Martini, testemunho até o fim. Artigo de Raniero La Valle

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06 Setembro 2012

Martini anuncia que a profecia não acaba, nem mesmo a vida.

A opinião é do jornalista e senador italiano pelo Partido Comunista Italiano, Raniero La Valle. O artigo foi publicado no jornal Il Manifesto, 01-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A Igreja que se prepara para celebrar os 50 anos do início do Concílio Vaticano II deverá agora viver sem ele também. Martini não havia participado do Concílio, mas toda a sua vida foi entrelaçada com a extraordinária novidade com que a Igreja do século XX soubera repensar a si mesma, a fé e o mundo.

Dessa novidade, ele foi o mais lúcido e corajoso intérprete no episcopado italiano, e a uma das conversões mais decisivas da Igreja conciliar, a do retorno à Bíblia e da sua restituição à oração e à reflexão dos crentes, ele deu instrumento e voz, seja com os seus estudos bíblicos e a sua reedição a partir do grego do Novo Testamento, acolhida e usada por todas as Igrejas cristãs, seja com a generosa administração da Sagrada Escritura na "Escola da Palavra" e nas suas catequeses e leituras bíblicas aos fiéis de Milão.

Doente há muito tempo de Parkinson, o cardeal Martini, como narrou o neurologista que o havia tratado e assistido, excluiu para si qualquer obstinação terapêutica, assunto sobre o qual, aliás, ele havia falado em termos serenos e objetivos para todos em um longo diálogo com Ignazio Marino. Nessa notícia, no entanto, o aspecto mais importante não é que ele não tenha considerado como água de beber aquela inserida com a sonda, nem como alimento para viver aquele introduzido diretamente no abdômen (que é o atual objeto de debate), mas sim a motivação que toda a sua vida revela desse gesto. Portanto, ele não pode ser tão facilmente usado como uma bandeira no feroz conflito em torno dos modos de morrer e àquilo que significa "morte natural", quando vida e morte já estão agora nas mãos de técnicos entendidos como médicos.

A verdadeira motivação desse morrer sem obstinação, para o cristão Martini, só pode ter sido a ideia de que não havia nenhuma razão para retardar além da medida o seu encontro com o Pai, a razão não podia não estar no fato de que, no seu magistério, no qual ele sempre havia valorizado a vida, também havia anunciado uma outra vida em Deus, sem mais limites de espaço e de tempo, e que a fé na ressurreição, se havia sido objeto da sua tese de doutorado, devia ainda mais animar e motivar a última parte da sua vida terrena.

E esta, a fé, havia sido a sua verdadeira profecia. Porque muito se fala, em todas as margens, sobre a Igreja, e muito falam e se deixam falar os homens da Igreja. Mas, muito frequentemente, senão quase sempre, se esquece que a verdadeira questão em jogo não é uma ciência, não é uma política, não é uma legislação, não é uma moral, mas sim a fé. A questão, a verdadeira questão, é a de Deus e da sua relação com todo ser vivo.

A fé, no que acreditar, como acreditar, como narrar a fé, também foi o verdadeiro conteúdo e o verdadeiro tormento do Concílio, bem além das questões referentes a ministérios e primados. E essa ainda é a questão que resta, se quisermos ainda falar com o ser humano de hoje, à altura dos seus problemas. E era precisamente isso o que levava Martini a falar com todos e a ir à escola por todos, crentes e não crentes, leigos e consagrados, católicos e outros cristãos, pessoas de outras religiões e sem religião. Porque a questão não é o pertencimento, a questão é o amor de Deus.

Em fevereiro de 1992, o cardeal Martini presidiu as exéquias do padre David Maria Turoldo, outro cristão livre como ele. Livre demais para que a instituição eclesiástica não se envolvesse com ele, e, de fato, Turoldo, que participara de todas as batalhas civis e religiosas, da Resistência ao referendo sobre o divórcio, passando pelo borbulhar da renovação pós-conciliar, havia sido perseguido, mantido em suspeita e posto de lado pelos eclesiásticos no exercício de autoridade.

Martini, arcebispo em Milão, alguns meses antes de morrer, o havia acolhido e apertado no abraço da Igreja, conferindo-lhe o Prêmio Lazzati e dizendo: "A Igreja reconhece a profecia tarde demais". Morrendo, na sua última homilia, Turoldo disse aos fiéis que haviam vindo para se despedir dele: "A vida não acaba nunca".

É o mesmo anúncio que, com sua morte, Martini dá a todos nós. A profecia não acaba, e nem mesmo a vida. E não se trata de se enraivecer ou não se enraivecer, trata-se do dom de Deus que não é negado a nenhum homem ou mulher. É isso, e não outra coisa, que deve dizer "um homem de Deus", jesuíta, cardeal ou papa que seja. Martini disse isso e o testemunhou até o fim.

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