O papiro que fala da “esposa” de Jesus

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Por: André | 21 Setembro 2012

Um fragmento de papiro, escrito no dialeto copta saídico típico do baixo Egito e que até agora era desconhecido, abriu novamente o debate sobre a possibilidade de que Jesus tivesse estado casado. A professora Karen King, da Harvard Divinity School, durante um congresso em Roma apresentou o papiro no qual se pode ler: “E Jesus lhes disse: ‘minha esposa...”. Trata-se da primeira e única documentação em que se fala de uma “esposa” de Jesus e a notícia foi difundida pelo The New York Times.

A reportagem é de Andrea Tornielli e está publicada no sítio Vatican Insider, 19-09-2012. A tradução é do Cepat.

Em seu estudo, que será publicado em janeiro de 2013 na revista teológica de Harvard, a historiadora King afirma prudentemente que não pode dar um veredicto definitivo; tudo leva a pensar que o fragmento é autêntico. Diferentes especialistas excluem até mesmo a possibilidade de se tratar de um texto acrescentado a um fragmento de papiro antigo. O fragmento é pequeno, mede 4 por 8 centímetros e é possível ler apenas alguns fragmentos de frases.

A professora King afirmou: “Este papiro não prova, obviamente, que Jesus foi casado, mas destaca que a questão de seu eventual matrimônio e de sua sexualidade foi discutida em debates quentes”. Deduz-se das características da grafia que o papiro foi escrito durante a segunda metade do século IV. Por essa razão, é possível pensar em uma relação entre este texto e outros contemporâneos, conhecidos também como o Evangelho de Tomé ou de Maria Madalena. Textos que, além disso, nasceram em um ambiente gnóstico.

Como se sabe, a Igreja reconhece como autênticos apenas os Evangelhos “canônicos”: são aqueles que se atribuem aos evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João. Estes textos podem ser datados como do primeiro século: no caso dos de Mateus e João trata-se de dois apóstolos, ao passo que Marcos e Lucas eram seguidores dos apóstolos Pedro e Paulo. Embora geralmente se pense que o reconhecimento dos Evangelhos canônicos e o consequente rechaço dos outros, definidos como “apócrifos”, se deve a uma imposição das autoridades eclesiásticas, a realidade é bem diferente. Os Evangelhos canônicos eram, de fato, os mais difundidos desde o início nas comunidades cristãs, que reconheciam sua origem apostólica e, por conseguinte, um vínculo com as testemunhas oculares da vida de Jesus. Os Evangelhos canônicos, pois, já eram o que são muito antes de serem definidos como tais. Um fragmento descoberto na Biblioteca Vaticana por Ludovico Muratori indica que desde a Roma do ano 157 se lia e se venerava esses mesmos quatro Evangelhos.

A palavra “apócrifo”, usada para indicar os Evangelhos não reconhecidos pela Igreja, é grega e significa “oculto”: durante o século II circulavam alguns escritos que se difundiam nos círculos gnósticos cristãos e que eram definidos dessa forma. São textos mais tardios, mediante os quais se tratou de reconstruir algumas partes da biografia do Nazareno ou de interpretar seu pensamento. Geralmente, enquanto os textos canônicos são diretos, contam o essencial, são pouco indulgentes com o milagrismo, os apócrifos estão cheios de elementos milagrosos e sensacionalistas. E em alguns casos, inclusive, são a expressão das tendências do movimento filosófico-religioso do gnosticismo, que acreditava na dualidade radical, em uma diferença abismal entre Deus e a realidade material.

O maior especialista italiano nestes textos, Luigi Moraldi, escreveu: “Os Evangelhos gnósticos são meditações sobre Jesus, sobre sua mensagem, sobre as reações que suscita em cada crente, sobretudo se for intelectual... Não são compêndios de dados biográficos sobre Jesus. Pressupõem nos leitores um conhecimento preciso tanto do anúncio cristão como dos primeiros desenvolvimentos e dos primeiros aprofundamentos”. O fragmento apenas apresentado teve sua origem em um ambiente copta, como outros textos gnósticos.

Por que a Igreja defende que Jesus nunca se casou? Os Evangelhos canônicos apresentam o Nazareno como celibatário. Embora tivesse escolhido personagens femininas em sua pregação e em suas parábolas, e embora tivesse um grupo de mulheres que o seguiam constantemente, nenhuma das mulheres citadas nos Evangelhos canônicos é apresentada como sua esposa. De qualquer maneira, os autores dos Evangelhos canônicos não descrevem a condição do celibato como superior em relação ao matrimônio. Pedro estava casado (o Evangelho fala da cura de sua sogra), assim como outros dos primeiros discípulos. Se Jesus tivesse estado casado, afirmam muitos biblistas e especialistas, os Evangelhos, simplesmente, o teriam escrito.

Uma das objeções que se ouve contra o celibato de Jesus tem a ver com o fato de que os mestres religiosos do mundo judaico se casavam. Mas nem sequer há 2000 anos eram raras as exceções à regra do matrimônio, como indica, por exemplo, a comunidade dos essênios, que vivia em Qumrã e era formada por celibatários.

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