Os católicos ainda leem? Sinodalidade e a “Igreja que escuta” nesta era digital. Artigo de Massimo Faggioli

Foto: Phil Roussin | Flickr CC

21 Outubro 2021

 

“Nos séculos anteriores, quando a mensagem religiosa chegava aos cristãos por diferentes canais, o analfabetismo não era um obstáculo para o crescimento na fé. Mas hoje a incapacidade de ler criticamente tem consequências mais sérias para a vida da fé. Não se espera que todos os católicos sejam ávidos leitores ou possuam uma biblioteca – literal ou figurativamente. Mas as expectativas devem ser maiores para os líderes ordenados e leigos da Igreja. Ser uma 'Igreja que escuta' não significa apenas ouvir uns aos outros ou ouvir o Espírito Santo. Significa também escutar o que a cultura – religiosa e secular – tem a dizer à Igreja”, escreve o historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, Filadélfia, EUA, em artigo publicado por La Croix International, 20-10-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

A Igreja Católica em todo o mundo oficialmente embarcou no “processo sinodal de 2021-2023”.

O Papa Francisco inaugurou o projeto no Vaticano, no dia 10 de outubro, com uma missa na Basílica de São Pedro e bispos de todo o mundo (embora não todos) inauguraram o processo em nível diocesano no domingo seguinte, com celebrações em suas catedrais.

A Secretaria dos Bispos em Roma colocou ampla ênfase na escuta – a Deus pelo Espírito Santo e a cada participante.

Mas na tradição cristã, o ato de escutar está sempre ligado ao de ler: não apenas a Escritura, mas também o que conduz a escuta à revelação de Deus na história e nossas vidas a fim de discernir as formas que Deus nos fala hoje.

O problema é que há novas formas de analfabetismo e ignorância hoje que afetam a Igreja, e esse é um elemento chave no entendimento do porquê um número amplo de católicos se veem indiferentes ou desinteressados do processo sinodal.

Algumas das reticências estão baseadas na oposição ao Papa Francisco ou ao Concílio Vaticano II. Mas o problema é na verdade muito mais profundo.

 

Da mídia impressa às redes sociais

 

A Reforma e o Concílio de Trento (1545-63) ocorreram no século XVI durante a era da imprensa, e os livros geravam um impacto importante sobre a cultura religiosa e os debates teológicos daquele tempo.

O Concílio Vaticano I (1869-70) ocorreu no século XIX durante a era dos jornais, revistas e a emergência de intelectuais públicos.

Quando o Vaticano II (1962-65) se desenvolve, nós já estávamos na era da televisão e das mídias de massa.

E agora nós temos o processo sinodal 2021-23, a maior consulta ao Povo de Deus na história da Igreja. Está ocorrendo na era do digital e das redes sociais, um fenômeno que tem mostrado a Igreja profundamente dividida em gerações e linhas culturais.

Muitos que pertencem à gerontocracia católica são digitalmente analfabetos, enquanto as pessoas em outra seção da Igreja são analfabetas em um sentido mais tradicional da palavra.

Mesmo em instituições católicas de ensino superior nós temos muitas pessoas que são “graduadas mas não alfabetizadas”.

Aí estão os sinais de distúrbios de um nível cultural despencando entre os católicos de hoje. Na Europa e no mundo ocidental, muitos jornais católicos, revistas e editoras fecharam nos últimos anos.

 

O fim de uma era

 

Depois de um aumento no intelecto dos católicos por gerações, especialmente durante o Vaticano II e as primeiras décadas após o Concílio, agora há menos caminhos para a produção cultural e consumo de livros que possam ajudar os crentes a entender os sinais dos tempos.

Um dos exemplos mais recentes são as notícias chocantes da falência e do fechamento de uma das editoras católicas mais importantes da Itália, a Edizioni Dehoniane.

Com sede em Bolonha, ela produziu muitos volumes essenciais, incluindo a edição italiana da muito aclamada Bíblia de Jerusalém.

O fechamento desta editora marca o fim de uma era para a cultura católica na Itália e levanta sérias preocupações sobre como os crentes continuarão a estar intelectualmente engajados no futuro.

A Cúria Romana, o Vaticano e as universidades e academias pontifícias em Roma já foram centros de produção e consumo cultural, mas hoje não é mais o caso, ou pelo menos não na mesma proporção de antes.

Já perdi a conta de quantas livrarias religiosas da Cidade Eterna fecharam nos últimos anos e me pergunto quantas mais serão fechadas. O problema não é apenas o surgimento do e-commerce, das bibliotecas digitais ou da pandemia.

O que estamos testemunhando é uma mudança substancial na cultura dos católicos em comparação com as expectativas criadas pelas reformas do Vaticano II.

 

O devocionalismo está superando o rigor intelectual

 

A questão é se os católicos ainda leem sobre religião e a Igreja; e, em caso afirmativo, o que estão lendo.

Professores do ensino médio e universitários estão acostumados a lidar com o declínio do nível de alfabetização de seus alunos – a capacidade de ler criticamente, escrever de forma inteligível e se orientar no cânone cultural exigido não apenas de um profissional, mas também de um cidadão.

A teologia não está isenta dessa tendência.

Nos últimos anos, um retorno do devocionalismo (algo diferente das devoções) tomou o lugar do rigor intelectual.

Nos seminários, há uma nova ênfase na formação humana básica e nos exames psicológicos, que se tornaram necessários pelo escândalo de abuso sexual, bem como pelas difíceis origens familiares e pessoais das quais vêm muitos candidatos ao sacerdócio.

Mas, infelizmente, a formação humana – por mais essencial que seja – muitas vezes veio às custas da formação histórica, filosófica e teológica.

Este não é um problema que afeta apenas os seminaristas e os clérigos jovens. É também um problema de ideologia na Igreja Católica em geral.

 

Os livros não são apenas objetos, mas também companheiros

 

O consumo de conteúdo fornecido por blogs e sites religiosos impulsionou ainda mais as correntes pré-existentes de anti-intelectualismo devoto. A chamada “ignorância orgulhosa” não é desconhecida nos círculos católicos militantes, onde a teologia do Vaticano II é esmagada como uma traição ao secularismo.

Se olharmos para os sites católicos militantes preferidos por muitos seminaristas, jovens padres e vários ativistas eclesiais, é fácil entender por que a publicação católica está em crise – especialmente para o tipo de livros e revistas que se poderia chamar vagamente de “Catolicismo Vaticano II” .

No entanto, do lado neotradicionalista e anti-Vaticano II do espectro, parece haver uma energia que os liberais estão ignorando por sua própria conta e risco.

A crise das publicações católicas não é um problema apenas para quem trabalha direta ou mesmo indiretamente nesta indústria.

Os livros não são apenas objetos: são a emanação de uma personalidade e podem ser bons companheiros e amigos que afugentam momentos de solidão e tristeza. Eles fornecem um tipo de companheirismo que pessoas de fé não podem encontrar nas mídias digitais ou sociais.

Existe uma espécie de anti-intelectualismo militante que é verdadeiramente um desastre, e é verdadeiramente anticatólico sem saber disso.

O documento mais importante da Igreja sobre a escuta e a leitura é a Dei Verbum, a Constituição do Vaticano II sobre a Revelação Divina. Ele oferece uma compreensão da fé que não é intelectualista, ao mesmo tempo que rejeita o anti-intelectualismo.

 

Desarmamento intelectual diante de grandes desafios culturais

 

O abandono de si mesmo na fé não é sem direção. Inclui necessariamente o compromisso com a Palavra, que deve ser ouvida e lida.

Ler as Escrituras não é algo apenas protestante. E o cristianismo não é uma “religião do livro”, no sentido de que não está limitado a uma leitura literal das Sagradas Escrituras.

Acreditamos que as Escrituras surgiram sob a influência do Espírito Santo. E lê-los e interpretá-los inclui um processo intelectual, sem o qual não há tradição da Igreja.

Mas parece haver um desarmamento intelectual diante dos enormes desafios culturais que a Igreja enfrenta no mundo global de hoje.

É um desarmamento que afeta os diferentes cantos ideológicos do catolicismo de maneiras diferentes.

Alguns dos “guerreiros culturais” da Igreja compreenderam antes e de uma maneira melhor do que a maioria dos progressistas que este não é o momento de se desfazer da cultura teológica.

A crise da cultura católica impacta o processo sinodal 2021-2023 e o pontificado do Papa Francisco.

 

Uma Igreja que convida as pessoas a ouvir precisa investir em cultura

 

Católicos que tem mantido viva a teologia do Vaticano II nas últimas décadas estão mais preparados para entender o elo entre a sinodalidade do Papa e a tradição da Igreja.

Isso é porque eles são parte de uma geração de ávidos leitores. Infelizmente é uma geração de mais idade, e a maior parte dela já está afastada.

Líderes da Igreja são desejosos de enfatizar que a sinodalidade não é um mecanismo político, mas um processo espiritual. Isso é verdade, mas esse processo espiritual paira sobre habilidades básicas que nós aprendemos das humanidades e artes liberais.

Há uma contradição entre uma Igreja que convida católicos a ouvir e ao mesmo tempo não entende a necessidade de investir em cultura.

 

A necessidade de lidar com a ignorância dos líderes da Igreja

 

Na cultura antiga, durante uma época em que o cânone bíblico foi formado e por muitos séculos depois, o aprendizado acontecia principalmente pela escuta. Na cultura oral, o ato de ler não era essencial.

Então, na Idade Média e no início do período moderno, mudamos para uma cultura visual onde o conteúdo religioso era dominante.

Nesta era de mídia digital e social, somos bombardeados com imagens onipresentes, libertos do monopólio da arte (especialmente da arte religiosa).

Nos séculos anteriores, quando a mensagem religiosa chegava aos cristãos por diferentes canais, o analfabetismo não era um obstáculo para o crescimento na fé.

Mas hoje a incapacidade de ler criticamente tem consequências mais sérias para a vida da fé.

Não se espera que todos os católicos sejam ávidos leitores ou possuam uma biblioteca – literal ou figurativamente. Mas as expectativas devem ser maiores para os líderes ordenados e leigos da Igreja.

Ser uma “Igreja que escuta” não significa apenas ouvir uns aos outros ou ouvir o Espírito Santo. Significa também escutar o que a cultura – religiosa e secular – tem a dizer à Igreja.

O Concílio de Trento abordou o problema da ignorância entre o clero.

Hoje, cerca de 450 anos depois, há indícios de que a Igreja Católica volta a enfrentar o mesmo problema, em um momento em que sua direção está ou não deveria mais ser identificada apenas com o clero.

A suposição de que os líderes da Igreja podem se dar ao luxo de ser ignorantes é apenas outra forma de clericalismo.

 

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