Sofrimento, resiliência e espiritualidade. Entrevista especial com Susana Rocca

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27 Outubro 2007

"O paradigma da resiliência  propõe uma mudança de ótica, centrando a observação nas capacidades, dos indivíduos e grupos, de resistir e refazer-se após experiências de grandes sofrimentos. Em lugar de focar a observação nas fraquezas, sintomas, doenças, carências, tenta-se descobrir quais são os chamados `fatores de proteção` e os `pilares de resiliência`, isto é, as forças positivas do ambiente circundante e as capacidades pessoais para reagir e superar as adversidades da vida, a fim de fomentá-las e promovê-las", afirma Susana Rocca, em entrevista à IHU On-Line.

Susana María Rocca Larrosa possui graduação em Psicologia, pela Universidad Católica del Uruguay, e Especialização em Aconselhamento e Psicologia Pastoral, pela Escola Superior de Teologia. Cursa Doutorado em Teologia Prática na EST. Dedica-se ao trabalho pastoral há mais de 25 anos no Uruguai, na Argentina e no Brasil. É coordenadora dos Serviços de Atendimento Espiritual presencial e on-line e responsável pelos Encontros de Ética, no Instituto Humanitas Unisinos - IHU. Tendo aprofundado o tema da resiliência, nos últimos anos participa e coordena eventos, assim como também assessora grupos interessados no assunto, em âmbito regional. O tema de estudo e da pesquisa do mestrado é “Espiritualidade e resiliência em juventude: a influência da religiosidade no desenvolvimento da resiliência”. Junto a Lothar Hoch, é organizadora do livro Sofrimento, resiliência e fé: implicações para as relações de cuidado (São Leopoldo: Sinodal, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a principal mudança de paradigma sugerida pela resiliência, do ponto de vista da Psicologia? O que muda em relação ao olhar freudiano da psicanálise?

Susana Rocca - A resiliência, entendida como a capacidade de superar as situações adversas, é um esforço do ser humano de todos os tempos. As contribuições de Freud e a psicanálise, especialmente os estudos do inconsciente e do desenvolvimento psicossexual, ajudaram a pesquisar a vulnerabilidade do ser humano, os efeitos negativos e as repercussões traumáticas após certos fatores adversos ou situações críticas, abrindo espaço a análise das possibilidades ou não terapêuticas. Nas últimas décadas, porém, alguns pesquisadores observaram indivíduos e grupos que, sendo expostos a situações traumáticas, pessoais, familiares e sociais, conseguiam desenvolver-se bem e continuar crescendo, apesar desses acontecimentos adversos. Até observou-se que algumas crianças, adolescentes e adultos, não só são capazes de continuar projetando-se no futuro, mas também de aprender e sair fortalecidos com as adversidades ou situações traumáticas. O paradigma da resiliência, sem desconhecer a relevância dos estudos anteriores, propõe uma mudança de ótica, centrando a observação nas capacidades, dos indivíduos e grupos, de resistir e refazer-se após experiências de grandes sofrimentos. Em lugar de focar a observação nas fraquezas, sintomas, doenças, carências, tenta-se descobrir quais são os chamados “fatores de proteção” e os “pilares de resiliência”, isto é, as forças positivas do ambiente circundante e as capacidades pessoais para reagir e superar as adversidades da vida, a fim de fomentá-las e promovê-las.

IHU On-Line - Qual é o papel da crença num ser superior para a superação de situações difíceis? Em que sentido as religiões e a fé influenciam no processo de resiliência e nessa “quebra” da lógica do trauma?

Susana Rocca - As religiões sempre tentaram dar uma resposta, uma interpretação, e uma ajuda para a transignificação dos limites, um sentido para poder lidar e superar as situações adversas: escassez, catástrofes, carências, as forças ambientais ou as ações violentas, negativas, ou de sofrimento que atingem desde fora, assim como sofrimentos interiores. Respondem a duas perguntas que acompanham o contato com o mal e o sofrimento: o porquê e o para quê. Isto é: o que aconteceu, qual é a origem ou o motivo do mal, assim como a pergunta pelo sentido e por como (re) fazer-se, como (re) construir-se após essa situação adversa e traumática. Diante do sentimento de desvalimento, de desproteção, e de necessidade de ajuda que o ser humano tem diante do sofrimento, a crença num ser superior, ou em vários, constitui uma força de sustento, recuperação e de proteção, atinge a solidão interior de quem padece a dor, motivando um vínculo com um Outro transcendente com quem se pode contar e se sentir seguro; propicia uma compreensão ou interpretação do que está acontecendo, favorecendo a busca de sentido em vistas a superação da situação traumática e do sofrimento. É por isso que tantas vezes até pessoas que não se consideram religiosas, em momentos de crise, doença, ou problemas graves, procuram e encontram, na fé e na religião, consolo, conforto, apoio, e até força e sentido para seguir adiante. Constata-se que, para muitos, a crença num ser superior, o fato de poder contar com sua presença e ajuda, é um pilar fundamental para a superação, especialmente diante das situações difíceis, violência, acidente, luto, ou doença terminal, entre outras.

IHU On-Line - Quais são os principais fatores de proteção e os principais pilares de resiliência do jovem latino-americano?

Susana Rocca - Em primeiro lugar, se destaca o papel de uma ou mais figuras significativas que garantem uma acolhida e aceitação incondicional. Este fator de proteção é válido para toda idade e cultura. Ter pessoas de confiança com quem pode contar, ter um entorno favorável, assim como uma rede de apoio à qual recorrer, são fatores que propiciam proteção (família, instituição educativa, organizações sociais, políticas ou religiosas). Olhando para a América Latina, para promover a resiliência, faltam ainda políticas públicas suficientes que contemplem as necessidades da juventude, começando pelas necessidades físicas básicas. Dentre as aptidões ou qualidades pessoais que podem ser consideradas pilares de resiliência, podemos citar: a necessidade de ter uma boa auto-estima; a capacidade de sociabilidade e estabelecimento de vínculos; assumir responsabilidades suficientemente claras, elevadas e compatíveis com a situação desse ou desses jovens; o protagonismo, a iniciativa e a criatividade para resolver situações adversas; o senso de humor, e a importância fundamental do sentido da vida vinculado à elaboração de um projeto de vida, ou a vida espiritual ou religiosa. Se pensarmos nos pilares de resiliência comunitária ou social, isto é, nas capacidades que uma comunidade, uma cidade ou um povo tem de se recompor após um desastre ou calamidade deveríamos citar a solidariedade comunitária; a honestidade estatal ou administrativa; a identidade cultural; o humor social; e a auto-estima coletiva.

IHU On-Line - A vida em comunidade, no caso de pertencimento religioso, contribui para o processo da resiliência?

Susana Rocca - A fé, vivida como confiança em um Deus presente e força que ajuda a superar o sofrimento, parece ser uma chave no desenvolvimento das capacidades de resiliência. Daí as implicâncias para o contexto religioso, lugar privilegiado para acompanhar esse processo de superação das adversidades, desafiando os estudiosos e a comunidade de fé a redimensionar com esta ótica tantos recursos pessoais e comunitários que podem ser oferecidos por meio das celebrações, dos variados serviços e atividades religiosas. Quanto à vida de grupo, basta ver o apoio que oferecem os grupos de pessoas que se reúnem para elaborar e ajudar-se a superar situações traumáticas semelhantes (fazendas de recuperação, grupos de enlutados, portadores de doenças crônicas específicas etc.). No caso da juventude, a formação de grupos (tribos) constitui uma singular força de apoio que favorece os vínculos, o sentimento de pertença e a busca da identidade. O engajamento com outros para superar adversidades e a união para lutar por causas sociais comuns, sob o enfoque da resiliência, podem ser instrumentos propícios para promover também as capacidades próprias de lidar e superar as situações traumáticas.

IHU On-Line - Qual é a crítica que você faria à questão da resiliência?

Susana Rocca - Há diferentes pontos que poderíamos abordar. Mesmo que no Brasil ainda não aconteça, nos países que trabalham há mais anos o tema existe o risco da banalização do conceito de resiliência, virando, na sociedade de consumo, uma categoria-chavão para a publicidade, para garantir uma maior venda de um produto no mercado. Outro enfoque distorcido seria dividir as pessoas e os povos como resilientes e não resilientes, gerando, assim, uma forma de exclusão. Creio que é importante pensar na resiliência como um enfoque científico e transdisciplinar que visa a contribuir na superação das dificuldades pessoais e coletivas que ferem a vida. Mas a promoção da resiliência não supõe uma visão ingênua ou eufórica que nega as sérias problemáticas que causam as feridas da vida dos seres humanos e do ambiente. Há muitas realidades traumáticas, diante das quais é preciso garantir mudanças pessoais, sociais e estruturais. Não se pretende trabalhar somente para evitar as conseqüências e efeitos negativos. É preciso garantir o trabalho contra as causas que ocasionam esses danos. Penso especialmente nas desigualdades sociais, a injustiça, a corrupção, a miséria, a guerra, as diferentes formas de violência e opressão. Nesse sentido, promover a resiliência é também lutar por políticas públicas que garantam os direitos fundamentais das pessoas: necessidades físicas básicas: segurança, casa, alimentação, saúde, educação, emprego.

IHU On-Line - Considerando o cenário pobre e violento da América Latina, quais são as limitações no plano da ética e da constituição social que envolvem o conceito de resiliência?

Susana Rocca - Pensando no nosso contexto latino-americano, há um desafio que nos preocupa seriamente. Que alternativas têm as crianças e os adolescentes que nascem em contextos mais desprovidos de segurança e sem as necessidades básicas satisfeitas? Como potencializar recursos para favorecer a resiliência diante de tantos e tantos fatores estruturais de miséria, violência e privação? Como favorecer as redes de apoio social? Pois se sabe que a resiliência se potencializa também graças às ajudas de outros e das redes. Tem a ver com os fatores de proteção que se encontram disponíveis no meio social e que ajudam para conseguir para superação. As pessoas não “são” resilientes, já que as capacidades não são ilimitadas nem definitivas. Não existem seres “invulneráveis”, como se chamou no início às crianças que mostravam grande capacidade de superação. A resiliência é um estado que varia conforme a idade do sujeito, conforme o conjunto de fatores de risco padecidos ao longo da sua história. Relaciona-se também às características de personalidade e a também às escolhas livres de cada um. A resiliência se “tece” ao longo da vida e é dinâmica. Por isso, não se “é” resiliente, mas se “está” resiliente. Alguém pode agir com atitudes resilientes diante de graves situações, porém, pelo “efeito gatilho”, pode ter uma queda significativa na capacidade de superação após um acontecimento de outra índole ou, aparentemente, de menor teor traumático para outras pessoas. Pode afirmar-se que a superação de situações traumáticas faz crescer as capacidades de resiliência. Pode constatar-se que, para algumas pessoas, determinadas adversidades chegam a contribuir no amadurecimento como ser humano, na descoberta de um sentido mais profundo dado às coisas e a vida. Porém, é preciso esclarecer que as adversidades isoladamente não são necessariamente capazes de promover a resiliência.  Finalmente, diria que há uma referência clara às questões éticas num sentido duplo, pois, para falar em resiliência, é preciso considerar estratégias de superação que contemplem não só o bem próprio, mas também o bem alheio. Num contexto de pobreza, desemprego, violência, corrupção e pressões, encontram-se jovens que conseguem vencer dificuldades com aparente sucesso. O preço, porém, é compactuar com situações prejudiciais para outros (por exemplo, corrupção, tráfico). Por isso, devem ser pensadas formas de superação que respeitem o próximo e o bem comum.

IHU On-Line - É possível que alguém se torne resiliente sem uma filosofia de vida, sem um sentido maior que norteie sua existência?

Susana Rocca - Na maioria dos estudos e pesquisas sobre o tema, se fala da importância da filosofia de vida, de ter um sentido para viver ou por quem viver. Outros destacam a relevância de ter uma convicção religiosa, um sentido transcendente, uma fé, uma crença espiritual. Mas nem todos os autores abordam e desenvolvem da mesma forma estes aspectos. Alguns, por exemplo, analisam a importância da busca de sentido, contudo não citam ou fazem pouca menção ao tema religioso. Não conheço nenhum autor que tenha minimizado a importância da busca de um sentido de vida e de um sentido para superar a adversidade. Inclusive, já antes de se desenvolver as pesquisas sobre a importância do sentido como pilar de resiliência, o psicólogo vienês, Vicktor E. Frankl criou uma nova abordagem terapêutica através do que denominou a “logoterapia”, isto é, a cura pela busca de sentido.

IHU On-Line - O que a sua experiência no serviço de atendimento espiritual do IHU lhe ensina sobre a construção da resiliência entre jovens universitários?

Susana Rocca - A maior procura do serviço de atendimento acontece diante de relacionamentos que acabam, doença ou morte de pessoas queridas, crise de medo, depressão, problemas econômicos, e inquietações existenciais e espirituais. Tanto nos atendimentos presenciais quanto nas consultas on-line e os pedidos de oração, que nos chegam dos mais variados lugares do país, há algo em comum: uma grande necessidade de acolhida e escuta. Num mundo onde prima a correria, os sentimentos de vulnerabilidade têm pouco espaço para serem partilhados. Diria que também é papel das instituições formativas o cuidado integral dos acadêmicos. Nesse sentido, creio que é importante detectar as necessidades e ver, com criatividade, que iniciativas podemos assumir para contribuir no crescimento e cuidado integral das pessoas, promovendo a resiliência tanto pessoal quanto comunitária. Chama-me bastante atenção a procura e os efeitos dessa nova forma de socialização que são os vínculos on-line, tanto os serviços personalizados quanto as comunidades virtuais. Talvez estejamos frente a novas maneiras de contribuir no “empoderamento” das pessoas e na promoção das suas capacidades resilientes. A experiência e a pesquisa nos irão mostrando até que ponto isso é ou não possível.

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