Um pequeno tesouro para os jovens. Artigo de Carlo Rovelli

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27 Mai 2021

 

"Existe apenas um verdadeiro argumento contra qualquer ideia de redistribuição. O poder na sociedade atual não está nos cidadãos que votam: está nas mãos daqueles que, de uma forma ou de outra, detêm a riqueza. A riqueza de que o poder precisa para funcionar e ganhar as eleições. Que também serve, ou seja, para convencer a maioria a votar contra os seus próprios interesses, em defesa dos interesses de poucos. Espero que a política volte a ser mais honesta e inteligente do que isso", escreve o físico italiano Carlo Rovelli, professor no Centro de Física Teórica da Universidade de Marseille, na França, e diretor do grupo de pesquisa em gravidade quântica do Centro de Física Teórica de Luminy, em artigo publicado por Corriere della Sera, 26-05-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Matteo é um dos alunos mais brilhantes que já tive. Ele agora realiza pesquisas científicas na Alemanha, mas também está engajado civilmente. No ano passado, ele me procurou para pedir meu apoio para uma proposta política que estava promovendo. No começo, fiquei perplexo. Conversamos muito sobre isso e seus argumentos me convenceram. Convencer o resto do mundo, no entanto, me parecia difícil e, temerosamente, não fiz nada. A proposta era que o estado oferecesse a todos os jovens de 18 anos um pequeno capital, financiado por um imposto sobre a herança dos grandes patrimônios.

Hoje, uma proposta semelhante de Enrico Letta traz essa ideia para a discussão pública. Este é um bom momento para apresentar os argumentos que me convenceram. A principal constatação por trás da proposta de um pequeno capital para os jovens é que a verdadeira diferença que distingue as oportunidades das diferentes classes sociais em nosso país não é a renda, é o patrimônio. Vivi com bem pouco dinheiro a maior parte da minha vida, mas atrás de mim havia, graças à minha família, uma segurança financeira que certamente não era grande, mas suficiente para me permitir fazer as escolhas cruciais: continuar estudando, viver um ano sem salário no final dos estudos, para jogar minhas cartas e desenvolver minha pesquisa científica, sem ter que procurar emprego imediatamente.

Talvez a decisão mais providencial em minha vida tenha sido tirar um período de descanso dos estudos logo após terminar o ensino médio e viajar por um ano sozinho no Canadá e Estados Unidos. Para me sustentar, trabalhei aqui e ali. Mas consegui comprar a passagem graças ao fato de minha avó, que pintava miniaturas e as vendia, tinha dado a cada um de seus netos, ainda crianças, algumas moedas de ouro. Minha prima as usou para estudar inglês na Inglaterra. Eu para minha grande viagem de garoto. Mudaram as nossas vidas, abrindo perspectivas. Um meu colega de escola começou seu próprio pequeno negócio de software com um pouco dinheiro que conseguiu com sua família. Isso mudou sua vida. Outro, que agora é um músico consagrado, conseguiu adquirir um dos primeiros sintetizadores eletrônicos para música quando garoto.

É a disponibilidade de um capital, mesmo pequeno, que permite colocar sua vida em trilhos que podem abrir horizontes: estudar, comprar todos os livros que servem, pagar o aluguel para ter uma moradia independente, sair da casa dos pais, começar uma verdadeira família, ter um meio de transporte próprio, talvez para uma atividade comercial. Comprar um instrumento musical, organizar uma pequena associação de voluntariado, comprar a passagem para ir ao outro lado do mundo ... Esse privilégio – começar a vida com a disponibilidade de um pequeno capital - tem sido essencial para muitos daqueles que na vida produziram coisas úteis para a sociedade. Garantiu segurança, cobriu as costas, permitiu assumir riscos. Mas esse privilégio não é possível para a maioria dos jovens italianos: a maioria dos jovens de dezoito anos não tem acesso fácil a dez mil euros, poucos para uma minoria, muitos para a maioria. Se cada jovem de dezoito anos tivesse esse pequeno capital à sua disposição, daríamos aos jovens oportunidades um pouco menos desiguais, liberaríamos forças criativas, empreendedoras, produtivas, intelectuais e artísticas, e teríamos uma sociedade um pouco menos injusta.

Dada a duração média de vida atual, a maioria das pessoas recebe a herança dos pais por volta dos cinquenta ou sessenta anos. Ou seja, quando não serve mais para realmente ajudá-las a crescer na vida. É antes que é necessária. Acho que esse pequeno tesouro não deve estar vinculado a nada. Ele simplesmente precisa ser disponibilizado aos jovens, para ser usado como quiser. Alguns vão guardar por precaução, outros vão investi-lo, outros ainda vão gastá-lo todo em chocolate e balas. Mas, em qualquer caso, não acho que seria melhor empregado no bolso dos mais ricos. Mesmo a parte desperdiçada aumenta os consumos e ajuda a economia mais do que ficar parada na já polpuda conta bancária de um sessentão filho de papai.

Nossa sociedade certamente não oferece oportunidades iguais para todos. As estatísticas são claras: o nível econômico e social dos pais determina em grande parte aquele dos filhos. As classes privilegiadas numericamente muito minoritárias no país reproduzem-se amplamente dentro delas. No período pós-guerra e nos anos de boom econômico, a mobilidade social havia aumentado muito, mas lentamente se fechou novamente. Obviamente, existem as exceções, mas são raras. Alterar esta situação é do interesse da maioria dos cidadãos, por duas razões diferentes.

A primeira é de natureza geral: esse fechamento é um dramático desperdício de recursos para toda a sociedade. Jovens brilhantes, que poderiam fazer contribuições vitais para a sociedade, não o fazem porque estão presos pelas dificuldades econômicas, por um nível de educação insuficiente ou pela falta de flexibilidade em sua vida. A segunda é o simples fato de que a maioria dos cidadãos não pertence à restrita minoria privilegiada e, portanto, não tem interesse em defender seus privilégios. Em um sistema democrático, uma força política que aspire a ser majoritária tem duas alternativas: ou servir aos interesses da maioria, e assim enfrentar o problema, ou apenas fingir servir ao interesse da maioria.

O argumento tradicional de todas as direitas contra qualquer forma de redistribuição da riqueza é que a possibilidade de enriquecer para alguém acaba beneficiando a todos. Quer este argumento seja correto ou ilusório, em qualquer caso, não tem relevância para uma proposta de redistribuição aos jovens das heranças sobre os grandes patrimônios: a transmissão por herança intacta dos grandes patrimônios não tem nenhum efeito positivo sobre a produtividade do país. Pelo contrário: sufoca a vivacidade econômica.

A Itália tem impostos sobre as grandes heranças que parecem escandalosamente pequenos para qualquer cidadão francês ou alemão, onde os impostos sobre a herança são facilmente dez vezes maiores do que na Itália. Na minha experiência, confirmei isso. Meu pai tinha na França uma pequena parte, menos de um décimo, do que ele me deixou. Paguei mais impostos sobre a herança na França sobre aquele único décimo do que nos nove décimos que estavam na Itália. Na Itália, os impostos sobre o patrimônio eram tão altos quanto no resto da Europa até algumas décadas atrás. Depois tivemos um bilionário como primeiro-ministro e todos os filhos de bilionários italianos brindaram.

Existe apenas um verdadeiro argumento contra qualquer ideia de redistribuição. O poder na sociedade atual não está nos cidadãos que votam: está nas mãos daqueles que, de uma forma ou de outra, detêm a riqueza. A riqueza de que o poder precisa para funcionar e ganhar as eleições. Que também serve, ou seja, para convencer a maioria a votar contra os seus próprios interesses, em defesa dos interesses de poucos. Espero que a política volte a ser mais honesta e inteligente do que isso, e busque o consenso com lealdade, sem cair na armadilha da subordinação à riqueza, pois a ambiguidade corrói a confiança e leva à perda do consenso. Esta proposta é um caso exemplar. Estou realmente feliz que Enrico Letta a tenha assumido.

 

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