Campanha da Legalidade - 50 anos. O depoimento de um jornalista. Entrevista especial com Flávio Tavares

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06 Agosto 2011

Uma cobertura engajada, de posição. Assim foi o trabalho realizado pelo jornal Última Hora na Campanha da Legalidade, em agosto de 1961. O depoimento é do jornalista Flávio Tavares, na entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line.

Em seu ponto de vista, os jornais devem de posicionar contra crimes como o golpe de estado, por exemplo. Sobre Brizola, recorda seu interesse no processo jornalístico, de alguém que "tinha a mania de ser jornalista".

Ao comparar o Senado do início da década de 1960 ao de hoje, Tavares constata: "o Senado era muitíssimas vezes superior em termos de compostura, em termos de nível cultural de seus membros, e a câmara dos deputados mais ainda. Essas barganhas vergonhosas que existem hoje não existiam. Se continuasse o parlamentarismo, talvez o parlamento tivesse melhorado bastante, porque o parlamento do Brasil, hoje, é o mais nauseabundo que pode existir na história universal". Fatos como o recente escândalo no Ministério dos Transportes demonstram o quanto a política brasileira virou um "balcão de negócios".

Flávio Tavares é gaúcho de Lajeado. Militante de organizações que lutaram contra a ditadura militar brasileira, foi um dos presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick.

Aos 20 anos, Flávio foi eleito presidente da União Estadual de Estudantes, no Rio Grande do Sul. Militante de esquerda, foi comentarista político do jornal Última Hora.

Com o golpe militar de 1964, foi preso pela primeira vez por suas posições políticas e solto logo depois. Entre 1967 e 1969, foi novamente preso, acusado de participar de uma ação armada para libertar presos políticos na penitenciária Lemos de Brito, no Rio de Janeiro.

Em setembro de 1969, foi enviado para o exílio, no México, no grupo trocado pelo embaixador Elbrick, sequestrado por integrantes de organizações de esquerda que faziam a luta armada no Brasil. Nos anos 1970, durante o exílio, trabalhou no jornal mexicano Excelsior e foi seu correspondente em Buenos Aires a partir de 1974. Vivendo na Argentina, também trabalhou para os jornais Estado de São Paulo e Folha de S.Paulo. Em julho de 1977, Flávio foi sequestrado por militares dos órgãos de repressão do Uruguai, passando 195 dias preso. Libertado depois de uma campanha internacional, foi morar em Lisboa, voltando ao Brasil com a anistia de 1979. Hoje, vive e trabalha em Búzios, no Rio de Janeiro.

Flávio Tavares é autor, entre outros livros, de O dia em que Allende matou Getúlio, Record.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como foi sua participação pessoal na Campanha da Legalidade? O que lembra de mais significativo, que mais lhe impactou como jornalista, gaúcho e brasileiro?

Flávio Tavares – Minha participação pessoal foi no primeiro passo da Campanha da Legalidade, que ainda nem tinha esse nome. Nós, no dia seguinte à renúncia do presidente Jânio Quadros, que foi no dia 25 de agosto de 1961,fizemos uma edição extra do jornal Última Hora, num sábado vespertino. Naquela época, os vespertinos não circulavam aos domingos. A edição foi feita nos porões do Palácio do governo gaúcho e circulou no domingo, dia 27 de agosto de 1961, sob a proteção dos soldados da Brigada Militar.

Pela primeira vez na história universal da imprensa, um jornal saiu na rua protegido pela polícia. Em geral, a polícia sempre confisca e destrói jornais. Nesse caso foi diferente, porque nós tínhamos medo de que o Exército confiscasse os jornais, pois esta instituição estava em pé de guerra com o governador. Fizemos aquela edição no Palácio porque a ideia foi do governador Leonel Brizola. E o único jornal que não era hostil a ele era o Última Hora. A sede do jornal era na rua 7 de Setembro, mais ou menos em frente onde hoje é o Correio do Povo, muito perto dos quartéis do Exército. Isso era um perigo.

Passamos a noite inteira no Palácio. Eu era editor de política do Última Hora e o repórter destacado para o Palácio. Eu cobria todas as atividades do Brizola. Terminamos a edição do jornal por volta de 6 horas da manhã e ele era impresso bem perto do Palácio, na rua Duque de Caxias. Saí de lá para respirar um pouco o ar de fora dos porões e não dormi esse dia e nem os demais durante a Campanha da Legalidade. Com 27 anos a gente aguenta.

IHU On-Line – Como você define a cobertura jornalística da Campanha da Legalidade?

Flávio Tavares – Foi uma cobertura engajada; tomamos posição, porque os jornais têm obrigação de tomar posição contra o crime. E o golpe de estado é um crime.

IHU On-Line – Em que medida Brizola participava do trabalho jornalístico durante o movimento? Por que o senhor afirma que ele era um sujeito que "tinha a mania de ser jornalista"?

Flávio Tavares – Ele tinha mania de ser jornalista porque gostava de ser jornalista. Ele tinha dirigido, em 1955, um jornal vespertino chamado Clarin, que era do Partido Trabalhista. Ele sempre tinha opinião sobre os jornais, até sobre a parte gráfica. Já em 1963, durante o governo de João Goulart, Brizola dirigiu um jornal de circulação semanal, Panfleto, onde ele próprio escrevia o artigo da contracapa.

IHU On-Line – Como você avaliou, na época, o aceite de Jango pelo parlamentarismo? Hoje, 50 anos depois, mantém sua opinião?

Flávio Tavares – Naquela época nós ficamos furiosos com o Jango. A tal ponto que rasgamos, (eu e o secretário de imprensa do Brizola) na frente dos microfones da rádio da legalidade, um manifesto do Jango, que era a aceitação prática do parlamentarismo. Esse manifesto nunca foi divulgado na rede da legalidade. Nossa fúria era em função de que aquela medida era uma amputação dos poderes do Jango e das nossas ideias de reformar o Brasil e o mundo. Nós tínhamos feito um movimento que tinha impedido o golpe de estado e a ditadura no Brasil. Era 1964 que estava sendo antecipado para 1961. A mobilização do povo do Rio Grande do Sul levou o Exército a apoiar o governo. Então, nós não podíamos abrir mão da nossa vitória. Depois, no fundo, em termos de história e considerando os fatos que ocorreram mais tarde, eu passei a entender que Jango tinha razão. Isso porque o país estava dividido, embora o Rio Grande do Sul estivesse unido. Havia muita gente que não queria que Jango assumisse o poder.

Bajulação e safadeza

Quando eu chego a Brasília, em 1962/63, comecei a me interar daquele jogo político, da bajulação e da safadeza na política. E vejo que aqui no Rio Grande éramos puros demais. E que, naquele momento, era preciso ceder. Vendo hoje, o parlamentarismo, naquele momento, foi uma boa solução. Só que era um parlamentarismo capenga, mas até que deu certo. Comparativamente a hoje, o Senado era muitíssimas vezes superior em termos de compostura, em termos de nível cultural de seus membros, e a câmara dos deputados mais ainda. Essas barganhas vergonhosas que existem hoje não existiam. Se continuasse o parlamentarismo, talvez o parlamento tivesse melhorado bastante, porque o parlamento do Brasil, hoje, é o mais nauseabundo que pode existir na história universal. Mas o plebiscito de 1963, que devolveu os poderes a João Goulart, pelo presidencialismo, foi mais do que legítimo. Foi a resposta a 1961. Foi nossa nova vitória.

IHU On-Line – Considerando a trajetória histórica da política brasileira, podemos identificar algum outro movimento parecido com a legalidade em nosso país?

Flávio Tavares – Em termos políticos, não. Porque a política se transformou num balcão de negócios (vide o escândalo recente no Ministério dos Transportes). A estrutura partidária brasileira, hoje, não tem nada a ver com a velha estrutura partidária brasileira que ainda era programática, em que havia ainda esquerda, direita, centro e partidos ligados às reivindicações operárias e camponesas.

IHU On-Line – O Brasil de hoje teria força para uma mobilização popular parecida com a legalidade, usando as redes sociais, por exemplo?

Flávio Tavares – Poder-se-ia tentar com a força das redes e dos movimentos sociais. O que acontece é que as pessoas estão muito amesquinhadas, muito separadas umas das outras por pequenas mesquinharias, em torno do comando e do poder. O que falta é um grande comando com ideias. Isso não existe mais. Ninguém, entre os dirigentes políticos no Brasil hoje, tem ideias. A Dilma é uma pessoa correta. Se ela quisesse e pudesse assumir isso, ela teria condições. Mas está travada pelo modelo de fazer política em busca do poder pessoal. Outro exemplo é o caso de Lula. Há 15 anos era uma pessoa corretíssima, tinha ideias, posições. Mas, já antes de assumir a presidência da República, começa a abandonar tudo, até ser o que é hoje.

IHU On-Line – Essa falta de comando a que se refere na política é uma característica mais brasileira ou é algo global, no sentido da pulverização de esperanças e utopias?

Flávio Tavares – É exatamente a pulverização da utopia, da esperança e da crença de que a sociedade do consumo vai nos levar ao desastre. Falta isto: essa visão de utopia e esperança e de crença em uma sociedade correta, justa, em que as pessoas sejam solidárias, que não sejam levadas pelo consumismo e por essa exacerbação do desperdício e do consumo que está nos levando, em todos os aspectos, ao caos.

IHU On-Line – Como foram seus anos no exílio e que Brasil o senhor encontrou no seu retorno?

Flávio Tavares – O sequestro do embaixador americano me salvou da morte. Eu tinha 30 dias de prisão, estava em condições muito ruins de saúde, pois sofri muita tortura. Cheguei ao México sem conseguir praticamente mexer as mãos. Meus dez anos de exílio foram de um aprendizado muito grande. Dez anos depois, quando volto ao Brasil, encontro o país muito diferente. As pessoas tinham mais bens de consumo, mas já não acreditavam em mais nada, nem na política. Era um país que tinha sido ultrajado pelo golpe militar de 1964. Em 1977, vou para o Uruguai, em uma missão humanitária, quando sou sequestrado pelo Exército uruguaio. Passei 28 dias sequestrado, torturado, algemado e de olhos vendados e mais seis meses preso. Daí houve uma campanha internacional muito grande a meu favor, inclusive o Papa Paulo VI interveio a meu favor. Fui libertado com a condição de não voltar para o Brasil. Fui para Portugal e de lá voltei com anistia política, em 1979.

 

 

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