Uma breve leitura filosófica sobre essa outra alteridade: as plantas

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01 Julho 2021

 

“Mergulhar na vida das plantas permitir-nos-á dar os passos para nos descentrarmos do antropocentrismo vicioso. Sair de lá é um imperativo do nosso tempo, mas para isso é preciso redescobrir essa estranha proximidade e essa distância infinita com a alteridade do mundo vegetal. Sair do estatuto da classificação para respirar o ar que vem delas e retorna a elas. Restabelecer e reinventar a relação”, escreve Pedro Pablo Achondo Moya, teólogo e poeta, professor da Universidad Federico Santa María (Valparaíso, Chile), em artigo publicado por Endémico, 24-06-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

O que somos diante de uma planta? O que é uma planta diante do humano e o que é capaz de transmiti-lo, ensiná-lo, comunicá-lo? As plantas estiveram ali desde muitíssimo antes de nós, mas parecia que apenas há algumas décadas e em poucos casos, séculos; o pensamento filosófico, a reflexão antropológica e a ecologia em relação ao humano, começaram a levá-las a sério. Hoje falamos de redes e vínculos, de entrelaçamentos e emaranhados. O não-humano e a alteridade das plantas cada vez mais vai tomando protagonismo no momento de compreender o mundo e de interpretar as relações que se estabelecem com tudo o que nos rodeia. Afinal de contas: não deveríamos começar a dialogar com elas e estabelecer novas alianças e vínculos?

Nesta breve reflexão queríamos compartilhar como esse outro – essa alteridade não-humana – pode ser hoje uma das engrenagens para repensar a vida na sua totalidade e redes diversas. Vale a pena voltar isso e dar o espalho necessário nestes tempos de crise multidimensional, onde como povo pensamos em um processo constituinte. Farei aludindo a alguns autores que se posicionam desde este lugar, o das plantas e da alteridade.

As plantas, segundo o filósofo canadense Michael Marder, que recentemente foi entrevistado em Endémico, têm sido estranhamente marginalizadas no pensamento. Tanto a filosofia como outras vertentes do pensamento ocidental, sobretudo as que mantiveram em uma margem conceitual a diferença dos animais e outros coabitantes do território. As plantas apenas foram consideradas na hora de interpretar o mundo ou, ao menos, conhecê-lo melhor. No entanto, isso foi mudando profundamente nas últimas décadas. No início de sua obra “Tu e Eu”, o filósofo judeu Martin Buber, considerado um dos precursores da filosofia da alteridade – que posteriormente conhecerá um dos seus pontos mais altos com Emmanuel Levinas – diz-nos: “contemplo uma árvore. Posso registrá-la como imagem [...] Posso percebê-la como movimento [...] posso classificá-la em uma espécie e observá-la...” e continua demonstrando que, em qualquer destes casos e outros, a árvore permanece como um objeto, seu objeto: de análise, de contemplação, de classificação. Porém, (e aqui começa a virada própria da filosofia da alteridade) é possível “que eu, ao contemplar a árvore, por graça própria e vontade, veja-me levado a entrar em relação com ele, e então, a árvore não será mais um isso” (2013, p. 14).

É o ato fundacional da relação. A árvore, a planta, o arbusto; esse outro começa recém a aparecer. Deixa de ser um objeto humanizado, um isso domesticado pelo olhar humano, o pensar humano, o dizer humano. Isso não é coisa banal, nem simples. Pois nossas próprias categorias de pensamento foram domesticadas por crenças, linguagens, ideias e conceitos. Fomos formados desde certas ontologias. Elas nos habitam e desde elas conhecemos e compreendemos o mundo. Não é aventurado dizer, que um dos fatores do colapso climático, as aberrações em matéria de justiça eco-social e a imobilidade estrutural para mudar política e eticamente, tem a ver com isto. Vemos como nos ensinaram a ver e nos parece impossível seguir aprendendo a olhar de outras maneiras e a partir dos outros e do outro.

E continua Buber “a árvore não é uma impressão, nem um jogo de minha imaginação, nem um valor que depende do estado de ânimo, mas sim que existe ante a mim e tem a ver comigo, como eu com ele, só que de outra forma” (2013, p. 15). Esta reflexão quase intuitiva é de uma força extraordinária. Esse outro avanço de mim me vê como outro. É inevitável pensar nas propostas do Perspectivismo Ameríndio do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Nem tudo olha como os humanos olham.

A alteridade, pensar na alteridade e a partir da alteridade, nos coloca no lugar da estranheza e da familiaridade. Tem algo que nos une, que nos liga àquele outro, àquela planta, àquela floresta. Mas ao mesmo tempo há uma estranheza, uma distância infinita – diria Levinas – uma diferença absoluta. Foi Stefano Mancuso, um renomado neurobiólogo vegetal, que se surpreendeu com o fato de as ficções humanas sobre possíveis seres extraterrestres serem mais ou menos humanoides: com braços, alguns órgãos para olhar, uma espécie de boca ou pelo menos algo parecido com uma cabeça. Seu espanto consistia naquela projeção “humana” para esses seres de outros mundos, quando, se de fato existe “algo” totalmente “extraterrestre”, são as plantas. Uma alteridade na forma, aparência, funcionamento, ciclos, processos, adaptabilidade, longevidade, genética. Elas são os alienígenas que nos cercam e nos encantam. Lá estão elas em sua variedade e diversidade, em seu mistério e silêncio. Lá estão elas com sua outra inteligência, sua comunicação vegetal, sua extraordinária metamorfose – como Goethe percebeu em suas observações das plantas: “para frente ou para trás, a planta é sempre uma folha” (2015, p.117) – e seus enganos e seduções para conquistar e sobreviver.

Em “A Vida das Plantas”, o filósofo italiano Emanuele Coccia mergulha de forma notável na vida dessa alteridade vegetal. Para ele, questionar as plantas é conhecer o mundo, porque elas são as construtoras dele. Elas geram seu próprio mundo, “tudo que tocam, transformam em vida; da matéria, do ar, da luz do sol, fazem o que para os demais seres vivos seja um espaço a habitar, um mundo” (2017, p. 22). Tanto é que chega a dizer que “de um certo ponto de vista, as plantas nunca saíram do mar: trouxeram-no para onde não existia. Elas transformaram o universo em um imenso mar atmosférico e transmitiram seus hábitos marinhos a todos os seres. A fotossíntese nada mais é do que o processo cósmico de fluidificação do universo” (2017, p. 46).

Mergulhar na vida das plantas permitir-nos-á dar os passos para nos descentrarmos do antropocentrismo vicioso. Sair de lá é um imperativo do nosso tempo, mas para isso é preciso redescobrir essa estranha proximidade e essa distância infinita com a alteridade do mundo vegetal. Sair do estatuto da classificação para respirar o ar que vem delas e retorna a elas. Restabelecer e reinventar a relação. Compreender, com o auxílio da ciência, mas também de outros conhecimentos e abordagens, o que Marder denomina processos sub-orgânicos e agenciamentos supra-orgânicos (2016, p. 65), ou seja, seres que vivem embaixo da terra falando e se comunicando; enquanto balançam de seus inúmeros vidros e infinidade de folhas gerando um superorganismo vegetal. Aí, o próprio Marder sugere uma interpretação: nós também habitamos o micro e o macro, também geramos e somos gerados em sub e supra inter-relações. Somos individualidades, unicidades e, ao mesmo tempo, coletivos, enxames, massas, povos e tribos. Somos e nos configuramos nessas nossas redes, onde o não-humano (plantas, neste caso) é parte fundamental. Nunca mais deveríamos esquecer disto.

Reconhecer-nos nesta rede de alteridades permitirá uma melhor polinização humano-planta, uma fluidez na corresponsabilidade e na fecundação mútua. Se for verdade “que me realizo no tu; virando-me a ti, digo tu”, afirma Buber (2013, p.17); então também posso me voltar para o tu da árvore. A planta e sua alteridade me fazem quem eu sou, ao entrar em relação com ela e permitir que apareça, realmente, em seu ser vegetal, eu a deixo ser quem ela é. E aí, a planta se revela para nós.

Melhor citar o poeta Rilke: “Se quiseres conquistar a existência de uma árvore / Reveste-a de espaço interno, esse espaço / Que tem em seu ser em ti. Cerca-a de coações / Ela não tem limite, e só se torna realmente uma árvore / Quando se ordena no seio da tua renúncia”. Na renúncia do eu que projeta, do eu que domestica, do eu que transgride; essa alteridade simplesmente aparece: é uma árvore. Comentando este texto, Gastón Bachelard torna mais complexa a nossa reflexão ao dizer que: “a árvore precisa de ti para dar-lhe as tuas imagens superabundantes, alimentadas pelo teu espaço íntimo, por 'esse espaço que tem o seu ser em ti'. Então a árvore e seu sonhador, juntos, são ordenados, eles crescem. No mundo dos sonhos, a árvore nunca é considerada acabada” (2000, p.176). Mais do que complicar, na realidade, ele explica a relação que se estabelece, desse jogo de idas e vindas entre o eu humano e o tu da árvore, entre o eu vegetal e o tu humano. Entre isso e tu. Um no outro, tentando “terminar”, completo, compreender aquela alteridade intransponível que nos escapa. Alteridade que de alguma forma nos habita. Esse tu da planta nunca é totalmente desconhecido. Pois ela tem parte do seu ser em mim. Pois bem, não será que ela, ao mesmo tempo, possui em seu ser uma parte do humano? Dessa maneira a relação se torna possível.

Mudar o rumo do antropocentrismo e da ruptura ou negação da relação é um dever para, como povo de povos, como nação humano-vegetal ou, melhor ainda, como território em co-construção e disputa; chegar a algo como uma Constituição Ecossocial, que depois permita e abra processos de geração de novas alianças e propostas territoriais. A Constituição Ecológica que esperamos – e o interessante trabalho da Convenção em diálogo cidadão – tem a dupla tarefa: mudar a linguagem antropocêntrica e suscitar que a alteridade das plantas (e de tudo o outro-que-humano) seja reconhecida, reformulada e manifestada como uma potência transformadora e uma matriz de conhecimento, como semente que vai se abrindo.

 

Referências

 

Bacherald, Gastón. (2000). La poética del espacio. Buenos Aires: FCE.

Buber, Martin. (2013). Yo y Tú. Y otros ensayos. Buenos Aires: Prometeo Libros.

Coccia, Emanuel. (2017). La vida de las plantas. Una metafísica de la mixtura. Buenos Aires: Miño y Dávila Editorial.

Goethe, J.W. von. (2015). La metamorfosis de las plantas. Barcelona: Editorial Pau de Damasc.

Mancuso, Stefano. (2017). El futuro es vegetal. Barcelona: Galaxia Gutenberg.

Marder, Michael. (2016). Grafts. Writings on plants. Minneapolis: Univocal.

 

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