O Jesus histórico segundo Ratzinger

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12 Março 2011

"A liberdade de cada evangelista para narrar a figura de Jesus é o símbolo da liberdade a qual todo cristão é chamado para viver a sua mensagem."

A análise é do teólogo italiano Vito Mancuso, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 11-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No primeiro livro sobre Jesus publicado em 2007, Bento XVI pedia aos leitores "aquela antecipação de simpatia sem a qual não há nenhuma compreensão". Ele tinha razão, porque é preciso estar bem disposto com relação ao autor de um livro ou de uma música, assim como a toda pessoa que se encontra, para poder compreender adequadamente. É preciso, porém, entender bem o sentido do simpático pedido do pontífice: no âmbito teológico em que ele se coloca, não se trata de um simples sentimento, que, além disso, existe ou não existe porque só nasce espontaneamente.

A simpatia deve ser entendida aqui no sentido originário de "padecer com", cultivando um pathos comum ideal. A pergunta, portanto, é: qual é o pathos que moveu Bento XVI a publicar dois volumes sobre Jesus de mais de 800 páginas no total, dos quais chega hoje às livrarias o segundo, que se refere, diz o subtítulo, ao período da "entrada em Jerusalém até a ressurreição"?

A preocupação do Papa concerne ao problema decisivo do cristianismo contemporâneo, diante do qual os chamados "valores inegociáveis" (escola, vida, família) são água fresca: isto é, o laço entre o Jesus da história real e o Cristo professado pela fé. Sem escolas católicas, o cristianismo segue em frente; sem leis protetoras da família e da bioética, a mesma coisa; ou, melhor, não sabemos se uma dieta com relação a isso não possa até lhe ajudar. Mas sem o laço orgânico entre o fato histórico Jesus (Yeshua) e o que dele a fé confessa (que é o Cristo), tudo desmorona, e só restaria à Basílica de São Pedro transformar-se em um museu.

Na fundamental premissa do primeiro volume, uma espécie de pequeno discurso sobre o método, o Papa se pergunta "que significado pode ter a fé em Jesus, o Cristo (...), se, depois, o homem Jesus era tão diferente de como os evangelistas o apresentam e de como, partindo dos Evangelhos, a Igreja o anuncia", pergunta retórica, cuja resposta é "nenhum significado" e da qual aparece como é decisiva a conexão história-fé.

Estando claro o objetivo, o método também o é: "Confio nos Evangelhos (...), quis fazer a tentativa de apresentar o Jesus dos Evangelhos como o Jesus real, como o Jesus histórico em sentido verdadeiro e próprio". Conceito reforçado na premissa do novo volume, em que o autor escreve que quis "chegar à certeza da figura verdadeiramente histórica de Jesus", a partir de "um olhar sobre o Jesus dos Evangelhos".

O Papa, assim, faz entender que, enquanto a exegese bíblica contemporânea geralmente divide o Jesus histórico real do Cristo dos Evangelhos e da Igreja, ele o identifica mostrando que a construção cristã iniciada pelos evangelistas e continuada pelos concílios é bem sólida, porque se apoia sobre esta equação exata: narração evangélica = história real. Essa é a tentativa programática sobre a qual Bento XVI pede a sua "simpatia".

Porém, é uma pena para ele que, neste novo volume, ele mesmo seja obrigado a transformar o sentido de igual da equação programática no seu contrário: narração evangélica ≠ história real. O ponto é a morte de Jesus, precisamente o papel com relação ao povo judeu, questão que ultrapassa os limites da exegese para chegar ao campo da história com as acusações de "deicídio"e as assustadoras tragédias que daí se seguiram.

Perguntando-se "quem insistiu pela condenação a morte de Jesus", o Papa reconhece que, "nas respostas dos Evangelhos, há diferenças": para João, foi a aristocracia do templo; para Marcos, os defensores de Barrabás; para Mateus, "todo o povo" (sobre Lucas, o Papa não se pronuncia, mas Lucas pode ser comparado a Mateus). E nesse ponto apresenta a surpresa: dizendo "todo o povo", como se lê em 27,25, "Mateus seguramente não manifesta um fato histórico: como todo o povo poderia ter estado presente nesse momento e pedir a morte de Jesus?". São palavras corajosas e que dizem a verdade (para as quais teria sido bonito se o Papa tivesse dado o nome do historiador judeu Jules Isaac e do seu livro fundamental de 1948, Gesù e Israele, infelizmente ignorado), mas que desmentem decisivamente a equação programática que é o principal objetivo de todo o empreendimento papal, isto é, a identidade entre narração evangélica e história real.

Ao lidar com um dos pontos mais delicados da história evangélica, o Papa foi obrigado a reconhecer que os quatro evangelistas têm três teses diferentes e que uma delas "seguramente não manifesta um fato histórico". Se essa incerteza vale para um dos eventos centrais da vida de Jesus, com maior razão para os outros. Deriva disso aquilo que a mais séria exegese bíblica histórico-crítica ensina há séculos, isto é, a diferença entre narração evangélica e história real.

Isso significa, então, que toda a construção cristã desmorona? Certamente não. Significa, ao contrário, que ela é, desde as suas origens, uma obra de liberdade. Não é dada nenhuma verdade objetiva estática que se impõe à mente e que só é preciso reconhecer, não há nenhuma res diante da qual pode-se apresentar só um obediente adaequatio do próprio intelecto, não há nada no mundo dos homens que não requeira o exercício da responsabilidade pessoal criativa, nada que não solicite a liberdade do sujeito.

A liberdade de cada evangelista para narrar a figura de Jesus é o símbolo da liberdade a qual todo cristão é chamado para viver a sua mensagem. Se até diante dos santos Evangelhos a liberdade do sujeito é chamada a intervir, discernindo aquilo que é verdadeiro daquilo que "seguramente não manifesta um fato histórico", segue-se que não existe nenhum âmbito da vida de fé em que a liberdade de consciência não deva ter o primado (incluindo a liberdade de não levar tão a sério a etiqueta "valores inegociáveis", posta pelo Magistério na tríade escola-família-vida).

Abordar seriamente a figura de Jesus, como fez Bento XVI nesse seu segundo livro, significa sermos sempre remetidos à dinâmica comprometedora e responsabilizante da liberdade.

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