Meu balanço do primeiro ano do governo Dilma. Artgio de Rudá Ricci

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17 Dezembro 2011

"No campo político, a queda dos sete ministros mereceria muito mais perplexidade e preocupação do que de fato despertou no país. Mesmo porque, a lista não para, tendo o ministro Fernando Pimentel como bola da vez. Em qualquer país parlamentarista, a capacidade e governabilidade do Primeiro Ministro já seriam questionadas. Mas aqui...", escreve Rudá Ricci, sociólogo, no seu blog, 17-12-2011.

Segundo ele, "Dilma surfa na popularidade que lhe dá cobertura e fôlego para equilibrar suas deficiências políticas. Mas terá nova prova de fogo em janeiro (ou fevereiro) quando anuncia sua reforma ministerial".

Eis o artigo.

Dilma Rousseff possui três características pessoais e políticas que merecem destaque:

1) É uma gerente dura, que cobra resultados. Nisto, se aproxima em muito do estilo de Antonio Anastasia, governador de Minas Gerais. Já comentei neste espaço que Dilma - como Anastasia - se apóia no modelo do Reino Unido, a Nova Gestão Pública, que adota instrumentos da gestão privada para conduzir a gestão pública. Confesso que o modelo de Dilma parece muito mais restrito do que o de Anastasia. Sua relação com a sociedade civil é parca e marginal. O centro das preocupações de Dilma é a obtenção de resultados e metas pré-definidas. Dilma é gestora, sem traquejo político;

2) Esta é justamente a segunda característica pessoal da Presidente da República: não possui traquejo político. Assim, não consegue se impor politicamente ou se antecipar aos fatos políticos. Nesta área, praticamente atuou com uma agenda reativa, tanto nos escândalos, quanto na relação com o Congresso. É verdade que conseguiu, assim como seu padrinho, transformar a adversidade em arma de ataque. Este foi o caso dos escândalos que acabaram derrubando vários ministros. Mas nos lugares dos que caíram entraram nomes mais frágeis, mais técnicos, menos habilidosos ou com menos poder de fogo. Aumentou o poder centralizador da gestora Dilma, mas diminuiu em muito sua interlocução com o mundo institucional da política;

3) É herdeira de Lula e não faz esforço para esconder. Aqui está o ponto de equilíbrio com a deficiência pessoal na relação política. Lula é um forte cabo eleitoral e até em São Paulo quase 50% dos eleitores seguirão sua orientação, segundo pesquisa recente do Datafolha. Esta simbiose, ou dependência, carrega consigo o signo (ou memória) da inclusão social pelo consumo. Se somarmos a este fato a análise positiva da grande imprensa e de parte do tucanato sobre a performance de Dilma, temos as explicações para o fato de 70% dos brasileiros aprovarem sua gestão. Mesmo porque, como veremos, Dilma não fez tanto por merecer este alto índice de aprovação.

Com efeito, a gestão Dilma colheu mais resultados negativos (embora de baixa intensidade ou impacto político, até o momento) que positivos.

A começar pelo crescimento do PIB. Se a gestão Lula termina com índices históricos de crescimento, Dilma amargará pífios 3% no primeiro e, possivelmente, segundo anos de sua gestão. O agronegócio, mais uma vez, será o âncora do crescimento, embora tenha oscilado na composição do índice de inflação no segundo semestre. Há cada vez maior preocupação com o processo de desindustrialização nacional, que alguns reduzem a desnacionalização da indústria. Mas mesmo neste campo os problemas são ainda mais graves. A crise européia já impactou os investidores da Índia e China, que revisaram vários investimentos anunciados para 2012. Em Minas Gerais, João Monlevade (no Vale do Aço) e Sete Lagoas passam o ano muito mais pessimistas com os cortes de investimentos produtivos anunciados por empresas da área siderúrgica oriundas desses dois países.

No campo político, a queda dos sete ministros mereceria muito mais perplexidade e preocupação do que de fato despertou no país. Mesmo porque, a lista não para, tendo o ministro Fernando Pimentel como bola da vez. Em qualquer país parlamentarista, a capacidade e governabilidade do Primeiro Ministro já seriam questionadas. Mas aqui... O fato é que parece que se o ciclo nunca se completa é porque tem relação com certa pressão externa para que Dilma Rousseff desmonte a engenharia que Lula montou. Cada ministro que cai abala efetivamente a confiança dos aliados do Presidencialismo de Coalizão. Pressiona a Presidente a adotar outros caminhos, ou caminho próprio. Mas faz cair no colo de Lula as queixas dos partidos. Mesmo que uma continue dependente do outro, o fluxo das articulações acaba fortalecendo ainda mais Lula, a despeito das intenções dos denunciantes. Para piorar, Dilma tem à sua disposição dois fracos operadores políticos: Ideli Salvatti e Gilberto Carvalho. Ambos são demasiadamente identificados com a tropa de choque petista. Ambos são oriundos do sul do país, região onde somente o Rio Grande do Sul acolheu o PT com relevância.

Assim, Dilma surfa na popularidade que lhe dá cobertura e fôlego para equilibrar suas deficiências políticas. Mas terá nova prova de fogo em janeiro (ou fevereiro) quando anuncia sua reforma ministerial. Jorge Gerdau, Coordenador da Câmara de Gestão e Planejamento do Governo Federal, sugere que a Presidente reduza os 38 ministérios para apenas 18. Se esta sugestão for cumprida, Dilma reforçará seu perfil de gestora dura e retilínea, mas entrará num inferno político que dificilmente sairá sem a intervenção de Lula.

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