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12 Agosto 2011

No dia 11 de agosto, no Paquistão (mas também na Itália, onde opera uma associação de paquistaneses cristãos muito ativa), celebra-se o Dia Nacional das Minorias. Em uma república islâmica de 180 milhões de habitantes, em que os cristãos representam 2,2% da população (cerca de 4 milhões de pessoas; os hindus, por outro lado, são 5 milhões) e em que a autêntica liberdade religiosa ainda continua sendo uma miragem, essa jornada não é particularmente "sentida".

A reportagem é de Mauro Pianta, publicada no sítio Vatican Insider, 11-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O desejo de celebrá-la era de Shahbaz Bhatti, o ministro católico para as minorias, morto no dia 2 de março passado pelos extremistas islâmicos, precisamente por causa das suas lutas contra as discriminações contra os não muçulmanos. Shahbaz morreu dilacerado sob a descarga das metralhadoras que atingiram o seu corpo por dois longuíssimos minutos. Uma mensagem inconfundível.

Escolhendo a data de 11 de agosto, no entanto, Shahbaz também queria enviar uma mensagem: o dia 11 de agosto de 1947, de fato, foi o dia em que o pai da nação paquistanesa, Muhammad Ali Jinnah, na véspera da separação da Índia, havia feito um célebre discurso, no qual imaginava um país livre, onde todas as religiões eram respeitadas.

Hoje, esse país ainda não existe. Mas existem homens de boa vontade. Como Paul Bhatti (foto), um dos irmãos de Shahbaz. Cirurgião e pediatra, ele viveu na Itália, em Pádua, até março passado, quando se mudou para Islamabad para recolher a pesada herança do irmão. Hoje, ele é presidente da All Pakistan Minorities Alliance (APMA), o partido fundado por Shahbaz, ministro federal e conselheiro especial do primeiro-ministro para os Assuntos das Minorias Religiosas.

Eis a entrevista.

Então, Dr. Bhatti, façamos um primeiro balanço. Valia a pena voltar para o Paquistão?

Sim, e o faria novamente. O trabalho iniciado por Shahbaz não pode ser abandonado. Devemos continuar infundindo coragem às pessoas, como ele fazia. Certamente, eu esperava uma maior atenção por parte da comunidade internacional, mas seguimos em frente mesmo assim. Justamente no dia 11 de agosto, o presidente da república virá inaugurar a fundação que leva o nome do meu irmão e cuja tarefa será a de angariar fundos e apoiar projetos concretos em defesa das minorias.

Sim, a concretude: nos últimos dias, foi anunciado pelo governo mais um renascimento do Ministério para as Minorias confiado ao católico Akram Gill. Ele realmente vai servir ou é só uma operação de fachada?

É um passo importante. Dito isso, é claro que são necessárias muito mais coisas para chegar a mudanças radicais.

Então, o que é preciso?

É preciso uma mudança profunda na mentalidade das pessoas, uma mentalidade presa do ódio fomentado pelo radicalismo de alguns líderes que pensam só no poder. Modos de pensar que só podem ser erradicados por meio de uma educação de todo o povo. Mas há um duplo problema.

Qual?

Muitas vezes, ainda falta uma verdadeira cultura da educação. As pessoas não são ajudadas a compreender o valor agregado da educação de um jovem, a melhor "arma" para o desenvolvimento. Em contraste, em muitos casos, talvez, haja o talento, o desejo de estudar, mas não existem as possibilidades econômicas, porque os impostos são muito altos. Os cristãos, depois, estão entre os mais expostos às discriminações, porque, devido à sua pobreza, não podem ter acesso a uma educação de bom nível. Meu irmão havia obtido um resultado importante: a quota de 5% dos postos de trabalho públicos reservados às minorias. Só que, entre os requisitos exigidos, está justamente um certo nível de instrução, e as minorias raramente são diplomadas. Um círculo vicioso, em suma.

A vida das minorias não é facilitada nem pela existência da lei sobre a blasfêmia, a norma que prevê a pena de morte para quem insultar Maomé ou o Alcorão. Basta uma denúncia, mas na maioria das vezes as acusações de blasfêmia são o pretexto para vinganças pessoais ou para resolver litígios relacionados a propriedades, dinheiro...

Tudo isso é verdade, mas não devemos nos iludir de que, abolindo a lei sobre a blasfêmia, resolveríamos o problema das minorias. A vida das minorias pode mudar se forem removidas as causas da pobreza e melhorando as condições econômicas, atenuando a instabilidade política do país, visando ao diálogo inter-religioso, mas, repito, deve ser mudada uma mentalidade generalizada. E isso só pode ocorrer por meio da educação.

Como nós, ocidentais, podemos lhes ajudar,?

Digamos que as grandes campanhas midiáticas são úteis até certo ponto. Com base na minha experiência, é muito mais útil apoiar de forma contínua as ONGs, as associações, os grupos que têm o conhecimento direto dos problemas e um relacionamento constante com a nossa realidade.

Mas no caso de Asia Bibi, a mulher cristã condenada à morte com base na lei sobre a blasfêmia, mesmo que, na realidade, ela havia brigado com outras mulheres muçulmanas por causa de alguns baldes de água e não da fé, a mobilização da mídia foi fundamental...

Com referência a esse caso, estamos fazendo todo o possível para conseguir a libertação. Mas, agora, o método mais justo a ser adotado para o caso Asia Bibi é o do silêncio...

Há alguma novidade sobre o homicídio do seu irmão?

Shahbaz foi morto pelos integralistas islâmicos. Ainda hoje existem pistas  e notícias falsas, pressões muito fortes sobre os policiais e sobre os juízes que investigam. Eu não tenho provas certas para pronunciar o nome dos culpados. Em certo sentido, não me interessa tanto chegar aos nomes dos executores, mas eu gostaria muito mais de saber qual é a organização que usa as pessoas e a religião para o seu projeto próprio de poder. Não nos esqueçamos de que, nos atentados terroristas, muitas vezes também morrem muçulmanos inocentes...

O que o senhor mais sente falta de Shahbaz?

Não é fácil aceitar uma perda assim. Sinto falta de muitas coisas dele. O seu sorriso, a sua vontade de brincar, o seu profundo conhecimento desta sociedade, a coragem que sabia transmitir aos outros. Eu não tenho a sua experiência, mas não me interessa a atividade política em si mesma. Interessa-me defender os direitos humanos das minorias. De todas as minorias.

Dr. Bhatti, desde que o senhor voltou ao Paquistão, recebeu ameaças?

Não.

Teme pela sua vida?

Tenho medo, é normal. O risco existe. Falo a linguagem do meu irmão, mesmo que não estou exposto como ele. Mas existem os rostos daqueles que viam em Shahbaz um guia. E a vida continua.

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