Aqueles mujahideen sanguinários que outrora chamávamos de heróis

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26 Agosto 2021

 

O Talibã domina Cabul há uma semana. No entanto, é como se entre eles e o aeroporto, nas mãos dos ocidentais, um coletor de lentas agonias, mas em plena luz, houvesse um mar intransponível. A cidade, e mais ainda o resto deste imenso país, orgulhoso, queimado, desolado, encantador, parecem ter caído em um mundo mineral, em perpétua escuridão. O grande vale negro das fábulas, o vale da prova. Nenhum socorro ali, nenhum escape aos erros, estão confiados ao arbítrio de um deus muito cruel. Um lugar invadido por um silêncio cheio de mistérios sombrios, tétricos e não resolvidos, que é impossível extrair do insignificante e do impreciso. Os rumores vindos deste espaço ameaçador são apenas ecos captados pelos fugitivos. Repete-se, no fundo, o que aconteceu no território engolido em 2014 por outro estado do islã totalitário, o califado na terra de dois rios. Com a diferença de que desta vez uma parte de nós, do nosso mundo, ficou encalhada naquela terra repentinamente desconhecida, assustadoramente secreta.

O comentário é de Domenico Quirico, jornalista italiano, publicado por La Stampa, 25-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Um funcionário da Cruz Vermelha falou sobre quando os talibãs começaram a patrulhar as ruas da capital, como se tivessem saído do nada: "Os soldados, que eram tão tranquilizadores, simplesmente foram embora, em seu lugar aqueles homens mal vestidos, alguns sem sapatos, armados, enigmáticos. Eles pareciam ter vindo de outro planeta”.

De outro planeta: que definição perfeita e ingênua do nada que sabemos sobre essas pessoas para além das frágeis barreiras do aeroporto. Que cada vez mais se assemelha ao bairro das delegações estrangeiras na Pequim sitiada por outros "demônios", os fanáticos Boxer. E essa estranheza é alimentada e fortalecida por rumores, medos, massacres e intimidações que ninguém pode controlar: revistam casas, matam, procuram viúvas para alimentar os guerreiros, preparam listas de proscrições sangrentas, aliam-se aos terroristas universais. Um mundo de ogros com o qual o simples contato é inerentemente perigoso.

Tento inverter o ponto de vista. Sei, vi, li sobre as angústias dos fugitivos, seu drama e a infusa tenacidade dos salvadores. Mas aqueles guerreiros de turbante que controlam as estradas e patrulham as calçadas do outro lado, pouco mais do que garotos com rostos caravaggianos, o que pensam? O olhar do ogro ... Não procuro justificativas, mas também os inimigos são feitos da matéria que é eterna do homem e, a mim, interessa essa matéria. Já convivi com jihadistas em outro lugar do mundo. E as histórias de ódio se assemelham todas, como as de dor.

O talibã, portanto, senhor de Cabul. A maioria vem das aldeias do Sudeste, a grande terra pashtun. Lugares pobres como o pó, um mundo duro, que não admite dúvidas, nem incertezas, nem fraquezas. Certamente não estudou nas madrassas, não sabe o que são partidos e política. A sua modernidade sempre foi o fuzil: afagado, cuidado, faz parte do seu corpo: se você não cuida dele, se quebra, o limpa todas as noites, aquela arma é a sua vida, perdê-la é morrer, é sua mulher, os seus filhos.

Durante anos ficou escondido nas montanhas, viveu do nada, o frio dos invernos não o matou, seu mundo era o da noite quando descia nos vilarejos para buscar comida, para acertar as contas com os traidores. Ele ainda está vivo, parece-lhe incrível, uma dádiva de Deus: apesar dos drones, dos bombardeiros, dos helicópteros, das minas, dos pentes finos de estadunidenses e afegãos. Antes do ataque, uma breve oração para se recomendar a Deus. Em seguida, passar sob um pano esticado no qual está apoiado um pequeno Alcorão.

Matou, viu muitos companheiros morrer. Deus está em seu mundo. E a morte como amiga íntima. O objeto invisível que apaga tudo. Agora caminha vitorioso pelas ruas de Cabul, a grande cidade do grande mundo, o universo em um grão de areia. Fica suspenso, desnorteado entre prédios, casas, lojas, que eram a vida cotidiana de quem tentava matá-lo, ricos com o dinheiro dos EUA. A história ruge em sua cabeça, tornando-o surdo, feroz, implacável. Para ele são apenas traidores, muçulmanos que se venderam ao estrangeiro e mataram outros afegãos, pessoas que vivem de forma diferente, que tentaram apagar seu mundo antigo, pobre, ordeiro, compreensível, eterno. O que ele poderia querer senão se vingar?

Ainda assim, houve um tempo em que os jihadistas afegãos eram nossos amigos, nós os considerávamos heroicos, pitorescos. Ainda mais explicitamente, eles se autodenominavam "combatentes da fé engajados na guerra santa", mujahideen. Estávamos lutando contra as ambições hegemônicas da União Soviética. Mesmo naquela época, as mulheres eram humilhadas e enterradas na burca, compradas e vendidas, inexistentes. Mas aqueles talibãs, aqueles integralistas não eram fanáticos, loucos de Deus, bárbaros. O conselheiro de segurança do presidente dos Estados Unidos Brzezinski os exortava: “Esta terra é sua, vocês têm que retomar as suas casas e as suas mesquitas. A sua causa é justa: Deus está convosco”.

 

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