Entre a ciência e a religião. O debate sobre as células tronco-embrionárias. Entrevista especial com Lygia Pereira

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20 Março 2009

“As religiões devem ser respeitadas, assim como as religiões devem respeitar os governos. A crença de alguns não pode virar lei a ser aplicada por todos”, assegura a professora Lygia Pereira, ao opinar sobre o decreto do presidente dos EUA, Barack Obama. Ele, na semana passada anunciou que seu país irá separar a ciência e a política/religiões nos projetos governamentais estadunidenses ao anunciar o fim das restrições ao uso de dinheiro público na pesquisa com células-tronco embrionárias. Lygia conversou, por telefone, com a IHU On-Line, sobre como estão, atualmente, as pesquisas sobre células-tronco embrionárias no Brasil e expôs sua opinião sobre o uso, o desenvolvimento e as críticas acerca das investigações realizadas no país sobre este tema. “Algumas dessas pesquisas estão mais avançadas do que outras, mas é importante que todos saibam que hoje ainda não existe algum tratamento consolidado com as células-tronco, sejam adultas ou embrionárias, para tratarem essas doenças”, indicou.

Lygia Pereira, física e mestre em Biofísica e doutora em Biomedicina  obteve o título de Livre-Docência em 2004, pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, onde é, atualmente, professora associada. Vem desevolvendo, há três anos, a pesquisa Geração e caracterização de novas linhagens de células-tronco embrionárias humanas. Escreveu Sequenciaram o genoma humano... E agora? (São Paulo: Editora Moderna, 2001), Clonagem, fatos e mitos (São Paulo: Editora Moderna, 2002) e Clonagem – Da ovelha Dolly às células-tronco (São Paulo: Editora Moderna, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Atualmente, pesquisadores destacam a preferência pelas células-tronco embrionárias. No entanto, outros alegam que o procedimento pode se dar através de células adultas. Quais as diferenças entre ambas no que se refere ao uso para criação de células-tronco?

Lygia Pereira – As células-tronco adultas são as que nós conhecemos há mais tempo. Por exemplo, as células da medula óssea que estão no sangue do cordão umbilical e as células-tronco embrionárias são derivadas dos embriões que sobram da fertilização in vitro. Nós temos certeza de que as células-tronco embrionárias conseguem se transformar em qualquer tecido do corpo humano, mas não temos essa mesma certeza quanto às células-tronco. Por outro lado, sabemos que as células-tronco adultas são seguras, enquanto as células embrionárias correm o risco de virar um tumor e não formar um tecido que o paciente precisa. Então, você tem vantagens e desvantagens de cada tipo de células. Não há nenhum consenso hoje de qual célula é melhor do que a outra. Dizem que é preciso investir em todos os tipos de células-tronco para vermos qual será a mais adequada no tratamento de várias doenças.

IHU On-Line – A senhora tem argumentado em outras entrevistas que as células-tronco embrionárias têm um potencial maior. Que dados mostram isso, e por quê?

Lygia Pereira – Em modelos animais, as células-tronco embrionárias têm um efeito terapêutico em doenças como a paralisia por lesão de medula, diabetes, doenças cardíacas, Parkinson. No camundongos, as células-tronco embrionárias, em relação a essas doenças, têm efeitos muito melhores dos que a gente vê usando as células-tronco adultas. Daí é que vem todo o entusiamo com as pesquisas com células-tronco embrionárias. Porém, em seres humanos, ainda não sabemos como as células embrionárias irão se comportar. Nosso entusiasmo é baseado em modelos animais.

IHU On-Line – Quais os principais mitos que devem ser desmistificados sobre células-tronco?

Lygia Pereira – É um mito importante as pessoas acharem que já estamos tratando doenças com células-tronco. Isso ainda não está acontecendo. As células-tronco da medula óssea é o único tratamento que um médico pode receitar para doenças do sangue. Todas as outras aplicações que estão sendo feitas em seres humanos estão sendo realizadas dentro de instituições de pesquisas. Algumas dessas pesquisas estão mais avançadas do que outras, mas é importante que todos saibam que hoje ainda não existe algum tratamento consolidado com as células-tronco, sejam adultas ou embrionárias, para tratarem essas doenças.

IHU On-Line – Qual a principal implicação na realização e no avanço das pesquisas de células-tronco, atualmente, no Brasil?

Lygia Pereira – No Brasil, foi aprovada, em 2005, uma legislação que permite que trabalhemos com as células-tronco embrionárias também. Então, essa é uma área que ainda está num estágio inicial aqui no Brasil e estamos tentando recuperar esse tempo perdido. O meu grupo, na USP, e o grupo do professor Steven Rehen, na UFRJ, estão montando um laboratório que irá oferecer treinamento para outros pesquisadores que queiram trabalhar com essas células. Com as células adultas, nós já temos uma série de estudos clínicos em andamento para várias doenças. Se os resultados, no final, serão suficientes para os médicos poderem usar essas terapias em seus pacientes, ainda precisamos de um pouco de tempo para saber.

IHU On-Line – Há mais de dez anos, a senhora já realiza pesquisas na USP, sobre células-tronco. Os resultados ainda não podem ser aplicados em seres humanos por questões de segurança e pela necessidade de ampliar as pesquisas. Assim, a senhora imagina que os tratamentos a partir de células-tronco poderão ser, de fato, utilizadas em pacientes, produzindo uma revolução na medicina terapêutica?

Lygia Pereira – Nós estamos investindo nessas promessa da medicina regenerativa. É uma promessa que ainda precisa ser cumprida, pois ainda não estamos de fato tratando pessoas com isso. Acredito que devemos investir nessa área, que é muito promissora.

IHU On-Line – Qual sua opinião sobre a forma como Obama liberou as células-tronco, afirmando que as religiões não podem pautar a ciência?

Lygia Pereira – Achei maravilhoso isso. As religiões devem ser respeitadas, assim como as religiões devem respeitar os governos. A crença de alguns não pode virar lei a ser aplicada por todos, então eu acho perfeito que a ciência seja baseada em fatos e não somente em dogmas religiosos.

IHU On-Line – Qual é o maior dilema da senhora ao trabalhar com células-tronco?

Lygia Pereira – Eu não tenho dilemas a partir da forma como as coisas são feitas. A legislação brasileira é muito boa. Não permite que nós criemos embriões, só permite que usemos embriões que sobram quando um casal vai fazer a fertilização in vitro. Eu estou muito satisfeita com o tipo de pesquisa que faço.

IHU On-Line – Mais de dez anos depois, o que significou a Dolly, o primeiro mamífero clonado por transferência nuclear?

Lygia Pereira – A Dolly foi um marco na história da ciência, porque mostrou para nós que uma célula que já decidiu o que ia virar, como, por exemplo, uma célula de pele, tem capacidade de voltar atrás e dar origem a outros tipos de células e tecidos do corpo. Isso abriu, então, uma perspectiva muito boa dentro da medicina regenerativa.

 

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