O Papa: os padres são servidores, não super-homens com sonhos de grandeza

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08 Junho 2021

 

Audiência com a comunidade do Convitto di San Luigi dei Francesi em Roma: “A vossa fraternidade, um testemunho numa sociedade marcada pelo individualismo e pela indiferença. Cuidado com a tentação de isolar-se e criticar e falar mal dos outros, tornamo-nos solteirões fofoqueiros". O convite para serem “sacerdotes com cheiro de ovelha”.

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 07-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Despir-se das “ideias pré-concebidas”, para olhar a realidade. Substituir os "sonhos de grandeza" de "padres super-homens" pelos sonhos de "uma Igreja inteira ao serviço" e de "um mundo mais fraterno e solidário". Abandonar qualquer ambição de “autoafirmação” para colocar “Deus e as pessoas” no centro das preocupações cotidianas, sem se deixar distrair por críticas e mexericos que correm o risco de transformar até mesmo os sacerdotes em “solteirões fofoqueiros”. O Papa Francisco confia um mandato preciso, que não é outro senão aquele - já expresso na famosa homilia da Missa Crismal de 28 de março de 2013 - de ser "pastores com cheiro de ovelha", no discurso aos sacerdotes da comunidade do Convitto San Luigi dei Francesi. Trata-se do colégio localizado no complexo da conhecida paróquia no centro de Roma, um ponto de referência para a comunidade além dos Alpes na Itália, que abriga três obras de Caravaggio.

 

A fraternidade numa sociedade marcada pelo individualismo

Justamente “a vossa casa, com o seu testemunho de vida - diz o Papa no seu discurso, intercalado por vários trechos de improviso, durante a audiência no Palácio Apostólico - pode comunicar às pessoas que a frequentam ao valores evangélicos de uma fraternidade variegada - uma bela salada de frutas, hein? - e solidária, especialmente quando alguém passa por um momento difícil”.

Numa sociedade marcada pelo individualismo, pela afirmação de si, pela indiferença, vocês fazem a experiência de viver juntos com os desafios do dia a dia.

 

A tentação de se isolar e criticar os outros

Os desafios não são poucos na vida comunitária. Por exemplo, existe “a tentação de criar pequenos grupos fechados, de se isolar, de criticar e falar mal dos outros, de se considerar superiores, mais inteligentes. A fofoca é um hábito dos grupos fechados, hábito também dos padres que viram solteirões: vão, falam, fofocam ... Não ajuda. Esqueçam. Olhar e pensar na misericórdia de Deus. E isso é uma insídia a todos nós, e isso não é bom”, adverte o Papa Francisco. O seu desejo, que assume a forma de recomendação, é que "possam sempre acolher uns aos outros como um dom".

Numa fraternidade vivida na verdade, na sinceridade das relações e numa vida de oração, podemos constituir uma comunidade onde se respira o ar da alegria e da ternura.

 

Olhar para São José, modelo de fidelidade

Aos sacerdotes da comunidade francesa, Francisco indica a figura de São José, no ano a ele dedicado: "homem de fé", "pai terno" e "modelo de fidelidade e abandono confiante ao projeto de Deus”. Como ele, é necessário colocar em prática atos de acolhimento e doação de si e também ter a fé de que Deus pode operar nas fragilidades e nas fraquezas.

Não deixem as fragilidades de lado: são um lugar teológico. Minha fragilidade, de cada um de nós: lugar teológico de encontro com o Senhor. Os padres super-homens acabam mal, todos. Todos. O padre frágil, que conhece suas fraquezas e fala delas com o Senhor, este vai ficar bem.

“O padre - acrescenta ainda o Papa Francisco - é um homem que, à luz do Evangelho, difunde o gosto de Deus ao seu redor e transmite esperança aos corações inquietos”.

 

Pastores com cheiro de ovelha

"Gosto" e "esperança" a transmitir também nas várias universidades romanas que frequentam os sacerdotes do Convitto: esses lugares são, de fato, para o Papa, uma oportunidade para "apreciar melhor a realidade a que sois chamados a anunciar o Evangelho da alegria”. No entanto, alerta, “vocês não saem a campo para aplicar as teorias sem levar em consideração o ambiente em que se encontram, bem como as pessoas que lhe são confiadas”.

Desejo que sejais pastores com "cheiro de ovelha", pessoas capazes de viver, rir e chorar com a vossa gente, numa palavra, de comunicar com ela.

De fato, o Papa Francisco diz que está preocupado em ver "reflexões, pensamentos sobre o sacerdócio, como se fosse uma coisa de laboratório: este sacerdote, aquele outro sacerdote ...". Não, diz ele de improviso, "não se pode refletir sobre o sacerdote fora do povo santo de Deus. O sacerdócio ministerial é consequência do sacerdócio batismal do santo povo fiel de Deus. Não se esqueçam disso. Se vocês pensarem em um sacerdócio isolado do povo de Deus., isso não é sacerdócio católico, não; e nem mesmo cristão”.

 

Despir-se dos sonhos de grandeza e autoafirmação

“Dispam-se de vós mesmos, de suas ideias preconcebidas, de seus sonhos de grandeza, de sua autoafirmação, para colocar Deus e as pessoas no centro de vossas preocupações cotidianas”, é o convite do Papa Francisco. Para fazer isso, basta simplesmente "ser pastor". “'Não, eu gostaria de ser apenas um intelectual, não um pastor'. Mas, peça a redução ao estado laical, vai ser melhor para você, e seja um intelectual. Mas se você é um sacerdote, seja um pastor. Você será um pastor, há muitas formas de fazê-lo, mas sempre no meio do povo de Deus. O que Paulo lembrava ao seu discípulo amado: 'Lembra-te da tua mãe, da tua avó, das pessoas que te ensinaram'. O Senhor diz a Davi: 'Eu te escolhi tirando-te dos apriscos do rebanho', dali".

 

Apóstolos da alegria, com senso de humor

Com esta consciência, é preciso sonhar "grandes horizontes", sem ter “medo de ousar, de arriscar, para ir em frente porque tudo podeis com Cristo que vos dá força”.

Com Ele podeis ser apóstolos da alegria, cultivando em vós a gratidão de estar ao serviço dos irmãos e da Igreja.

“E com alegria - diz o Papa – vai junto o senso de humor. Um padre que não tenha senso de humor, não agrada, algo está errado. Aqueles grandes padres que riem dos outros, de si próprios e até da sua própria sombra: o senso de humor que é uma das características da santidade, como assinalei na Encíclica sobre a santidade".

 

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