Cristianismo, a doença do Eurocentrismo

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10 Agosto 2021

 

"Queiramos ou não, o cristianismo, em todas as suas versões, não só pertence à Europa, mas tem constituído por muito tempo - e de forma matizada inclusive hoje - seu fundamento identitário eurocêntrico", escreve Flavio Lazzarin padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão, e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em artigo publicado por Settimana News, 06-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Gostemos ou não, o Cristianismo tem a ver com a Europa. Vamos pensar, por exemplo, em nosso calendário gregoriano.

Deixemos decidir aos numerosos interlocutores leigos, integristas, fiéis católicos, fiéis muito mais católicos que os outros e a nova direita populista, se trata-se das raízes cristãs da Europa ou da sobreposição cristã às suas raízes politeístas, e, novamente, se assistimos à apropriação indevida e oportunista da tradição cristã, a fundamentalismos ressurgentes ou integrismos jamais esquecidos.

Queiramos ou não, o cristianismo, em todas as suas versões, não só pertence à Europa, mas tem constituído por muito tempo - e de forma matizada inclusive hoje - seu fundamento identitário eurocêntrico.

É a conquista do Novo Mundo que, com indiscutível clareza, nos revela, por meio dos genocídios coloniais católicos e protestantes, o mito inventado pelos europeus de uma universalidade que nasce da Escritura, se alimenta do Ser grego e do direito romano, para confirmar-se com a imposição da racionalidade iluminista.

Encontramos na filosofia alemã os ideólogos de todos os suprematismos: Kant, Hegel e, mais recentemente, Husserl, são os artífices do mito eurocêntrico, que não consegue ocultar seu racismo constitutivo e sua indiscutível superioridade. A Europa julga severamente o passado e o presente dos atrasos e subdesenvolvimentos daquele resto do mundo que ela mesmo criou com a "racionalidade" capitalista: preconceitos que, indiretamente, inspirarão o delírio todo ocidental e eurocêntrico do antissemitismo e antiorientalismo nazista. E que, talvez, ajudem a compreender a dificuldade ocidental nas relações com os muçulmanos.

Em suma, o cristianismo está constitutivamente ligado à história e ao destino da civilização ocidental. Apesar das tensões e das dialéticas que caracterizaram as várias fases desta história, trata-se de uma única história e, hoje, de uma única crise.

Uma das chaves que nos abrem para a compreensão dessa estranha e muitas vezes conflituosa simbiose é a busca da liberdade e de garantias institucionais que enredaram sobretudo - mas não só - a Igreja Católica na lógica dos poderes políticos nacionais, muitas vezes privilegiando sistemas conservadores, como nos recentes casos exemplares de Espanha e Portugal.

Deve-se notar que essa estratégia ainda está presente no nosso tempo: desde anteontem com a Ostpolitik do card. Casaroli e hoje com os questionáveis diálogos ​​entre o Vaticano e o governo chinês.

Mas tem mais. Acredito que exista a hipótese de que, ao revelar uma opção inicial, nos ajude a compreender as diferentes épocas da aliança e da dialética trono-altar: trata-se principalmente da conversão, nos primeiros séculos da era cristã, de um movimento religioso, oriental e semita à filosofia grega e antropologia indo-europeia.

É essa operação sincrética que certamente criou um terreno ideológico comum entre a Igreja e o Ocidente. Assim, encontramos o dualismo metafísico da filosofia grega tanto na teologia cristã e, bem antes dos delírios neo-escolásticos, quanto nos fundamentos da ciência e da tecnologia, ainda guiadas pela analítica aristotélica.

Hoje, o Ocidente eurocêntrico se encontra imerso nos resultados fracassados ​​da civilização que presunçosamente criou. Tudo desmorona, a começar pelo planeta Terra, mortalmente ferido pela “racionalidade” capitalista.

E também as instituições cristãs estão subjugadas por esta crise, um terremoto antropológico, que põe em discussão radicalmente o nascimento, a geração, a morte, a liberdade: em suma, espiritualidade, confissões e religiões; hierarquias e obediências; valores sociais e tradições políticas; a concepção de tempo e o sentido da história.

O que fazer? Eu acredito que ainda é possível se salvar do Ocidente. Retorno à Palavra de Jesus de Nazaré, que continua sendo oriental e semita, mas em oposição radical ao Templo, assim como ao Império: “Então Jesus, chamando-os para junto de si, disse: Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados, e que os grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal; E, qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo; Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mt 20, 25-28).

“Parece mesmo que a revolução seja impossível - diria Pierre Clastres -, mas vivo cada dia para a tornar possível”. É o sonho subversivo da primeira Igreja, aquela dos mártires. E é o sonho subversivo da segunda Igreja rebelde contra o status quo: aquela dos abás e das amás do deserto.

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

 

De 04 de junho a 10 de dezembro de 2021, o IHU realiza o XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição, que tem como objetivo debater transdisciplinarmente desafios e possibilidades para o cristianismo em meio às grandes transformações que caracterizam a sociedade e a cultura atual, no contexto da confluência de diversas crises de um mundo em transição.

 

XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição

 

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