“Estão enganando nosso povo”, diz a liderança Maria Leusa Munduruku

Maria Leusa (ao centro) durante a Caravana da Águas no Tapajós | Foto: Ana Mendes/Amazônia Real/2016

17 Junho 2021

 

Refugiada em local não revelado por motivo de segurança, a liderança indígena Maria Leusa Munduruku fala pela primeira vez sobre o atentado que sofreu no último dia 26 de maio. Presidente da Associação de Mulheres Indígenas Munduruku (Wakoborũn), ela teve a casa incendiada e precisou fugir às pressas da aldeia Fazenda Tapajós, no município de Jacareacanga, no Pará, acompanhada da mãe e da filha.

 

A reportagem é de Cicero Pedrosa Neto, publicada por Amazônia Real, 08-06-2021.

 

Em vídeo divulgado na segunda-feira (7), Maria Leusa descreveu os momentos de apreensão durante a invasão e os ataques à sua casa. “Eles chegaram com combustível naquelas [garrafas] de dois litros de refrigerante, armados, atirando, no meio de criança… eles atiravam para o chão. Sabemos que foram os pariwats que deram esse combustível para tocar [fogo] nas nossas casas”, relatou.

A líder Munduruku relembrou as cenas de horror. Naquele dia, ela conseguiu gravar algumas mensagens pedindo socorro e denunciando, em tempo real, o incêndio que tomava conta de sua casa. A Amazônia Real recebeu os áudios de socorro.

 

Mulheres Munduruku ameaçadas falam pela primeira vez após atentados ocorridos no fim de maio. Na foto acima, Maria Leusa, que teve sua casa incendiada por invasores, em registro na Caravana das Águas em 2016 (Foto: Ana Mendes/Amazônia Real)

 

Segundo Maria Leusa, o grupo de criminosos formado por não indígenas e indígenas favoráveis ao garimpo ilegal de ouro na TI Mundurku chegou à aldeia Fazenda Tapajós em embarcações, portando armas e inflamáveis financiados pelos garimpeiros. O efetivo policial que se encontrava na cidade de Jacareacanga, composto de cerca de 134 homens, segundo a Polícia Federal, não foi suficiente para impedir o ataque. Na verdade, as próprias forças policiais sofriam ataques na sede do município.

“Eles acham que têm o direito de explorar os indígenas; eles estão nos explorando, enganando o nosso povo, enganando algumas minorias […] que se chamam de liderança, mas na verdade não é […] são lideranças aqueles que defendem o seu povo, aqueles que defendem o seu território, o bem viver do seu povo, e que não dependem de pariwat” (não indígena), denuncia Maria Leusa no vídeo que é o primeiro comunicado da Aliança de Organizações do Movimento Munduruku Ipereg Ayu.

 

 

No dia em que sua casa foi incendiada, Maria Leusa e sua mãe, a cacica Isaura Muo Munduruku, presenciaram a destruição de boa parte da aldeia Fazenda Tapajós, onde elas vivem. A aldeia fica a apenas meia hora da sede de Jacareacanga. Ela e a família se encontram em local protegido, porém longe de sua terra.

Naquele 26 de maio, garimpeiros em protesto, com apoio de políticos, expulsaram as forças federais que cumpriam com uma operação de combate ao garimpo no município da Operação Mundurukania. No dia seguinte, as forças federais se retiraram, surpreendendo os Munduruku.

A liderança Alessandra Korap Munduruku, no mesmo vídeo, afirmou que a operação falhou ao não garantir a segurança dos Munduruku que defendem o território da invasão garimpeira. Além de Maria Leusa e Alessandra, pelo menos outras três lideranças são visadas pelos garimpeiros e recebem ameaças de morte: Ademir Kaba Munduruku, Isaías Krixi Munduruku e Ana Poxo.

“A gente achava que a própria Polícia Federal ia ficar em Jacareacanga. A Polícia Federal saiu, só ficou dois dias […] daí não apareceu mais, infelizmente, deixando uma cidade sem leis”, desabafou Alessandra.

Segundo Alessandra, os caciques Munduruku aguardam o retorno urgente da operação. “Esperamos que a PF, a operação, volte; mas que volte com segurança, não do jeito que eles vão, chegam lá, negociam, e aí saem, deixando tudo aberto… as lideranças preocupadas […] porque os garimpeiros têm armas, têm toda a estrutura […] para amedrontar”, explicou Alessandra.

“Lá não é lugar de pariwat, pariwat tem que ficar nas suas casas […] ninguém aceita invasão dentro da sua casa, nem eu e nem eles. Então tem que ficar nas suas [casas] e não na Mundurukânia e nem na Sai Cinza”, completou Maria Leusa, lembrando da luta de seus antepassados pela demarcação das TI Munduruku e Sai Cinza, território sagrado para o povo Munduruku.

 

Decisão judicial

 

Casa incendiada de Maria Leusa Kaba Munduruku, coordenadora da Associação das Mulheres Munduruku Wakoborũn e de sua mãe na aldeia Fazenda Tapajós, próximo do município de Jacareacanga (PA). (Foto: Reprodução | Redes Sociais)

No último dia 29, o juiz federal Ilan Presser determinou que as forças federais retornassem à Jacareacanga, mantendo efetivo de segurança pública na área, atendendo a pedido do Ministério Público Federal (MPF) do Pará.

“Já há provas de que duas casas foram incendiadas. E disparos foram feitos em direção à comunidade. Ainda, houve bloqueio de estradas e tentativa de invasão da base da operação policial. Chama inclusive a atenção do juízo a reação – rápida e organizada – logo após a deflagração da operação pela Polícia Federal e Ibama”, afirmou trecho da decisão judicial. “Nesse contexto, o Estado brasileiro precisa se fazer presente imediatamente, seja para minorar os danos já perpetrados, seja para garantir a integridade da terra indígena (cuja atribuição pertence à União).” Segundo o MPF, a decisão ainda não foi cumprida.

 

Casa incendiada de Maria Leusa Kaba Munduruku, coordenadora da Associação das Mulheres Munduruku Wakoborũn e de sua mãe na aldeia Fazenda Tapajós, próximo do município de Jacareacanga (PA). (Foto: Reprodução | Redes Sociais)

 

No dia 1º de junho o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, determinou que a PF adotasse medidas imediatas para garantir a proteção dos Munduruku em Jacareacanga, e que prestasse informações, em 48 horas, sobre a quantidade de policiais que haviam permanecido no município após o encerramento da operação. Nenhum desses prazos foram cumpridos pelo governo federal.

“Dado que se desconhece a situação real na TI Munduruku e que se alega risco à vida e à integridade física dos envolvidos e perigo na demora quanto à providência, determino, ainda, à Polícia Federal, ad cautelam, que adote, de imediato, todas as medidas necessárias a assegurar a vida e a segurança dos que se encontram na TI Munduruku e imediações, deslocando efetivos para a região ou majorando-os se necessário”, completou o ministro no despacho.

 

Ameaças às forças federais

 

Em um vídeo gravado na tarde do dia 26 de maio, o prefeito da cidade de Jacareacanga, Valmir do Posto (PSDB), afirmava aos manifestantes que já havia “negociado” o término da operação com as forças federais e orientava a dispersão dos garimpeiros.

Na manhã do mesmo dia, os manifestantes atacaram os helicópteros da Polícia Rodoviária Federal, do Ibama, da Fundação Nacional do Índio (Funai) e da Força Nacional de Segurança, que também integravam a operação ordenada pelo STF. Segundo a PF, 16 máquinas e cerca de 10 acampamentos foram destruídos pela operação.

Segundo Alessandra Korap Munduruku, os garimpeiros pretendiam queimar os helicópteros e as caminhonetes dos agentes federais, além da ponte que dá acesso a cidade, para que eles ficassem isolados.

Na gravação feita nesta segunda-feira, Maria Leusa também fez referência à participação de indígenas no ataque que ocorreu à sua aldeia. Isso porque há um grupo de indígenas que, após anos de aliciamento e de grandes promessas de enriquecimento, que envolvem até a compra de aeronaves, defendem a exploração de ouro no território. Essa divisão acentua conflitos internos, provocando ameaças e ataques, como o ocorrido no dia 25 de março na sede da Associação Wakoborũn.

“Minha aldeia foi atacada por um deles, que é indígena [e] que defende a mineração dentro do nosso território. A gente fica muito triste com os nossos parentes por eles defenderem que os pariwat fiquem dentro do território. Falamos não, a gente não vai aceitar porque somos maioria”, contou Leusa, referindo-se a Adonias Kabá Munduruku.

A PF e o MPF investigam a participação de Adonias no atentado que ocorreu na fazenda Aldeia Tapajós. Ele aparece em um vídeo, gravado durante o atentado, armado e com um galão de combustível. Em agosto do ano passado, Adonias fez parte da comitiva de indígenas Munduruku favoráveis ao garimpo que viajou em avião da FAB (Força Aérea Brasileira) até Brasília, onde se reuniu com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

Em nota enviada à Amazônia Real, o MPF do Pará afirmou reconhecer risco real à vida de famílias inteiras do povo Munduruku, e que seguirá cobrando os órgãos de fiscalização e de segurança para que “façam prevalecer a lei e a ordem em Jacareacanga, e que os indígenas tenham sua vida e seus direitos garantidos pelo Estado”.

Até o fechamento desta reportagem, a PF não informou se havia acatado as ordens do Juiz Federal Ilan Presser e do ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso.

O monitoramento do Imazon também mostra que a região onde está localizada a TI Munduruku também é pressionado por desmatamento, como é o caso da Flona do Jamanxim. Ano passado, em sobrevoo realizado pela Amazônia Real, a devastação nos territórios Munduruku causado pelo garimpo já era notório e preocupante. 

 

Garimpo ilegal na Terra Indígena Munduruku, município de Jacareacanga. (Foto: Marizilda Cruppe/Amazônia Real/Amazon Watch/17/09/2020)

 

 

  

 

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