“Temos dificuldade para compreender como existe insensibilidade para com os pobres”, afirma Dom Leonardo se referindo ao Governo e ao Congresso

Dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus | Foto: Enviada pelo autor

30 Abril 2021

 

Diante de uma pandemia que já provocou a morte de ao menos 400 mil brasileiros e brasileiras, o Pacto pela Vida e pelo Brasil, assinado em 7 de abril de 2020, dia Mundial da Saúde, se tornou um instrumento para “provocar a união de toda a sociedade, solidariedade, disciplina e conduta ética e transparente do governo, tomando por base as orientações da ciência e dos organismos nacionais e internacionais de saúde pública no enfrentamento da pandemia de coronavírus no País”.

 

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

 

Concretizar isso na região amazônica é uma exigência, sobre a qual tem sido refletido no encontro organizado pelo Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental – SARES, nesta quinta-feira, 29 de abril, “Construindo o Pacto pela Vida e pelo Brasil na Amazônia”. No evento, transmitido pelas redes sociais se fizeram presentes Patrícia Cabral do Conselho do Laicato da Arquidiocese de Manaus, Dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, Helso do Carmo Ribeiro Filho, presidente da Comissão de Relações Internacionais - CORI/OAB-AM e Marcivana Sateré Mawé, coordenadora Geral da COPIME, Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno.

 

Encontro "Construindo o Pacto pela Vida e pelo Brasil na Amazônia" (Foto: Enviada pelo autor)

 

Gerar consciência crítica é um dos objetivos do Conselho Nacional do Laicato do Brasil diante do Pacto pela Vida e pelo Brasil, segundo sua presidenta na Arquidiocese de Manaus. O CNLB tem criado grupos de trabalho nos Regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, para se mobilizar a través de encontros de formação, que partem da realidade local. As bandeiras do CNLB, segundo Patrícia Cabral, são a vacina para todos, a defesa do SUS, o auxílio emergencial e a investigação diante da falta de responsabilidade nas decisões do poder público em relação com a pandemia.

 

Lembrando a festa de Santa Catarina de Sena, comemorada no dia 29 de abril, uma das primeiras doutoras da Igreja, que viveu um momento de obscurantismo similar ao atual, o representante da OAB defendia a necessidade de conjugar fé e razão, de apostar numa cidadania ativa, de agir, ainda mais numa Amazônia vista como algo periférico, sem importância, para o Governo Federal. Helso do Carmo Ribeiro Filho denunciava que o alto número de vítimas da Covid-19 é consequência do obscurantismo, fazendo um chamado a fazer cobranças para o efetivo exercício de direitos da nossa cidadania, cobrando “vacina no braço e comida no prato”, uma exigência urgente diante do fato da vacinação ter sido suspensa por duas semanas em Manaus como consequência do descaso.

 

Helso do Carmo Ribeiro Filho (Foto: Enviada pelo autor)

 

Os povos indígenas tem sido vítimas da negação da história e de seus direitos, segundo Marcivana Sateré Mawé. Essa política que separa se faz presente hoje no fato de que quer ser negada a condição de indígenas àqueles que moram nas cidades, uma injustiça, pois “estamos no nosso território”, insistia Marcivana. Isso é provado pelos “muitos sinais da presença dos nossos ancestrais”, segundo a coordenadora da COPIME. A pandemia, que ela definia como “um dos momentos mais sombrios da história”, nega os direitos dos povos indígenas que moram nas cidades, que não estão tendo acesso à vacina, que são vítimas da falta de segurança alimentar, e tem visto sua economia, baseada no artesanato e no turismo, gravemente atingida.

 

A liderança indígena denunciava a violação dos direitos, o que coloca em risco a existência dos povos indígenas. Não pode ser esquecido que a Amazônia é berço de muitos povos, a partir dos elementos sagrados da criação que fazem parte das cosmovisões indígenas. Ela fazia um chamado a não alimentar discursos colonialistas, algo que também está presente nos próprios povos indígenas. Isso deve levar a uma mudança de paradigma, da forma de olhar os povos indígenas, destacando a necessidade de enxergar a Mãe Terra como geradora de vida.

 

Marcivana Sateré Mawé (Foto: Enviada pelo autor)

 

O Brasil corre perigo, advertia Dom Leonardo Steiner, “corre perigo não apenas contra sua saúde, mas o Brasil corre perigo quanto à saúde democrática, quanto à saúde institucional, quanto à saúde na justiça”. O Pacto pela Vida e pelo Brasil é visto pelo arcebispo de Manaus como “um sinal de uma construção muito maior”, enfatizando que defendemos a vida humana e de todos os seres, a vida que está em perigo. Ele insistia em que “o Pacto deseja também superar determinados negacionismo e realmente tomar o caminho da ciência”. Ao mesmo tempo insistia na importância dos espaços em que vai se ampliando a reflexão em torno ao Pacto, como tem acontecido no encontro organizado pelo SARES.

 

Dom Leonardo denunciava que o governo atual e o anterior está dilapidando o SUS, algo que tem mostrado sua importância decisiva para enfrentar a pandemia. Ele fazia referência à vacinação e à fome, que começa crescer, algo cada vez sensível em Manaus. O arcebispo de Manaus reclamava sensibilidade do Governo e do Congresso Nacional, definido como “um pequeno ninho de cobras”. Nesse sentido, insistia em que “temos dificuldade para compreender como existe insensibilidade para com os pobres, insensibilidade para com a questão da justiça”.

 

Dom Leonardo Steiner (Foto: Enviada pelo autor)

 

A democracia no Brasil “está sendo mais atacada, atacada no sentido de que não se respeita a democracia, não com a participação de todas as pessoas”, segundo Dom Leonardo. Em sua reflexão relacionava os elementos presentes no Pacto com os quatro sonhos do Papa Francisco em Querida Amazônia, que “falam de uma totalidade do existir”, pudendo ser considerados como “a visibilização da nossa casa comum”. No Pacto pela Vida e pelo Brasil, “nós estamos vendo a necessidade do cuidado em relação ao meio ambiente”, afirmava o arcebispo. Ele também insistia na “necessidade do cuidado e do respeito com as culturas”, lembrando a diversidade cultural presente na Amazônia e a necessidade de ser cultivadas.

 

O Pacto, no qual a Igreja está participando ativamente, quer levar em consideração os grandes desequilíbrios presentes na sociedade amazônica, segundo Dom Leonardo. Ele insistia em que “onde existe dor, onde existe sofrimento nós temos que estar. Nós não podemos passar ao largo das dores e dos sofrimentos da humanidade e das pessoas. Nós não podemos passar longe dos problemas. Nós, como pessoas que desejam seguir Jesus, sermos seus discípulos missionários, vivermos o Evangelho, nós levamos em consideração a dor e o sofrimento das pessoas que sofrem, os mais pobres”.

 

Patrícia Cabral do Conselho do Laicato (Foto: Enviada pelo autor)

 

Por isso, segundo o arcebispo de Manaus, “esse Pacto pela Vida e pelo Brasil, ele vai nos ajudar muito no Brasil inteiro a realmente nos colocarmos junto das pessoas que mais precisam”, insistindo em que a vida tem a ver com o cuidado da democracia, da justiça, do meio ambiente, e por isso, finalizava dizendo que “se queremos falar do Brasil, cuidemos bem da nossa Querida Amazônia”.

 

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