A Antropologia Teológica contida na Laudato Si' como caminho de espiritualidade contra o consumismo

Coluna “Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco”

07 Junho 2021

 

"A espiritualidade ecológica supera o consumismo, pois oferece o desprendimento e ajuda a efetivar o comportamento adequado da vida cristã com aquilo que o interliga. Pela sobriedade encontramos a libertação, não daquela que é menos vida ou da vida imposta pelos sistemas vigentes, mas a uma verdadeira libertação que ocorre mediante a vivencia real, das coisas singelas que se apresentam e são significativas", escreve Weliton Osmaré, em artigo para a coluna “Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco”, publicada semanalmente pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

 

Weliton Osmaré é seminarista da Diocese de Limeira (SP) na etapa da síntese vocacional. Graduado em teologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas em 2020. Na dissertação de conclusão de curso desenvolveu como temática: ‘A antropologia teológica na Laudato Si: Uma possibilidade para efetivar o ser humano virtuoso no século XXI por meio das virtudes cardeais’.

 

Eis o artigo.

 

Introdução

 

A antropologia teológica é a área teológica que se debruça no estudo sistemático da relação entre o ser humano e o mistério de Deus, tendo seu ponto culminante em Jesus Cristo, modelo de humanidade [1]. Na encíclica Laudato Si’ (2015), o Papa Francisco busca refletir sobre novos caminhos para não somente os cristãos possam trilhar, mas a todos.

A proposta da Economia de Francisco e Clara, iluminada pela Laudato Si’, ajuda o sujeito a superar uma visão tecnocrática e antropocentrista para uma perspectiva sendo um copartícipe da criação e evitando o consumo intenso. Desse modo, o desenvolvimento e progresso seja em prol de alcançar a dignidade da vida humana e o cuidado planetário para com a casa em comum.

Buscaremos expor a antropologia teológica, numa abordagem perceptível de que ‘fomos concebidos no coração de Deus e, por isso, cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus, cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário [2]. Outra abordagem é apresentar a espiritualidade com o elemento de sobriedade para enfrentar o consumismo.

 

A Antropologia Teológica

 

A antropologia teológica já é apresentada nas primeiras páginas da Sagrada Escritura, nos capítulos um e dois do livro do Gênesis. O primeiro capítulo, de fonte eloísta, apresenta que Deus dita cada coisa criada e as organiza pelos dias, e ao criar o Homem, usa uma qualidade diferenciada – façamos o homem a nossa imagem e semelhança [3] – esse qualificativo atenua para a comunhão entre Deus e Homem. No segundo capitulo, de fonte javista, YHWH cria o ser humano, do barro (húmus), confere a ele forma e após sido formado, confia o poder de denominar cada coisa criada.

Outro ponto evidente na narrativa da criação é o uso do termo hebraico נֶָ֣פֶש (néfesh), evidenciando o sopro da vida, que mais tardiamente, seria compreendido como psiché ou alma. Embora, não seja o propósito de intensificar a abordagem exegética [4], se percebe de forma evidente, mostrar o intuito relacional e a oferta de vida que Deus proporciona.

O ser humano, uno e plural [5], tem a condição de responder ao chamado de ser imagem de Deus (imago Dei) para alcançar a sua plenitude. Isso é possível, devido ao dom da graça, para se assemelhar ao divino. Com isso, o ser humano é impelido à se configurar ao Cristo, com a humildade de abertura para ser moldado na forma do Senhor [6].

Portanto, a nossa filiação à imagem d’Ele, se dá na encarnação, ação revolucionária de Deus para com a criatura, unindo o humano e o divino, ou seja, somos filhos no Filho. Outro mistério, o da ressurreição, é a efusão do Espírito Santo em nós, deixado como promessa e força desta união. Sendo assim, condiciona a criatura ao acesso ao Pai no Cristo. Mediante a essa circunstância, também podemos chamar Deus todo-poderoso de Abba [7].

O ser humano chamado a se configurar a Cristo, na força do Espírito e na realização da vontade do Pai, apresenta a relação aberta com as Pessoas trinitárias. Com isso, Deus é o princípio e fim das criaturas e o ser humano é chamado a viver no caminho de santidade [8]. Ao viver conforme a vontade divina, o ser humano é chamado para viver a comunhão trinitária, não em ponto de igualdade com aquilo que pertence ao divino, mas uma resposta que se atente aos apelos e sendo um canal para efetivar o Reino, em compromisso batismal.

Como filhos obedientes, não consintais em modelar a vossa vida de acordo com as paixões de outrora, do tempo da vossa ignorância (...) Pela obediência à verdade purificastes as vossas almas para praticardes um amor fraternal sem hipocrisia. Amai-vos uns aos outros ardorosamente e com coração puro. Fostes regenerados, não de uma semente corruptível, mas incorruptível, mediante a Palavra viva de Deus, a qual permanece para sempre [9].

Por isso, a filiação divina permite que o Homem alcance a sua plenitude, realizando um propósito, uma missão em sua vida que dá sentido à qual também evidencia a vontade de Deus no seu desígnio livre e gratuito de salvação.

Mas, o ser humano não alcança isso por meio de seu autorreferenciamento, mas pela graça, que aperfeiçoa o ser criatural. O ser humano expressa essa mudança, a partir da adesão a Jesus Cristo, revelador do Pai, e recebe uma novidade, ser um homem novo (cf. Ef 2,15). Embora continua a ser o mesmo homem, vive de modo diferente; essa é a própria presença de Cristo e do Espírito no ser humano que se renova internamente. Isto colocado, deriva da ação do próprio Deus, a alma participa da natureza divina e assim expressa as virtudes teológicas (fé, esperança e caridade) e as virtudes humanas (prudência, justiça, fortaleza e temperança), são iluminadas por elas, ou seja, são sete ‘velas’ que ajudam a guiar o caminho do fiel cristão. Com efeito, o ser humano passa a ser alguém dotado de capacidades para entrar na comunhão divina, responde a essa comunhão com sua vida de forma deliberativa na atitude de amar da mesma forma a qual foi criado, procedida e operada como a do Cristo, modelo de Homem e de liberdade.

 

A Antropologia Teológica na Laudato Si'

 

A antropologia teológica apresentada por Francisco na Laudato Sí’, não é um tratado dogmático, porém evidencia que o ser humano é um alguém inserido e de comunhão com dimensão cosmológica.

Essa dimensão cosmológica, permite que o ser humano esteja interligado com as suas mais variadas formas de expressão no âmbito cultural, socioeconômico, relações com seus pares, com a natureza e com o sagrado.

Estando a frente, deve cuidar e guardar. Na abordagem do antropocentrismo, em que o Homem toma o centro, é lhe conferido a responsabilidade, mas não é isso que se observa. São muitas as crises ambientais que enfrentamos pelo não cuidado e exploração indevida. Essa exploração se atribui em prol do progresso e desenvolvimento. Desse modo, colocamos a técnica acima dos recursos e criamos um novo paradigma que exige-se o dominar, sem regras e sem responsabilidade, este é o paradigma tecnocrático.

O ensino trazido pela Laudato Si’ procura superar essas duas abordagens que, infelizmente, se encontram ligadas. Uma primeira crítica apresentada, é de que a técnica é um instrumento que procura atingir o valor do progresso. Mas, ao mesmo tempo, técnica não é um instrumental retido por todos, não há uma acessibilidade universal. Outra crítica do documento do magistério, é que o uso dela, de modo prejudicial, vai de confronto com a teologia da Criação quando não a colocada ao serviço do bem comum [10]. Com isso, se deve superar o paradigma tecnocrático é se atentar ao verdadeiro progresso a qual leve o ser humano a vida digna.

Quando o paradigma tecnocrático se torna o centro das relações, passa a condicionar a vida passa como o recurso principal para interpretar a existência [11]. Para reverter esse quadro, a proposta da cultura ecológica favorece essa superação, não buscando uma resposta urgente e/ ou parcial, mas uma forma de resposta resistente aos problemas mais profundos da humanidade os dos sistemas vigentes [12].

Com isso, ao perceber que o ser humano é um ser de ligação, composto por algo acima de si mesmo, o coloca no seu papel vocacionado para o desígnio soteriológico, enquanto dom da Criação e coparticipante e responsável para efetivar as maravilhas de Deus, ‘porque me alegras, Senhor, com tuas maravilhas, exulto com as obras de tuas mãos’ (Sl 92,5). Portanto, o ser humano quando toma consciência de um relacionamento adequado com as coisas criadas, principalmente, entre o seu semelhante, um outro primata bípede, e com a natureza no intuito de efetivar o bem-viver e colocar força vital na superação das situações destrutíveis, de modo especial, em prol com os mais pobres.

Isto posto, a cultura ecológica responde os anseios do uso adequado da técnica de forma que busca a humanização, elevando numa dimensão da bondade para efetivar o progresso e a efetivar a dignidade, sinalizando com sementes do Reino de Deus [13].

 

A sobriedade como resposta ao consumismo

 

Com o intuito de mudar o paradigma, há necessidade de uma mudança cultural. A cultura ecológica também favorece uma espiritualidade que responda aos anseios de um progresso coerente com a Criação, uma das propostas apresentadas na carta encíclica é o uso da sobriedade como resposta efetiva para o consumismo, na sua maioria das vezes, desenfreado.

A espiritualidade na abordagem da cultura ecológica evoca as virtudes humanas que são apresentadas como pertencentes a inteligência e vontade dos seres humanos bem como os valores que ordenam as paixões segundo a razão e a fé [14]. Ora, Quando Deus se oferece ao homem como verdadeiro horizonte de sua realização e, quando o homem livremente se decide entrar nesse âmbito de referência, então se tem a escolha da opção fundamental cristã. Naturalmente, esse âmbito de acolhida e de realização do homem não pode ser entendido senão como a acolhida que Deus que oferece em Cristo Jesus comunicado, através do Espírito, em sua Igreja [15]. Portanto, ao praticar a espiritualidade em prol de uma cultura ecológica, é estar adequadamente conforme o espírito cristão, por meio da vivencia correlacionada com a fé.

A espiritualidade ecológica promove a tomada de consciência dos cristãos enquanto coparticipes da Criação para superar o pragmatismo utilitarista e paradigma tecnocientífico. Essa dimensão espiritual do ser humano busca trazê-lo enquanto um ser de comunhão e oferecendo um novo sentido de vida, através de um estilo sóbrio. Nessa perspectiva, a teologia compreende o ser humano enquanto um ser de comunhão e de perfeita comunhão com a Trindade.

As Pessoas divinas são relações subsistentes; e o mundo, criado segundo o modelo divino, é uma trama de relações. As criaturas tendem para Deus(...)a pessoa humana cresce, amadurece e santifica-se tanto mais, quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim assume na própria existência aquele dinamismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a sua criação. Tudo está interligado, e isto convida-nos a maturar uma espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade [16].

A partir da teologia relacional das Pessoas divinas, o ser humano é chamado a fazer um itinerário com a finalidade em Deus. A espiritualidade cristã, fundamentada no Evangelho, possibilita ao ser humano essa mudança de pensamento e de agir. A espiritualidade cristã também efetiva a moral, pois a partir de uma autêntica conversão na expectativa ecológica, procurará fazer de sua existência, gestos virtuosos, contemplativo e proféticos, para guardar a obra do Criador [17].

O uso da sobriedade, implica numa atitude moral, a qual visa a felicidade nas coisas familiares ao Homem, não o torna alienado de si, e favorece o encontro fraterno os demais bem como a pratica do serviço e da oração [18]. Com isso, favorece a superação do consumismo desacerbado para uma presença fraterna e uso adequado das coisas.

Assim sendo, a espiritualidade ecológica supera o consumismo, pois oferece o desprendimento e ajuda a efetivar o comportamento adequado da vida cristã com aquilo que o interliga. Pela sobriedade encontramos a libertação, não daquela que é menos vida ou da vida imposta pelos sistemas vigentes, mas a uma verdadeira libertação que ocorre mediante a vivencia real, das coisas singelas que se apresentam e são significativas. Na carta encíclica, o Papa Francisco traz algumas evidencias daquilo que se apresenta como a vivência da sobriedade em atos simples para o cotidiano, como: evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água, diferenciar o lixo, cozinhar apenas aquilo que razoavelmente se poderá comer, tratar com desvelo os outros seres vivos, servir-se dos transportes públicos ou partilhar o mesmo veículo com várias pessoas, plantar árvores e apagar as luzes desnecessárias [19]. Outra evidência da sobriedade é que possibilita a busca de paz interior, mesmo num mundo acelerado e negando essa possibilidade, esse exercício oferece a oportunidade para a integração da vida humana. Essa integração ocorre de forma harmônica, doação serena pelo Criador e nas atitudes morais segundo o exemplo de Jesus Cristo [20].

Pequenos gestos que nos remetem para o serviço do cuidado, com o outro e com a Criação, uma oração que se inclina para as coisas sutis da vida e evitando o pecado da ganancia.

 

Conclusão

 

O presente artigo, de forma síntese, visou abordar a antropologia teológica como área do conhecimento teológico e sua presença no magistério eclesial na carta encíclica do Papa Francisco, Laudato Si’. Perceptível que a carta encíclica corrobora mostrando que o ser humano é esse ser de ligação com o plano soteriológico de Deus.

A partir disso, fé e vida são intrínsecos, uma fé não voltada para um espiritualidade que liberta das amarras dos pecados, não pode ser fé. E uma vida fundada sem horizontes, se torna algo estranho da imago Dei. Ou seja, diante do pecado da ganância ou do consumismo, que usa da tecnonização para explorar e alimentar pseudo-paixões, os seguidores de Cristo, são chamados a enfrentar essas situações que nãos priorizam a evidencia para uma vida mais digna e a luz do bem-viver. Essa mudança cultural, será possível por meio de uma conversão real e com abertura a graça, para uma vivencia sóbria.

A fé cristã favorece essa percepção para uma vida voltada ao real desejo de libertação e para efetivar a presença do amor e do Reino de Deus. Essa realidade é clara, ao ponto de não ser coisas extraordinárias, mas uma vivencia equilibrada que contemple a beleza e o dom da

Criação, a qual é acessível aos homens e mulheres, vocacionados a serem cuidadores e guardiões.

 

Referências

 

BÍBLIA SAGRADA. Bíblia de Jerusalém (Ed. Revista). São Paulo: Paulus, 2002.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA.

CONSTINUIÇÃO PASTORAL. Gaudium et Spes.

FRANCISCO. Carta encíclica Laudato Si’.

LADARIA, Luis Ferrer. Introdução à Antropologia Teológica. São Paulo: Edições Loyola, 1998

VIDAL, Marciano. Moral de Atitudes. Vol. 1. Moral fundamental. Aparecida: Santuário, 1993

 

Notas

[1] GS, n. 22.
[2] LS, n.65.
[3] Gn 1,26-28
[4] Para uma melhor compreensão, sugiro a leitura de BORN, A. Van Den. Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Tradução de Frederico Stein. Petrópolis: Vozes, 1992
[5] Cf. 1 Ts 5,23
[6] Cf. LADARIA, L. Introdução à Antropologia Teológica, p. 72
[7] Cf. Ibidem. p.156-157
[8] O conceito de santidade é amplo. O capitulo quarto da exortação apostólica Gaudete et Exsultate (2018) ajuda a perceber o caminho de santidade nos tempos atuais.
[9] 1 Pd 1, 14.22-24
[10] Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os homens e povos; de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos, segundo a justiça, secundada pela caridade. Sejam quais forem as formas de propriedade, conforme as legítimas instituições dos povos e segundo as diferentes e mutáveis circunstâncias, deve-se sempre atender a este destino universal dos bens. Por esta razão, quem usa desses bens, não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si mas também aos outros (GS, n. 69)
[11] LS, n. 110.
[12] LS, n. 111
[13] Para melhor compreensão, convido a ler a parábola da semente de mostarda (Mc 4,30-32). Deixa-nos como ensinamento que mesmo diante das menores atividades, quando cultivadas e plantadas, ou seja, cuidadas e comunicadas, se torna visivelmente um grande ato de amor que oferece a vida em Deus e seus sinais de libertação.
[14] CIC, n.1834
[15] Cf. VIDAL, 1993, p.170.
[16] Cf. LS, n. 238-240.
[17] Cf. Ibidem, n. 219-220.
[18] Cf. Ibidem, n. 243.
[19] LS, n. 211.
[20] LS, n. 225.

 

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