Smartphones e mobilidade: o que os celulares nos permitem, hoje? Entrevista especial com Tiago Lopes

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Um gargarejo nos salvará? Enxaguar a boca e o nariz por 30 segundos com produtos de uso comum reduz muito a carga viral

    LER MAIS
  • Nós precisamos repensar radicalmente a forma como vivemos e trabalhamos

    LER MAIS
  • As duas faces perversas da informalidade: sobretrabalho e intermitência

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


29 Julho 2009

Ainda que os celulares não sejam uma tecnologia que possa ser considerada nova, tem se desenvolvido e ampliado suas possibilidades de forma muito veloz. No principio, apenas recebiam e faziam ligações, além de mandar e receber mensagens de texto. Hoje, há os smartphones, celulares com tecnologia avançada que assumem o papel e as funções de computadores portáteis. “No entanto, os smartphones, tal como os conhecemos hoje, logo vão parecer coisa de um passado muito distante. A possibilidade de conectar-se a redes sem fio, a integração de GPS e as inúmeras funcionalidades que estes aparelhos apresentam apontam apenas para o começo da revolução na comunicação que a indústria de desenvolvimento de tecnologia mobile está prometendo”, aponta o professor de comunicação digital, Tiago Lopes. Na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line, Lopes explica como funcionam esses novos celulares, apresentando as novas interfaces, a capacidade de rodar aplicações de terceiros, possibilidade de localização, além de outras facilidades e capacidades desse dispositivo de comunicação.

Na opinião do professor, “outra dimensão inaugurada pelos avanços na tecnologia dos aparelhos celulares é a integração do sistema de localização por GPS (1). Com isso, o uso da tecnologia GPS deixa de ser exclusividade de segmentos específicos da sociedade e passa a se popularizar rapidamente. Na medida em que se pode, por exemplo, atribuir informação geolocalizada aos lugares, a relação das pessoas com o espaço físico das cidades se transforma. Com isso, todos os lugares tornam-se agentes em potencial de difusão de informação, que pode ser recebida por pessoas que estiverem portando smartphones”.

Tiago Ricciardi Correa Lopes é graduado em Publicidade e Propaganda pela Escola Superior de propaganda e Marketing (ESPM) e mestre em comunicação pela Unisinos, onde também realiza o doutorado na mesma área. Atualmente, é professor nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Entretenimento Digital e Comunicação Digital da Unisinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Os smartphones são o que há de mais avançado entre os celulares, hoje?

Tiago Lopes – Os smartphones sinalizam o que há de mais avançado em termos de tecnologia para telefones celulares. São aparelhos que fazem uma espécie de síntese entre a tecnologia dos PDA`s (personal digital assistant) e a dos telefones celulares. Funcionam com sistemas operacionais que oferecem diversas funcionalidades, tais como conectar à internet e sincronizar dados com outros aparelhos, que podem ser ampliadas através da instalação de novos aplicativos. No entanto, os smartphones, tal como os conhecemos hoje, logo vão parecer coisa de um passado muito distante. A possibilidade de conectar-se a redes sem fio, a integração de GPS e as inúmeras funcionalidades que estes aparelhos apresentam, apontam apenas para o começo da revolução na comunicação que a indústria de desenvolvimento de tecnologia mobile está prometendo.

IHU On-Line – Que possibilidades as novas interfaces dos celulares nos permitem?

Tiago Lopes – Sobre este ponto, talvez seja mais interessante tentar observar o que ainda deve ser feito para melhorar a usabilidade de aparelhos celulares. Digo isso porque percebo que não adianta termos interfaces que nos permitem fazer coisas incríveis, se outros segmentos da indústria não acompanharem este movimento de sofisticação crescente da tecnologia celular. Por exemplo, está cada vez mais fácil de acessarmos a web pelo celular, no entanto, se nos perguntarmos em que situação as pessoas fazem isso, veremos que, na maioria das vezes, são em locais como no ônibus, no trem, no shopping, no restaurante, no elevador, no aeroporto etc. São situações de trânsito, em que as pessoas frequentemente estão se deslocando e, por isso, precisam de informações e interfaces com design de uso adequados para atender a esse tipo necessidade, que é diferente de estar no escritório, com um monitor de 15 polegadas na frente, com todo o conteúdo à disposição.

As informações e conteúdos não podem ser simplesmente aproveitados tal como aparecem nos sites para PC, cheias de informação, opções de serviços variadas e, muitas vezes, formulários extensos para serem preenchidos. Devem, portanto ser mais simples, com dimensões e funcionalidades apropriadas à tela pequena. Existe um site, chamado Um mobile site por dia que, como o próprio nome sugere, apresenta e analisa um mobile por dia, permitindo inclusive a avaliação por parte dos usuários através de um gráfico de pontuação.     

IHU On-Line – Do ponto de vista da comunicação, a capacidade de rodar aplicações de terceiros muda que lógicas?

Tiago Lopes – Muda muita coisa. Em virtude de os sistemas operacionais dos smartphones serem abertos, é possível que um número cada vez maior de aplicações seja oferecido por diferentes empresas, evitando que haja monopólio nesse segmento e permitindo que novas possibilidades de uso possam surgir.

IHU On-Line – Como você vê a questão da possibilidade de localização a qualquer instante através dos celulares?

Tiago Lopes – Esta é uma questão que sempre irá atravessar o debate sobre o crescente processo de midiatização das sociedades. A instantaneidade com que as pessoas podem ser encontradas faz parte de um movimento social mais abrangente, que transcende a popularização dos aparelhos celulares. Sobre este assunto, discute-se desde questões relacionadas a como isso afeta a qualidade de vida, promovendo uma espécie de “borramento” entre as fronteiras da vida privada e da vida pública, até a ideia de uma sociedade imersa em dispositivos comunicacionais que promovem uma relação de vigilância e controle sobre os pessoas.

De fato, a aceleração nos processos de comunicação pode ser vista em todas as esferas sociais. Por outro lado, observam-se algumas iniciativas que colocam-se em oposição a este cenário e que atentam para a desaceleração da sociedade como um todo. Em alguns países, como na Itália, grupos ativistas se organizam através do movimento conhecido como Slow Life, que prega, dentre outros pressupostos para uma "vida slow", uma postura que busca se desconectar da dependência tecnológica que muitos de nós (para não dizer a imensa maioria) vive, simbolizada, principalmente, pela incapacidade de deixarmos o telefone celular desligado, por não conseguirmos ficar sem checar a caixa de e-mail, por deixarmos a televisão ligada mesmo quando não estamos assistindo, etc.

IHU On-Line – O celular é uma das mídias mais presente e desejada entre os jovens. Ele também pode ser adaptado para o uso na educação, nas escolas?

Tiago Lopes – O uso de celulares na educação, associado às possibilidades de educação à distância trazidas pela web, sugere um novo modelo pedagógico, mais flexível, mais democrático, com menos encontros presenciais, menos tempo de aulas expositivas e maior incentivo à pesquisa e aos espaços de discussão.

As funções oferecidas pelos smartphones são inúmeras e, portanto, também são inúmeros os usos que deles podemos fazer. Na educação, o uso de celulares é conhecido como mobile learning (educação móvel), ou simplesmente Mlearnign. Os usos mais comuns são a distribuição de arquivos com conteúdos complementares às aulas, como textos, vídeos e podcasts, que podem ser transmitidos via bluetooth ou baixados da web, os fóruns de discussão via SMS e ainda os jogos para celular com conteúdos educativos. Ainda, com um pouco de criatividade, é possível até mesmo realizar provas pelo celular.

E vale lembrar que a popularização dos QR codes [2] e os estudos promissores com Realidade Aumentada Móvel vislumbram novas possibilidades que podem contribuir positivamente para os processos de ensino-aprendizagem. Aqui na Unisinos, um grupo de professores e alunos pesquisadores das áreas de comunicação e informática está testando a possibilidade de uso de Realidade Aumentada Móvel para tornar mais rica a experiência de visitação ao Museu de Geologia do Rio Grande do Sul. Já podemos considerar essa iniciativa como um primeiro passo para trazer esta tecnologia para as salas de aula.

IHU On-Line – O que podemos esperar depois do Iphone?

Tiago Lopes – O Iphone é, de fato, uma obra prima em termos de design e sofisticação tecnológica, ainda Iphoneque não seja o smartphone mais completo disponível hoje no mercado. No entanto, não é necessário ter uma bola de cristal para prever que muita coisa está por vir. Já que começamos falando do Iphone, uma primeira tendência que se populariza com este modelo de celular, e que deve ser adotada para todas as próximas gerações de aparelhos, é a tela sensível ao toque, que dispensa o teclado numérico e permite visualizar os conteúdos em uma superfície maior. Dessa forma, basta um toque para que o celular todo assuma formas ou funcionalidades diferentes, se transformando em álbum fotográfico, em programa para edição de vídeos, em teclado convencional, em menu de acesso rápido com ícones soltos, etc. Uma outra tendência que já é realidade é o movimento de avançarmos cada vez mais na ideia de "computador de bolso", com aparelhos que passam a apresentar processadores e capacidade de memória iguais às dos computadores pessoais e com dimensões cada vez menores. Alguns modelos devem chegar ao tamanho de um cartão de crédito.

Por falar em dimensões, especula-se também sobre o desenvolvimento de aparelhos que sejam Nokia 888construídos com materiais e ligas flexíveis, completamente dobráveis (!). A Nokia tem até um vídeo de demonstração de um protótipo, modelo 888. Outra funcionalidade que já é bastante difundida no Japão e que, espero, chegue logo aqui, é a substituição dos cartões de débito e de crédito pelo aparelho celular, que realiza transações de compra através da função de leitura de código de barras. Não precisa nem de senha, é leitura biométrica mesmo, impossível de falsificar. Chips implantados no corpo, tinta de tatuagem que transforma a pele em display, sistema de transmissão do som a partir das vibrações da própria caixa craniana, que dispensa o uso de microfones, transmissão de eletricidade sem fio, baterias que nunca terminam, tudo isso e muitas outras ideias viáveis até o momento somente nos filmes de ficção científica já estão sendo testadas. Agora é esperar para ver.

IHU On-Line – O que fazem os novos celulares?

Tiago Lopes – Outra dimensão inaugurada pelos avanços na tecnologia dos aparelhos celulares é a integração do sistema de localização por GPS. Com isso, o uso da tecnologia GPS deixa de ser exclusividade de segmentos específicos da sociedade e passa a se popularizar rapidamente. Na medida em que se pode, por exemplo, atribuir informação geolocalizada aos lugares, a relação das pessoas com o espaço físico das cidades se transforma. Com isso, todos os lugares tornam-se agentes em potencial de difusão de informação, que pode ser recebida por pessoas que estiverem portando smartphones. É o que vem sendo chamado de mídias locativas digitais, ou seja, é a informação atribuída a um determinado lugar que pode ser acessada via dispositivos móveis de comunicação e que possuem a característica de serem "inteligentes".

Por exemplo, ao passar em frente a uma loja, pode-se receber informações sobre promoções que estejam ocorrendo no momento, ou ainda, através do cruzamento de dados que deixamos disponíveis através de nossas ações na web (preenchimento de formulários, informações, perfis em redes sociais, etc), podemos receber ofertas direcionadas aos nossos gostos e preferências.

IHU On-Line – O que essas possibilidades significam para nossa sociedade atual?

Tiago Lopes – Significam que teremos uma quantidade maior de possibilidades de comunicação. Estamos presenciando um aumento exponencial nos modos de se produzir e de se consumir informação, nos modos como distribuímos e acessamos conteúdos, nos modos como nos expressamos e como nos comunicamos com as pessoas e com os lugares.

IHU On-Line – A partir do contexto atual, para que servem esses celulares com tantas tecnologias?

Tiago Lopes – Não há como delimitar a utilidade de um aparelho celular em função da sua complexidade tecnológica ou da quantidade de aplicações que ele possui. O que determina, por outro lado, a sua utilidade são os usos que se fazem a partir das necessidades das pessoas. Os smartphones ainda são caros e, por isso, ainda restritos a uma pequena parcela da população com poder aquisitivo para consumir este tipo de produto. No entanto, logo os smartphones serão commodities, assim como os computadores pessoais e os aparelhos celulares de um modo geral, e o que continuará determinando a serventia de aparelhos são os usos individuais a eles demandados. O que me parece interessante é que o cenário aponta para uma possibilidade cada vez maior de customização das funções do aparelho para as necessidades de uso de cada consumidor.

Notas:
[1] O Sistema de Posicionamento Global, popularmente conhecido por GPS, inclui um conjunto de satélites e é um sistema de informação eletrônico que fornece, via rádio, a um aparelho receptor móvel, a posição do mesmo com referência às coordenadas terrestres. Esse sistema que, por vezes, é impropriamente designado de sistema de navegação, não substitui integralmente o sistema de navegação astronômica, mas apenas informa as coordenadas do receptor e não o rumo indispensável à navegação estimada, faltando solicitar o recurso de um simulador integrado ao receptor.

[2] O QR Code é uma matriz ou código de barras bi-dimensional, criado pela empresa Japonesa Denso-Wave, em 1994. O QR vem de Quick Response, pois o código pode ser interpretado rapidamente, mesmo com imagens de baixa resolução, feitas por cameras digitais em formato VGA, como as de celulares. O QR Code é muito usado no Japão.

Para ler mais:

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Smartphones e mobilidade: o que os celulares nos permitem, hoje? Entrevista especial com Tiago Lopes - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV