussão da Cardinal Newman Society. Por sua parte, a organização – com sede em Manassas, Virgínia – define a sua missão como uma ajuda a "renovar e fortalecer a identidade católica na educação superior católica" e prestar uma expressiva adesão à constituição apostólica do Papa João Paulo II, de 1990, sobre as faculdades e universidades católicas, Ex Corde Ecclesiae.

A reportagem é de Dan Morris-Young, publicada no sítio do jornal National Catholic Reporter, 04-12-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No entanto, a Associação das Faculdades e Universidades Católicas, a Associação das Faculdades e Universidades Jesuítas, e os reitores de faculdades e universidades individuais criticam – às vezes duramente – a Sociedade.

Por exemplo, o padre jesuíta Gregory F. Lucey, presidente da Associação das Faculdades e Universidades Jesuítas, declara que a Cardinal Newman Society "não tem e continua não tendo nenhuma posição oficial dentro da Igreja Católica, nem dentro da comunidade acadêmica" e que "ela não tem a integridade para ser uma fonte de recurso crível sobre o ensino superior católico".

O fundador, presidente e diretor-executivo da Sociedade, Patrick J. Reilly, responde que "as preocupações comuns de milhares de famílias católicas fiéis merecem ter, com direito, uma voz na educação católica", e que a Sociedade proporciona isso.

O mais jovem reitor de uma faculdade católica dos EUA Católica apoia Reilly nesse fronte. O Pe. James P. Shea (foto), 37 anos, da University of Mary, em Bismarck, Dakota do Norte, observou: "Não é preciso ser um acadêmico de direito para se preocupar profundamente com a identidade católica e a fidelidade à missão nas instituições eclesiais de ensino superior. Provavelmente, é um sinal de saúde e de renovação na Igreja pelo qual os estudantes e as famílias valorizam muito a educação superior católica o fato de buscarem o auxílio de guias impressos ou online a faculdades católicas, incluindo o que é publicado pela Cardinal Newman Society".

Shea observa que "há muitas pessoas de diferentes convicções que estão muito interessadas na identidade católica. Por um lado, eu acho que é importante tratar a questão com a nuance apropriada. Por outro lado, estes são dias em que a transparência e a responsabilidade são muito importantes para o ensino superior".

É improvável que o padre jesuíta Stephen V. Sundborg, presidente da diretoria da Associação das Faculdades e Universidades Jesuítas, argumente contra a transparência e a responsabilidade, mas ele certamente não convidaria a Cardinal Newman Society como juíza. A diretoria da associação é constituída pelos 28 reitores de faculdades e universidades jesuítas, pouco mais de 10% das mais de 262 instituições católicas de ensino superior nos EUA

Em uma declaração enviada ao NCR, Sundborg disse: "Não vemos a Cardinal Newman Society como uma representante crível da missão e da prática do ensino superior católico nos Estados Unidos. Cada um de nós, como reitor de uma faculdade e universidade jesuíta, está consciente das comunicações, dos inquéritos e das táticas de pressão da Cardinal Newman Society, mas não prestamos atenção a eles, não lhes damos crédito, e eles não influenciam as nossas decisões ou políticas".

A Cardinal Newman Society é bem conhecida pelo seu papel nas polêmicas acerca de conferencistas e cursos oferecidos nos câmpus católicos. As lideranças de faculdades e universidades católicas que entraram na mira do grupo descrevem as táticas "de implosão da comunicação", que incluem ondas de protesto por e-mail, cartas e telefonemas aos bispos e autoridades das faculdades.

O padre jesuíta Stephen Privett, reitor da Universidade de San Francisco, pergunta: "O verdadeiro mistério é quem os ouve em Roma e por quê?".

O papel do cardeal

O cardeal Raymond L. Burke (foto) é uma resposta. Burke, que chefia o Supremo Tribunal da Signatura Apostólica do Vaticano, é o "consultor eclesiástico" do Centro para o Avanço da Educação Católica Superior da Sociedade, que recentemente se transferiu para a Mount St. Mary's University, em Emmitsburg, Maryland.

Vários e-mails para Burke em seu escritório do Vaticano ficaram sem acusação de recebimento.

De acordo com um comunicado de imprensa da Newman Society, Burke foi um dos principais consultores – juntamente com outras "autoridades da Igreja, lideranças universitárias, especialistas em direito canônico e teólogos" – da preparação de um "relatório especial", publicado em julho e escrito por Reilly e Charlotte Hays, diretores das notícias e publicações universitárias da organização.

Intitulado "Um mandato para a fidelidade: Papa Bento XVI exorta ao cumprimento do mandato dos teólogos", a narrativa pede que as faculdades e universidades católicas exijam que todos os professores de teologia católica obtenham um mandatum como condição de emprego e tornem público quais professores o têm e quais não.

A Ex Corde Ecclesiae estipula que os professores de teologia de faculdades e universidades católicas devem obter um documento de uma "autoridade eclesiástica competente" – normalmente o bispo local – que reconheça que ele ou ela está "ensinando dentro da plena comunhão da Igreja católica", apontam as diretrizes de 2001 adotadas pelos bispos norte-americanos sobre a implementação da instrução papal.

Em essência, a Associação das Faculdades e Universidades Católicas (que representa 90% dessas instituições), a associação dos jesuítas e outras se questionam: "O que faz com que a Sociedade pense que tem a autoridade para fazer tais exigências?".

A Cardinal Newman Society aponta para o Papa Bento XVI.

A importância do mandatum

Dirigindo-se aos bispos norte-americanos do Colorado, Novo México, Arizona e Wyoming durante a sua visita ad limina a Roma em maio passado, o papa enfatizou o cumprimento da Ex Corde na nomeação dos instrutores de teologia nas faculdades e universidades católicas dos EUA.

O papa disse aos bispos que o mandatum era importante por causa "da confusão criada por casos de aparente dissidência entre alguns representantes de instituições católicas e a liderança pastoral da Igreja".

"Não é surpreendente que o Papa Bento XVI tenha dito que o mandatum é 'especialmente' importante para a 'reafirmação' da identidade católica nas faculdades e universidades católicas", escreveu Reilly em um e-mail para o NCR. "Os professores de teologia têm direitos que devem ser respeitados, mas as famílias católicas também. E as instituições católicas têm a obrigação de ensinar em fidelidade à doutrina católica. Nós ouvimos de pais e estudantes católicos que consideram isso uma simples questão de justiça que esperam que os seus filhos e filhas sejam capazes de saber quais dos seus professores de teologia têm o mandatum e ensinam em plena comunhão com a Igreja".

As autoridades do ensino superior assim como os bispos assumiram pontos de vista diferentes sobre o mandatum. Mary Lyons, reitor da Universidade de San Diego, apontou para a "confusão" em torno do mandatum e acrescentou: "Alguns acham que ele não é apropriado para tratar a nossa faculdade de teologia, como se eles fossem clérigos que precisam de 'permissão'".

Outros expressam preocupação com a possível violação da liberdade acadêmica e citam o homônimo da Cardinal Newman Society no processo: "Eu hei de obedecer ao papa, se lhes agrada, mas à consciência primeiro, e depois ao papa".

Alguns veem o acordo entre o professor e o bispo como uma questão privada. Outros, como Burke e o arcebispo emérito de Omaha, Elden Curtiss, reafirmam que o mandatum é uma declaração pública.

Também consultado para a elaboração de "Um mandato para a fidelidade", Curtiss fica do lado dos outros bispos que estão dispostos a divulgar os nomes dos professores de teologia universitários dentro de suas sedes episcopais que possuam ou não um mandatum.

"As pessoas precisam saber se alguém está ensinando autêntica doutrina católica", disse. "Se uma pessoa se propõe a ensinar teologia católica, então ela precisa de um mandatum. Se está ensinando outra coisa, então chame-o pelo nome".

Dizendo que a Cardinal Newman Society pode ser "estridente" às vezes, Curtiss, no entanto, afirmou: "Do meu ponto de vista, eu fico feliz que haja uma organização que mantenha o foco na Ex Corde e, especialmente, no mandatum. Eles são pessoas ortodoxas incondicionais que tentam manter a honestidade das faculdades e das universidades em termos da identidade católica".

As diretrizes dos bispos de 2001 afirmam que "o mandatum é uma obrigação do professor, não da universidade".

Esse documento também instrui que "os teólogos que receberam um mandatum não são catequistas; eles ensinam em nome próprio, em virtude do seu batismo e de sua competência acadêmica e profissional, não em nome do bispo ou do Magistério da Igreja".

Um comunicado de imprensa cita Burke descrevendo o mandatum como "uma declaração pública, por escrito", e que "as pessoas têm o direito de saber, de modo que, se você, por exemplo, está em uma universidade católica ou os pais enviam seus filhos a universidade católica, eles saibam que os professores que ensinam disciplinas teológicas estão ensinando em comunhão com a Igreja".

Reilly ressaltou que a Cardinal Newman Society lançou o seu Centro para o Avanço da Educação Superior Católica para melhorar justamente isso.

"O Centro não é distinto da Cardinal Newman Society. É uma divisão que representa um aspecto-chave do nosso trabalho para ajudar a renovar e fortalecer a identidade católica na educação superior católica", explicou Reilly. "Lançamos o Centro antes da visita do Papa Bento XVI aos Estados Unidos em 2008, especificamente para apoiar aquelas faculdades e universidades que estão comprometidas a viver a visão do Santo Padre sobre a educação dos fiéis. O Centro se concentra em facilitar a colaboração entre as autoridades universitárias para fortalecer as faculdades e universidades católicas".

Questionado sobre quais escritórios ou autoridades vaticanas a Cardinal Newman Society pode consultar, Reilly disse: "Nós consultamos centenas de várias pessoas, incluindo reitores de universidades, conselheiros, membros do corpo universitário, administradores, padres, irmãs e bispos – sim, alguns deles de Roma".

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