O doloroso parto da Mãe Terra. Uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social

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29 Abril 2021

 

"Inspiradas nas encíclicas Laudato Si´ e Fratelli Tutti do Papa Francisco propondo uma leitura mais holística, as reflexões propostas neste livro são um chamado urgente para mudarmos a nossa forma de habitar a Casa Comum atendendo ao apelo da própria Terra viva esse superorganismo que se autorregula e do qual somos sua porção inteligente e consciente", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

 

Eis o artigo.

 

A credibilidade dos escritos de Leonardo Boff é indiscutível. Um discípulo da realidade. Com a capacidade de dialogar com os mais diferentes contextos, suas obras são uma tomada de posição diante da situação social e eclesial e, oferecem um substancioso programa teológico e ético como sementes de um futuro diferente, sementes de paz, esperança e solidariedade em vista de uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social. Eis a proposta do livro: O doloroso parto da Mãe Terra (Vozes, 2021, 328 p.), do qual oferecemos uma visão panorâmica, o que não dispensa uma leitura e estudo do texto, em sua totalidade.

A presente obra foi elaborada no espírito dos três documentos ecológicos mais importantes do início deste século: a Carta da Terra (2003), Laudato Si´- Sobre o cuidado da Casa Comum (2015) e Fratelli Tutti (2020), e, se propõe a completar e aprofundar o livro anterior: Covid 19 – a Mãe Terra contra-ataca a humanidade – advertências da pandemia (Vozes, 2020, 176 p. ). Assume para isso o “novo paradigma cosmológico como ponto de iluminação e de integração de todos os fatores” (p. 310), e, para isso as encíclicas Laudato Si´ e Fratelli Tutti do Papa Francisco significaram fontes inspiradoras: “são documentos de alarme e de um derradeiro apelo para fazermos uma radical conversão ecológica se quisermos ainda ter futuro neste pequeno e belo planeta” (p. 10).

O presente livro, sem prender-se demasiadamente à conjuntura atual “é um convite para a mudança, pois encontramos uma emergência planetária que demanda uma revolução molecular” (p. 13). As páginas desta obra nutrem-se da “esperança de que do caos atual nascerá uma nova ordem e das dores presentes se pronuncia um parto da Mãe Terra, como expressão de uma nova etapa a ser percorrida por todos, desta vez, em harmonia com a natureza e com o cuidado e reverência para com a Mãe Terra” (p. 310).

O autor, portanto, não anuncia otimismo, mas esperança, como aquele motor interno a cada pessoa e aos processos sociais e vitais que nos dá coragem para enfrentar crises e emergências planetárias e encontrar saídas salvadoras. Essa mudança começa “com as próprias pessoas, se irradia aos demais, às comunidades e às sociedades até formar aquela onda de energia poderosa e amorosa, de fraternidade sem fronteiras, de amizade social e de solidariedade que permitirá aos humanos darem um salto de qualidade rumo a uma nova forma de viver e conviver humanamente todos na mesma Casa Comum” (p. 13).

Leonardo Boff estruturou esta obra em quatro (4) partes:

Na primeira parte – As vastas sombras da história humana (p. 15-90) o autor dedica-se a descrever e aprofundar as vastas sombras que cobrem a humanidade: a terra entrou no cheque especial (p. 17-22), a irrupção do ódio (p. 23-25), a genocida destruição das índias brasileiras (p. 26-30); a história da escravidão escrita por mãos brancas (p. 31-34), a persistência da escravidão ou de condições análogas à escravidão (p. 35-38), a discriminação dos afrodescendentes (p. 39-42); a misteriosa e ilimitada crueldade humana – graus máximos da crueldade humana (p. 43-46), a boçalidade e a cordialidade do povo brasileiro (p. 47-51), a tragédia brasileira: pobreza num país tão rico (p. 52-56), o silêncio de Deus diante dos 272 soterrados em Brumadinho (p. 57-62), o ultra neoliberalismo e suas perversidades sociais (p. 63-67), a humanidade e desumanidade dentro de nós (p. 68-74), as razões da ascensão do neofascismo mundial (p. 75-79), a recolonização da América Latina e Brasil (p. 80-84), sentido da intrusão do Covid-19 na humanidade (p. 85-90).

Na segunda parte – A nova era geológica: o ecoceno e o bioceno (p. 91-155), partindo de uma visão do universo em cosmogênese, onde sua característica não é a permanência, mas a evolução, a expansão e a autocriação de emergenciais cada vez mais complexas que permitem o surgimento de novas galáxias, estrelas e formas de vida da Terra, até a nossa vida consciente e espiritual (cf. p 123), destaca-se: quais as condições do universo para estarmos hoje aqui? (p. 93-97), a teoria do caos: fonte de uma nova ordem (p. 98-101), a nova fase da Terra e da humanidade: a emergência da Casa Comum (p. 102-106), a possibilidade da unidade da unidade da família, diversa e complexa (p. 107-110), a missão do século XXI: minha pátria é a Terra (p. 111-115), a Casa Comum sob ataque (p. 116-120), a nova era geológica: o ecoceno e o bioceno (p. 121-124), a necessidade da cultura do cuidado contra a violência pessoal e coletiva (p. 125-129), dar o pão: um humanismo em grau zero (p. 130-134), a recolonização ou a refundação do Brasil (p. 135-138), um novo software social e global (p. 139-142), as crises como as criadoras de profetas e líderes carismáticos (p. 143-149), uma insuperável utopia maximilista (p. 150-155).

Na terceira parte – Tratar humanamente cada ser humano (p. 157-248) olhando mais especificamente para a dimensão ética da existência humana coloca leitor diante destas temáticas: o exílio da ética (p. 159-166), ética e espiritualidade face aos desastres naturais e humano (p. 167-172), o amor em tempos de cólera e ódio (p. 173-178), o ilimitado respeito a todo ser humano como um dos fundamentos da ética (p. 179-185), o medo como um inimigo da vida e da alegria de viver (p. 186-191), a vida humana como o subcapítulo do capítulo da vida (p. 192-197), a solidariedade como fonte humanizadora (p. 198-202), o que somos nós enquanto humanos (p. 203-207), senhores ou parte da natureza? (p. 208-211), os animais como portadores de direito (p. 212-216), o abraço da Pachamama com Gaia (p. 217-220), uma cultura cujo centro é o amor (p. 221-225), saúde e doença humana, saúde e doença da Terra (p. 226-229), o princípio de autodestruição e o Covid -19 (p. 230-234), a desvirtualização da verdade como a agonia de uma cultura (p. 235-240), o antropoceno, o necroceno versus o ecoceno e o bioceno (p. 241-246). O “Cântico da Terra”, de Cora Coralina (p. 247-248), fecha com chave de ouro esta parte.

Na quarta parte - A anemia da vida do espírito (p. 249-311), o autor chama a atenção para: a emergência ecológica (p. 251-261), uma espiritualidade nascida do cuidado com a Terra (p. 262-268), a contribuição do cristianismo para uma ecologia integral (p. 269- 278), a Trindade como paradigma da ecologia integral (p. 279-281), a relevância cósmica de Jesus Cristo (p. 282-287), a relevância do Espírito Santo (p. 288-291), Francisco de Assis como ícone da espiritualidade ecológica (p. 292-295), saber colocar corretamente a questão de Deus (p. 296-299), espiritualidade ecológica (p. 300-304), o sofrimento como escola de aprendizado humano (p. 305-308).

Como foi dito acima -, neste livro busca-se aprofundar o texto: Covid -19 – A Mãe Terra contra ataca a humanidade – advertências da pandemia que nasceu no contexto da intrusão do coronavírus em todo mundo. Leonardo Boff não se ateve apenas em comentar o coronavírus, mas chamou a atenção para uma questão fundamental – não podemos analisar o coronavírus isoladamente como algo em si nem ser abordado apenas pela medicina, pela técnica, pelo conjunto de insumos e pela busca desenfreada de uma vacina eficaz. Precisamos colocá-lo no seu devido contexto, no qual ele surgiu - ele veio da natureza – exigindo de nós assumirmos urgentemente um novo tipo de relação para com a natureza e a Terra, contrário daquele dominante – superexploração feita pelo industrialismo moderno capitalista e socialista que se universalizou como modo de produção pela ordem e pela cultura capital.

Inspiradas nas encíclicas Laudato Si´ e Fratelli Tutti do Papa Francisco propondo uma leitura mais holística, as reflexões propostas neste livro são um chamado urgente para mudarmos a nossa forma de habitar a Casa Comum atendendo ao apelo da própria Terra viva esse superorganismo que se autorregula e do qual somos sua porção inteligente e consciente. Voltar à normalidade anterior, segundo o autor é prolongar uma situação que poderá significar a nossa própria autodestruição. Daí surge a necessidade de fazermos uma “conversão ecológica radical” a Terra viva poderá reagir e contra-atacar com vírus ainda mais violentos, capazes de fazer desaparecer a espécie e humana. Claro que está não é apenas uma opinião de meramente pessoal de Leonardo Boff, mas de muitos biólogos, cosmólogos e ecologistas que sistematicamente acompanham a crescente degradação do sistema-vida e do sistema-Terra.

Somos forçados a um novo começo... Certamente a publicação deste livro de Leonardo Boff cheio de realismo, não de otimismo ingênuo, ajuda-nos a caminhar vislumbrando um horizonte promissor: uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social. Uma utopia necessária para podermos caminhar deixando novas pegadas no chão da história, pois, alerta-nos o autor que tempos de crise como o nosso, de passagem de um tipo de mundo para outro, são também tempos de grandes sonhos e utopias, que nos movem em direção ao futuro, incorporando o melhor do passado, mas fazendo a própria pegada no chão da vida. Sempre segundo o autor é fácil pisar nas pegadas dos outros. Mas elas não nos leva mais a nenhum caminho esperançador. Dai o convite - fazer a nossa pegada, com invenção, criatividade e sonho, marcada pela inarredável esperança de vitória da vida, pois o caminho se faz caminhando e sonhando.

Sirvamo-nos deste valioso texto oferecido por Leonardo Boff para entendermos melhor o comportamento da Terra-Gaia e especialmente para a nossa responsabilidade para o destino comum da terra e da humanidade. Nossa missão, no conjunto dos seres, é o de sermos os guardiões, os mordomos deste dom que o universo nos legou ou o Criador nos presenteou: a Mãe Terra.

Referência:

BOFF, Leonardo. O doloroso parto da Mãe Terra: uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social. Petrópolis: Vozes, 2021, 328 p. ISBN 9786557130131.


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