EUA: quem são os bispos que querem negar a Comunhão a políticos pró-escolha?

Revista ihu on-line

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Clarice Lispector. Uma literatura encravada na mística

Edição: 547

Leia mais

Mais Lidos

  • “Vexame mundial” – Frases do dia

    LER MAIS
  • “A liberdade nos assusta”. Íntegra da conversa do Papa Francisco com os jesuítas eslovacos

    LER MAIS
  • No pós-Bolsonaro, enfrentar o neoliberalismo. Entrevista com Marilena Chaui

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


11 Junho 2021

 

Os principais prelados que apoiam tais esforços têm uma história de oposição à abordagem do Papa Francisco à vida pastoral.

A reportagem é de Christopher White, publicada por National Catholic Reporter, 10-06-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quando o arcebispo Carlo Maria Viganò, o infeliz ex-núncio papal nos Estados Unidos, divulgou uma carta sem precedentes e logo desacreditada em 2018, alegando a cumplicidade do Papa Francisco no encobrimento da história dos abusos do ex-cardeal Theodore McCarrick, o arcebispo de San Francisco, Salvatore Cordileone saiu em defesa de Viganò.

Apesar do chocante apelo de Viganò à renúncia do Papa Francisco, Cordileone foi seguido por vários bispos dos EUA que reforçaram o testemunho do ex-núncio. Entre eles, o arcebispo de Denver, Samuel Aquila; o arcebispo Joseph Naumann, de Kansas City; o bispo de Phoenix, Thomas Olmsted; e o bispo Thomas Paprocki, de Springfield, Illinois, todos os quais emitiram declarações pessoais ou deram entrevistas repercutindo os elogios de Cordileone a Viganò como um homem de fé e integridade.

Hoje, esses mesmos bispos também estão impulsionando os esforços polêmicos que visam a pressionar a Conferência dos Bispos dos EUA a redigir um documento que terá efeitos abrangentes para negar a Comunhão a políticos católicos que apoiam a legislação pro-choice.

Quando os bispos dos EUA se reunirem na modalidade online de 16 a 18 de junho, eles votarão se darão continuidade à redação de um documento sobre o “significado da Eucaristia na vida da Igreja”, uma proposta defendida por meio de uma série de cartas pastorais, aparições midiáticas, artigos pessoais e campanhas nas redes sociais digitais dos bispos supracitados.

No entanto, a maneira pela qual o debate entre os prelados dos EUA se desenrolou – e o meio no qual o órgão dos bispos realizará esse debate – foi examinada minuciosamente nas últimas semanas, inclusive por ex-autoridades de longa data da Conferência dos Bispos dos EUA e por autoridades do alto escalão do Vaticano, que veem o debate apressado como um desvio radical do apelo do Papa Francisco ao diálogo.

Em maio, o cardeal Luis Ladaria, chefe do escritório doutrinal do Vaticano, enviou uma carta ao arcebispo José Gomez, de Los Angeles, presidente da Conferência dos Bispos dos EUA, pedindo cautela e delineando o processo necessário para fazer avançar tal documento, o que incluía uma maior discussão entre os bispos, os políticos católicos e outras Conferências Episcopais.

Em resposta, 67 bispos enviaram uma carta privada a Gomez, que mais tarde vazou o texto, solicitando que a votação sobre tal documento fosse adiada até que os bispos pudessem se reunir pessoalmente para discutir a proposta. Gomez informou ao órgão dos bispos que a votação prosseguirá sem demora.

John Carr, que por um quarto de século trabalhou como principal conselheiro político dos bispos dos EUA, descreveu a exibição aberta das divisões, tanto entre eles quanto com Roma, como “sem precedentes”.

“A ideia de que advertências e orientações muito diretas do Vaticano sejam vistas simplesmente como uma opinião consultiva não fazia parte da minha experiência”, disse Carr ao NCR. “A campanha implacável por essa proposta, a rejeição de outras prioridades, o vazamento de correspondências, o questionamento dos motivos de outros também não têm precedentes na minha experiência.”

Carr disse que o Papa Francisco se tornou “apenas uma voz entre muitas”, e agora “a questão não é se eu concordo com o papa, mas se o papa concorda comigo”.

“A polarização na vida política abriu caminho na vida eclesial, de forma, que, para muitos de nós, a política molda a nossa fé, ao invés da nossa fé moldar a nossa política”, acrescentou Carr. “O mais triste é que a Eucaristia se tornou um campo de batalha em vez de uma fonte de unidade.”

 

Bispos guerreiros culturais versus Papa Francisco

 

Muitos dos bispos que agora lideram o movimento para negar a Comunhão a políticos católicos pro-choice foram interconectados por meio de uma rede de organizações católicas conservadoras resistentes ao Papa Francisco e favoráveis ao ex-presidente Donald Trump e ao Partido Republicano.

Uma das principais organizações por trás do esforço de resistência é o Instituto Napa, que regularmente realiza congressos de alto nível que fornecem uma plataforma para alguns dos críticos mais notórios do papa. Os participantes pagam 2.600 dólares [mais de 13 mil reais] em taxas de inscrição (mais os custos dos resorts e as despesas de viagem) para participar de palestras com bispos e padres conservadores do alto escalão, junto com políticos como os senadores Lindsey Graham e Rick Santorum, enquanto participam de recepções com vinhos e charutos no Napa Valley.

Uma das inspirações para o Instituto Napa foi o agora aposentado arcebispo da Filadélfia, Charles Chaput, que atuou como seu conselheiro eclesiástico inaugural e está entre os prelados mais notórios contra o presidente Joe Biden.

Fazem parte do atual conselho consultivo eclesiástico do Instituto Napa os bispos Aquila, Cordileone, Gomez e Paprocki. Naumann está entre os escalados para participar do congresso dos próximos meses, junto com o bispo Joseph Strickland, de Tyler, Texas, que repetidamente tem desafiado o Papa Francisco e o Vaticano sobre a eficácia moral das vacinas contra a Covid-19, que endossou um vídeo alegando que não é possível ser um católico fiel e um democrata ao mesmo tempo, e fez uma oração na marcha “Stop the Steal” em Washington, em dezembro passado, que alegava falsamente uma fraude eleitoral generalizada.

Além dos seus vínculos com o Instituto Napa, os mesmos prelados estão entre aqueles que mais regularmente aparecem na Eternal World Television Network (EWTN), que está sob escrutínio pela sua apresentação seletiva do ensino católico. Nos últimos anos, a cobertura da rede tem sido frequentemente crítica ao Papa Francisco e favorável a Trump e Viganò, que a rede continua convidando para participar de seus programas, apesar dos seus apelos pela renúncia do papa e do seu apoio às teorias da conspiração do QAnon. Chaput e Gomez também são membros de longa data do conselho da EWTN.

O National Catholic Prayer Breakfast, que anualmente reúne mais de 1.000 católicos na capital do país para uma manhã de oração e discursos, também serviu como plataforma importante para os mesmos indivíduos e organizações, e é apoiado financeiramente, em parte, pelo Instituto Napa.

Nos últimos anos, Chaput, Naumann e Olmsted viraram manchetes do café da manhã. O evento virtual de 2020, transmitido ao vivo pela EWTN, incluiu um discurso de Trump e homenageou o procurador-geral William Barr com o seu prêmio “Christifideles Laici” pelo serviço prestado à Igreja, apesar de Barr ter restabelecido a pena de morte federal, que há muito tempo é contestada pelos bispos dos EUA e é contra o ensino da Igreja.

Mesmo assim, Chaput foi às páginas da revista First Things e elogiou Barr por ter “um cérebro católico pensante, um caráter de substância e uma base moral”. Como bônus, escreveu Chaput, “ele é desapreciado por todas as pessoas certas”.

Logo após a eleição de Biden como o segundo presidente católico da nação, Chaput adotou um tom diferente em relação aos funcionários públicos católicos que promulgam políticas contra o ensino da Igreja. Em outro ensaio na First Things, ele argumentou que os políticos católicos que apoiam políticas como o aborto e continuam recebendo a Comunhão estão causando “escândalo” e que os bispos que anunciam que darão a Comunhão a Biden “prestam um grave desserviço aos seus irmãos bispos e ao seu povo”.

O artigo de Chaput foi publicado poucos dias depois que o cardeal Wilton Gregory, arcebispo de Washington, disse que não negaria a Comunhão a Biden e que esperava uma relação marcada por um diálogo respeitoso.

Como bispo aposentado e sem autoridade canônica em Washington ou em Delaware, onde Biden participa da missa com mais frequência, a intervenção de Chaput no debate sobre a Comunhão marcou um afastamento em relação ao documento de 2004 produzido pela Conferência dos Bispos dos EUA sobre “Os católicos na vida política” [disponível em inglês aqui], quando o órgão dos bispos abordou pela primeira vez o tema da Comunhão para os políticos católicos pro-choice.

O documento, que Chaput ajudou a redigir, dizia que a questão da Comunhão deveria ser deixada a cargo do bispo local individual. Carr se lembra de ter trabalhado no documento e de como, apesar da natureza sensível das questões em jogo, o texto “uniu a Conferência e aproximou os bispos e o Vaticano”.

“Ele reflete com precisão o ensino da Igreja sobre o compromisso com os nascituros e a responsabilidade pastoral dos bispos”, disse Carr, observando que o texto foi aprovado por uma esmagadora maioria de votos (183 contra 6). “Ele continua servindo bem à Igreja”, acrescentou, alertando que tais esforços de busca de consenso parecem raros entre os bispos hoje.

Stephen P. Millies, professor de Teologia Pública e diretor do Centro Bernardin da União Teológica Católica, disse ao NCR que o atual grupo de bispos católicos foi moldado principalmente pela era de João Paulo II e Bento XVI, que enfatizava uma recentralização da autoridade da Igreja e um desejo de desacelerar as mudanças depois da era do Vaticano II. A era do Papa Francisco, observou Millies, tem a ver com a descentralização do poder e a criação de mais espaço para as vozes que estão nas margens.

Millies disse que, embora muitos dos bispos que lideram uma campanha por um documento sobre a “coerência eucarística” estejam, de certa forma, apresentando um argumento “muito típico de Francisco” sobre a descentralização da autoridade e sobre o fato de não querer que Roma “nos diga o que fazer”, ao mesmo tempo o impulso deles não é abordar a questão da mesma forma que o Papa Francisco abordaria um tema tão sensível, com diálogo e uma ampla consulta.

“É daí que vem grande parte da desunião”, observou ele, acrescentando que muitos bispos ainda exercem um controle central e fazem isso por meio do apoio de “movimentos bem financiados”, como o Instituto Napa, a EWTN e o National Catholic Prayer Breakfast, e conseguem alcançar um público maior por meio de suas redes e plataformas.

“Em tudo isso, há um canal de dinheiro para a criação da mensagem e para a ampliação da mensagem, tanto por meio da Igreja institucional e suas estruturas, quanto por meio daquelas organizações paralelas que apoiam essa visão da Igreja institucional ou daquelas pessoas da Igreja institucional que estão aliadas a eles”, disse Millies.

 

Diálogo extenso e sereno?

 

Quando o cardeal Ladaria, chefe da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, escreveu a Gomez e aos bispos dos EUA em resposta aos seus planos de votarem na próxima semana se eles dariam continuidade a um documento sobre a Eucaristia, ele encorajou um “diálogo extenso e sereno” antes de fazer avançar quaisquer planos em potencial.

A Ir. Sharon Euart, das Irmãs da Misericórdia e ex-secretária geral associada da Conferência dos Bispos dos EUA, disse ao NCR que “uma das questões fundamentais que ainda não foram respondidas é: o órgão dos bispos deseja agir de forma contrária às orientações da Congregação para a Doutrina da Fé?”.

“Eu acho que o foco da carta do cardeal Ladaria é a unidade da Conferência”, disse Euart, que agora é a diretora-executiva do Resource Center for Religious Institutes. “À luz do que foi noticiado, a questão se volta à ação dos bispos: isso promoverá essa unidade ou a obstruirá?”.

De sua parte, Carr acredita que seguir em frente seria “eclesialmente divisivo, pastoralmente destrutivo e contraproducente na vida pública”.

Ele disse que levantar esse debate há pouco mais de um ano de pandemia, em que muitos católicos ficaram longe da missa durante meses – e em um momento em que muitas lideranças da Igreja estão tentando descobrir formas de trazer os católicos de volta às igrejas –, envia a mensagem errada.

“Este é um momento de dar um passo atrás e perguntar qual é a melhor forma de encorajar as pessoas a voltarem à Eucaristia. Qual é a melhor forma de defender a humanidade do nascituro? Qual é a melhor forma de compartilhar a sabedoria do ensino social católico sobre a imigração, a pobreza e a vida? Qual é a melhor forma de cuidarmos do nosso povo em um tempo de acerto de contas racial?”, disse Carr. “Se você já pensou nisso, não iria dizer: ‘Vamos discutir se o presidente católico pode receber a Comunhão’.”

Euart duvida que, dada a sensibilidade necessária de tais discussões, uma reunião virtual poderia ser o meio certo para uma medida política tão significativa.

“Eu acho que reconhecemos que as reuniões virtuais não favorecem o diálogo, especialmente com 300 pessoas”, disse ela. “Elas tendem a favorecer aqueles que se sentem à vontade para falar, mas não oferecem a oportunidade de um diálogo mútuo. Pode haver uma série de pessoas dando opiniões, mas não a interação e o diálogo que só o fato de estar presencialmente pode criar.”

Como ponto de comparação, ela observou que, no ano passado, a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica do Vaticano disse que os religiosos não poderiam celebrar um capítulo virtualmente, porque não poderiam discernir juntos. Eles não poderiam fazer uma votação canônica, porque não poderiam garantir os requisitos necessários.

Segundo ela, as pessoas estão intrigadas com o sentido de urgência sobre essa questão.

Da mesma forma, Carr classificou a pressa em prosseguir como “pastoralmente perigosa”.

A abordagem atual da Conferência, disse ele, “gera e demonstra as divisões entre os bispos e o Papa Francisco, e entre os próprios católicos”.

Carr descreve o contraste entre esses bispos e o papa como “uma expressão de dois tipos diferentes de liderança”.

“Se você acha que essencialmente perdemos a luta pela cultura e que somos um resto fiel, então você se agacha e tenta preservar e proteger aquilo que temos e faz declarações, proclama a verdade, faz julgamentos e emite penalidades. Esse é um estilo de liderança.”

Mas, continuou, “se você acha que temos aquilo de que o mundo precisa, se você acha que o ensino social católico oferece um caminho a seguir, então você se engaja e busca persuadir. Você tenta ir ao encontro e convidar as pessoas, e o julgamento e a condenação são contraproducentes”.

Citando Mark Shields, o comentarista de longa data da PBS, Carr disse que é possível medir a saúde de uma organização vendo se ela está buscando convertidos ou tentando encontrar hereges.

“O Papa Francisco está buscando convertidos”, disse ele. “Alguns outros estão procurando hereges e querendo puni-los.”

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

EUA: quem são os bispos que querem negar a Comunhão a políticos pró-escolha? - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV