A pobreza espiritual como caminho para uma Economia da Pessoa, à luz do pensamento de Mounier

Coluna “Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco”

26 Abril 2021

 

“Conforme o viés advindo do pensamento de Emmanuel Mounier, o artigo em tela se debruçou sobre uma concepção construtiva de pobreza, a pobreza espiritual, que coadunada com a perspectiva do processo de personalização, ambos guarnecidos por uma variedade de conceitos e ideias personalistas, aprofundam uma desafiante forma de a pessoa existir no mundo: a economia da generosidade, no amor, a partir do despojamento de si. Tal como a concepção e a vivência da situação de pauperismo têm se renovado, por assim dizer, também deve ser renovada a forma de se responder às novas situações que se apresentam, principalmente diante do flagelo da covid-19 e outros tipos de “vírus”. Neste sentido, a proposta deste estudo revelou uma urgente oportunidade de se renovar uma reflexão sobre o valor pobreza de espírito, a liberdade interior que conduz a uma existência solidária, a uma economia humana. Acredita-se, destarte, que a temática é potencialmente capaz de agregar ao pensamento daqueles que têm se dedicado à Economia de Francisco e de Clara e vem ao encontro das aspirações do Papa Francisco”, escreve Amós Santiago de Carvalho Mendes, para a coluna “Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco”.

Amós Santiago de Carvalho Mendes é advogado e bacharel em Direito pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Técnico em Serviços Públicos pelo Instituto Federal do Piauí (IFPI), Bacharel em Filosofia pelo Centro Universitário Salesiano de Lorena – SP (UNISAL). Também Religioso da Sociedade de São Francisco de Sales (Salesianos de Dom Bosco) trabalhando atualmente na primeira frente de missão da referida congregação no Piauí

 

Eis o artigo.

 

Introdução

 

Com grande sensatez, o filósofo Emmanuel Mounier (1905 - 1950), soube palmilhar com equilíbrio sobre a corda-bamba de uma época tão complexa que se colocava diante de seus olhos, e não o fez de uma forma inflexível e hermética, mas o fez com uma autenticidade vibrante e reluzente em meio a toda uma obscuridade decorrente do sistema instaurado, o sistema curvado ao individualismo, à ideologização e a uma economia que avilta a pessoa.

A Europa se encontrava às portas dos totalitarismos, com a ascensão do Fascismo na Itália e do Nazismo na Alemanha, envolta em uma nuvem de ameaças que não demoraria a se precipitar. O que havia era uma verdadeira crise de civilização, um antro de insegurança com consequências políticas, sociais e econômicas. Frente aos conformismos, às fatalidades do século, aos sistemas ideológicos com suas investidas, restou prejudicado o sentido humano, uma vez que, na disputa entre gigantes, o cenário ao redor e por debaixo deles fica devastado [1].

É justamente neste quadro problemático que o pensador nascido na cidade de Grenoble, sudeste da França, apresentou de forma premente a necessidade de se restituir o sentido da pessoa. Considerando-se que não se poderia entender a realidade sem um olhar filosófico, sem a concepção de pessoa em sua dimensão particular e comunitária, a personalização foi o processo assinalado por Emmanuel Mounier para se superar o aviltamento do ser humano, evitando a deturpação da pessoa e de todas as suas possibilidades e capacidades.

Não se tratando de um sistema filosófico fechado, inclusive devido à morte prematura do seu pensador, a corrente personalista, outrossim, não consistiu em algo restrito a uma elite intelectual ou a um mero formalismo institucional. Tratou-se, em suma, de um esforço de humanização frente à história ocidental que até então havia sido construída e parecia ruir à sombra de um capitalismo voraz e de politizações massivas.

Abrindo-se mão de um apanhado histórico-filosófico em torno de conceitos, não se querendo reduzir a relevância deste detalhamento, cabe acentuar que o filósofo em estudo edificou sua obra permeando-a de temas substanciais para o desenvolvimento da pessoa, as dimensões fundamentais de sua personalização. Entre tais temas, pode-se citar a educação, a emancipação da pessoa, a comunicação, a propriedade, a economia, o despojamento, a liberdade, a transcendência, a comunhão, o engajamento e a comunidade.

A este trabalho coube esboçar os aspectos do personalismo de Mounier atrelados à economia da pessoa, a dinâmica oblativa do amor e a capacidade de renunciar a si mesmo, uma virtuosidade que se identifica com a pobreza espiritual. Tal apanhado de ideias visa corroborar a defesa de uma economia amiga do ser humano, uma sociedade em fraternidade, perante um mundo atravessado pelo egocentrismo e pela (consequente) miséria humana.

 

1. Aspectos relevantes da economia da pessoa: ser é amar.

 

Em vias de aprofundar e repensar a pessoa em meio à tão conturbada Europa do século XX, Emmanuel Mounier elaborou sua filosofia ao derredor de diversas considerações sobre um processo que, na sua visão, seria crucial: a personalização humana. Sem desmerecer as demais dimensões amplamente trabalhadas em sua vida e história acerca desse exigente processo, é mister acentuar a relevância que se atribui à liberdade e à educação.

Acerca da liberdade, Mounier elabora uma assertiva síntese a partir de seu próprio contexto (MOUNIER, 2004, p. 84):

 

"Numa época cada vez mais vergada ao peso do que supõe serem fatalidades, de tal forma roída de preocupações e angústias que está pronta a vender a sua liberdade por um mínimo de segurança, não é menos urgente denunciar o espírito de escravidão e suas formas larvadas. Um gosto passivo da autoridade que tem mais que ver com patologia do que com teologia, cegas adesões às diretrizes dos partidos, indiferença dócil das massas desorientadas, tudo nos denuncia a queda do homem livre: é preciso reconstituir a espécie por estes formada. (...) Não se dá a liberdade aos homens, do exterior, com facilidades de vida ou com constituições..."

 

Para além das situações alienadoras, capazes de escravizar e reduzir as pessoas, as quais podem ter muita força destrutiva e resultar no massacre humano, é revelada através deste excerto a existência de uma liberdade que não se adquire de forma externa. Em outras palavras, há um homem livre que, por exemplo, pode vender sua liberdade, e isso leva a crer que há uma liberdade mais interior que exterior, que não pode ser vendida.

Caminha exatamente neste sentido a elaboração de Mounier sobre a liberdade. À luz de seu pensamento, a pessoa deve tomar a iniciativa de reconhecer e, após escolher ser livre, fazer-se livre; tratar-se-ia, portanto, de um processo profundamente interior e não, precisamente, algo externo a ela, por exemplo, como se fosse um fruto dos avanços da ciência e da tecnologia (MOUNIER, 2004).

Não obstante, esse reconhecimento ou escolha não se daria de forma automática, pois antes seria necessário ser percorrido um outro caminho, a saber, a via educativa. É por isso que, em sua abordagem, o filósofo francês deixa claro que o primeiro ato de iniciação à vida pessoal consiste na tomada de consciência, a vivência do denominado “despertar” da pessoa, caminho que só se dá mediante um processo educativo.

Imbuído por um espírito pedagógico, Mounier trata como “despertar” da pessoa a formação de um espírito crítico, o reconhecimento de responsabilidades diante da própria vida, a criação de um ambiente comunitário e dialogal, a tomada de consciência, enfim, uma sequência de démarches em busca da verdade e do crescimento pessoal (LORENZON, 1996).

Ademais, para esse crescimento pessoal, além da via educativa e da liberdade decorrente de uma educação conscientizadora, a pessoa precisaria ser “capaz de se libertar de si própria, de se desapossar, de se descentrar para se tornar disponível aos outros. Para a tradição personalista (...), a ascese do despojamento é a ascese central da vida pessoal; só liberta o mundo e os homens aquele que primeiramente se libertou a si próprio” (MOUNIER, 2004, p. 47)

Observa-se, destarte, a inserção de um novo elemento, a saber, o despojamento, entendido como uma atividade ascética. Por detrás deste argumento há a ideia de que a pessoa foi feita para ir além de si mesma e de todas as suas manifestações, ou seja, foi feita para ser ultrapassada, ultrapassar-se. Isso requer um certo desligamento de si mesma, e é justamente essa a ideia que Mounier denomina de ascese necessária (LORENZON, 1996).

A partir dessas considerações, Mounier inaugura um vértice no âmbito pessoal, um ponto crucial plenamente capaz de viabilizar, além do crescimento do indivíduo, um leque de possibilidades existenciais. Assim, podem ser trazidos à baila relevantes pensamentos, em especial sobre a dimensão do outro, sobre a comunidade e, inclusive, o amor. Tais temáticas, que não serão aqui aprofundadas, devem ser entendidas de forma particularmente original no emaranhado das ponderações filosóficas que integram a corrente personalista de Mounier.

Tratando-se do outro, há a compreensão de uma sublime realidade a ser respeitada, uma vez que, na perspectiva personalista “o outro não poderá ser tratado como um simples objeto, e mesmo no plano científico, sua dignidade transcende o alcance de qualquer investigação. É uma presença comunicável, de maneira parcial e incompleta” (LORENZON, 1996, p. 32).

Embora estando o outro envolto numa atmosfera de mistério que é própria da pessoa, torna-se possível o estabelecimento de uma comunicação, uma relação interpessoal. É exatamente isso que Mounier vem confirmar: “quando a comunicação se enfraquece ou se corrompe perco-me profundamente (...). Quase se poderia dizer que só existo na medida em que existo para os outros, ou numa frase-limite: ser é amar” (MOUNIER, 2004, p. 46).

Nas entrelinhas dessa consideração se esconde uma das redações mais impactantes do filósofo em estudo, a inserção de um sentido diferente sobre a forma de ser e, outrossim, sobre a forma de possuir. Ademais, não obstante a força desta expressividade em si mesma, Mounier trabalha sua discussão até vincular tais considerações à dimensão de uma “revolução” personalista e comunitária.

Prosseguindo, nos seus próprios dizeres (MOUNIER, 2004, p. 46),

 

"há pleonasmo quando se designa a civilização que ele [o personalismo] visa por personalista e comunitária. Exprimem, frente a persistentes idealismos e individualismos, a ideia de que o sujeito não se nutre autonomamente, que só possuímos aquilo que damos ou aquilo a que nos damos, que não nos salvamos sozinhos, nem social, nem espiritualmente".

 

Deveras, o processo de personalização requer tamanha abrangência que, para além das perspectivas de uma autonomia que emana da consciência individual e de uma liberdade interior, num amálgama de mistério, há a necessária saída de si mesmo em direção ao outro. E não se trata de qualquer saída, mas de uma profunda resposta humana, ou melhor, mais que uma resposta, uma profunda entrega humana.

À luz de Mounier, a pessoa não se torna presente a si mesma se não se dá ao mundo, ainda que dramaticamente. Eis a síntese do espírito relacional: a pessoa não possui senão o que dá ou não possui senão aquilo a que se dá; no sentido positivo, só se possui aquilo ao qual a pessoa se entrega, o que se ama; só se possui o que se dá [2].

Não obstante um forte caráter abstrativo que advém das expressões expostas acima, o filósofo buscou frisar a relevância do amor como reconhecimento e afirmação do outro. Tratar-se-ia não apenas de uma nova forma de buscar a realização do outro, em liberdade, mas também de buscar a realização de si mesmo, ou seja, uma nova forma de ser. É por isso que o pensador afirma que “o ato de amor é a mais forte certeza do homem, o ‘cogito’ [3] existencial irrefutável: amo, logo o ser é, e a vida vale (a pena ser vivida)” (MOUNIER, 2004, p. 48).

Tais considerações fazem refluir a um dos temas presentes no cerne da corrente personalista, a saber, a comunidade, a vida comunitária, ao significativo valor de uma comunidade estabelecida a partir da comunicação entre as pessoas, no amor. De fato, o amor se torna a relação capaz de criar a comunidade que, no fundo, consiste numa “pessoa de pessoas”, sendo que, para ser verdadeiramente chamada assim, deve ser fundada numa legítima comunhão de amor. Eis a aspiração permanente de uma personalização completa da sociedade [4].

Neste sentido, atribui tônus à relação e colabora na manutenção da comunidade uma noção de generosidade. É justamente isso que Mounier (2004, p. 87) vem convalidar:

 

"O ser da pessoa é generosidade. Por isso, funda-se numa ordem inversa da da adaptação e da segurança. (...) A vida em nós, sobretudo perante o perigo, mais não pede do que adaptação, pelo menos custoso dos preços: é o que chamamos felicidade. A pessoa arrisca e despende sem olhar o preço."

 

A generosidade, bem como também a felicidade, e muitas outras atribuições podem ser facilmente percebidas como experiências capazes de favorecer a personalização. Ora, o pano de fundo de tantas experiências valorativas, por assim dizer, vem a ser exatamente o terreno da humildade, o despojamento, em outra expressão, a pobreza espiritual.

Tamanha virtude se constitui como um apelo singular que cada pessoa traz em si, uma grandeza que faz com que as pessoas estejam no mesmo patamar de equivalência, um apelo englobante da existência que faz com que a pessoa se torne a própria gratuidade [5]. É nesse terreno que se edifica a construção da pessoa: no ato gratuito, na dádiva sem medida e sem busca de recompensa, sendo que o apelo verdadeiramente pessoal emana de uma vida simples, nasce da mais humilde das vidas (MOUNIER, 2004).

Tudo leva a afirmar, como Mounier, que a economia da pessoa é uma economia de dádiva e de doação, não de compensação ou de cálculo. Não obstante, por mais que haja uma força interior, a consciência pessoal pode restar obnubilada de modo que a atitude da generosidade “não encontra facilmente eco num mundo cada vez mais dominado por uma busca de eficácia e de rendimento. Acontece que existe no ser humano uma gratuidade que o ativismo esquece na rede das preocupações materiais” (LORENZON, 1996, p. 32-33).

Acerca de uma raiz de tais preocupações, vem o próprio pensador francês em estudo elucidar que (MOUNIER, 2004, p.120-121):

 

"Na ainda tão primária fase da história em que vivemos, as necessidades, os hábitos, os interesses e as preocupações econômicas determinam maciçamente os comportamentos e opiniões dos homens. Daqui não resulta que os valores econômicos sejam exclusivos ou sequer superiores a outros: o primado do econômico é uma desordem de que urge libertarmo-nos".

 

Pelo exposto, identifica-se no primado das questões econômicas, quando há desordem, uma fonte de desequilíbrio ou, no mínimo, um desfavorecimento ao processo de personalização, uma vez que há condicionamento e influência sobre os comportamentos humanos. A fim de melhor serem discernidas as questões relativas ao ser da pessoa, requer-se um aprofundamento no que diz respeito à pobreza espiritual como meta do personalismo.

 

2. A pobreza espiritual como caminho para uma economia humana

 

Entre tantos temas, o personalismo de Emmanuel Mounier considera que a pessoa se encontra diante de uma complexa dialética entre a interioridade e a exterioridade. Tensionada por aspectos dentro e fora de si, é possível, na pessoa, a instalação de um egocentrismo, quando o seu “eu” se busca avidamente e se torna incapaz de se adaptar à realidade e aos outros.

Embora tais movimentos, o de interiorização e o de exteriorização, sejam essenciais e complementares, resulta que o homem pode passar, com frequência, a privilegiar um ou outro desses dois movimentos. Destarte, a pessoa demasiadamente objetivada pode se tornar prisioneira das solicitações externas, empobrecendo a “vida oblativa”, que remete à sua capacidade de sair de si mesma e de se doar generosamente (LORENZON, 1996).

Por conta de uma necessidade de equilíbrio, o personalismo se fundamenta numa ascese, isto é, numa purificação constante, num esforço ininterrupto de superação da tendência generalizada de apropriação de bens, esforço esse que no movimento de personalização é chamado de conversão. A conversão significa, então, um recuo que a pessoa realiza para melhor irromper-se, uma convergência das forças interiores, uma recuperação das verdadeiras energias da pessoa (SEVERINO, 1974).

Tal processo de conversão é o que assegurará ao homem, na constante busca de realização, não alienar-se nem se perder em si mesmo, pois é justamente a constância desta força que possibilitará à pessoa o rompimento do egocentrismo que pode se instalar no seu interior. Naturalmente, trata-se de um processo árduo, para o qual concorrem vários fatores, tais como a educação em valores, a vivência de virtudes, o crescimento na cultura, enfim, aspectos éticos e, inclusive, pedagógicos cujo detalhamento não vem ao caso.

Para percorrer esse caminho para dentro de si mesma, a pessoa precisa romper-se, retomar-se, recobrar-se, unificar-se sobre um centro. Isso torna esse movimento complexo, mas, por outro lado, faz da ascese um passo essencial na perspectiva do desenvolvimento pessoal.

Problematizando o tema do despojamento, Mounier afirma (2004, p. 63):

 

"Fala-se muitas vezes do “desenvolvimento da pessoa”, como se para aumentarmos o nosso valor fosse preciso aumentar as nossas posses. Exalta-se a posse do mundo como se ela fosse por si própria libertadora. A dialética personalista do ter é menos triunfante. (...) O desenvolvimento da pessoa implica como condição interior um despojamento de si e de seus bens que despolariza o egocentrismo. A pessoa só se encontra quando se perde. A sua fortuna é o que fica quando se despojou de tudo o que tinha – o que lhe fica à hora da morte".

 

Neste sentido, não basta à pessoa apenas se despojar de si mesma ou apenas se desapegar dos bens exteriores, de sua capacidade de apropriação material. Os dois caminhos são essenciais para que a pessoa se desenvolva bem. Eis a síntese crucial, não apenas da economia da pessoa, mas também de sua personalização: a pobreza como estatuto econômico ideal da pessoa [6].

Acerca desse relevante achado, Lorenzon elucida que (1996, p. 50):

 

"Esta palavra [pobreza], utilizada com frequência no vocabulário personalista, não possui a significação sociológica atual. A pobreza, segundo a visão personalista, é antes de tudo um ideal de vida, um espírito e uma atitude de simplicidade, de desprendimento e de desapropriação. A pobreza, assim compreendida, vai além do quadro das categorias sociológicas para tornar-se um ideal da pessoa e da comunidade humana".

 

Em outras palavras, não se tratando de uma avareza ou um ascetismo, essa expressão consiste numa desconfiança pelo peso dos apegos, um apreço pela simplicidade, um estado de disponibilidade e de leveza que não exclui a magnificência nem a generosidade. Em suma, trata-se de um despojamento interior, desapego indispensável a toda e qualquer posse; um movimento de liberdade [7].

O que subsiste de tais assertivas é que o homem necessita de uma certa pobreza para lidar consigo mesmo e com o mundo ao seu redor, seja no âmbito material, seja no âmbito espiritual, por assim dizer, na experiência interior da pessoa. O que se observa é que, conforme o personalismo, “sem este espírito de pobreza, as facilidades materiais não liberam o homem, emburguesam-no [sic], degradam-no” (MOIX, 1968, p. 93).

Essa temática da pobreza tangencia uma dimensão mais ampla, seja naquilo que concerne à esfera individual, seja no que diz respeito à esfera social, ou melhor, em termos personalistas, seja no que diz respeito à esfera pessoal, seja no que é relativo ao âmbito comunitário. Ademais, muitos outros temas são alcançados por esta perspectiva, tais como a liberdade, a justiça, o direito, a felicidade e, inclusive, aspectos espirituais.

Acerca desse alcance, é mister observar, conforme Silveira (2010, p. 116) que:

 

"O assunto é de grande profundidade, pertence ao universo da justiça social e não a uma felicidade sob acumulação de bens e segurança que abafam o crescimento da liberdade espiritual. Quando os espiritualistas bradaram que o homem se salvaria pela pobreza, Mounier interveio dizendo que o personalismo não pretendia hipocritamente perpetuar a miséria, mas pretendia, uma vez vencida a miséria, que cada pessoa se tornasse livre e desimpedida dos apegos e tranquilidade".

Insistindo-se ainda nesse tema, o próprio Mounier vem agregar à discussão, além de denúncias, reflexões relacionadas aos valores e, em especial, à felicidade (2004, p. 91-92):

 

"É preciso que o homem saia, regra geral, da miséria fisiológica e social para ascender a valores superiores; é preciso denunciar o farisaísmo dos que lhe censuram o abandono dos valores quando lhe não dão os meios para deles se aproximarem. Mas o valor supremo não pode ser a perfeita organização dos valores vitais e econômicos a que geralmente se dá o nome de felicidade. (...) Isolada, a felicidade fica irremediavelmente presa entre o egoísmo individual e o mecanicismo coletivo..."

 

Tangencia-se aí o tema da felicidade, certamente muito caro, pois alude à busca natural de todo e qualquer pessoa. Não obstante, é possível existir desvios e prejuízos humanos quando se submete essa busca aos interesses egocêntricos e meramente lucrativos, uma vez que “[em Mounier], o sentido do ter pode nos conduzir e um mais-ser como também à despersonalização e à infelicidade” (LORENZON, 1996, p. 50, grifos do autor).

Em um sentido mais grave, a consequência da infelicidade e, por que não dizer, da despersonalização, é a angústia. Sobre isso, vem ainda o filósofo personalista elucidar que (MOUNIER, 2004, p. 61-62):

 

"[A angústia é um] sintoma sociológico de uma época desorientada, produto de decomposição. Ao lado desta angústia patológica existe uma angústia essencial ligada à existência pessoal enquanto tal, ao terrível mistério da sua liberdade, (...) [sendo que] todos os meios empregados para a disfarçar – indiferença, conciliações, conforto, segurança – mais não têm do que a fragilidade dos artifícios e dos enganos: conduzem a um verdadeiro suicídio espiritual, inutilizando a existência..."

 

O que advém de toda a elasticidade da discussão empreendida até aqui, ou seja, o local onde a pobreza mounieriana desemboca, é justamente o sentido estritamente espiritual da pessoa. Deveras, a corrente personalista, em um dado momento, termina por considerar a existência de um viés transcendental encrustado no caminho da personalização e, mormente, na própria constituição do indivíduo em vias de desenvolvimento.

É nesse ponto que a perspectiva de progresso espiritual pode se amalgamar com o acontecimento histórico da vida humana e, outrossim, da sociedade, de modo que a experiência espiritual, à luz da corrente personalista, não é outra coisa senão a descoberta da pessoa no face a face consigo mesma e com uma Existência suprema, uma transcendência que leva à superação de si [8]. Todavia, “o personalismo está longe de ser um espiritualismo. Pertence-lhe, em toda a latitude da humanidade concreta, qualquer problema humano, desde a mais humilde condição material, às mais elevadas possibilidades espirituais” (MOUNIER, 2004, p. 34).

Ademais, o pensador francês foi taxativo ao afirmar em sua época: “não queremos um mundo de felicidade, queremos um mundo humano. E só é humano o mundo que garantir suas possibilidades às exigências essenciais do homem” [9]. Isso ilustra que as possibilidades espirituais sobre as quais o personalismo se debruça não coincidiam com as promessas de felicidade oferecidas pelo contexto do século XX. Para nós, homens e mulheres do século XXI, a realidade seria outra? Nossa busca humana seria menos exigente?

A discussão em tela culminará, neste sentido, observando que o processo de personalização restaria incompleto sem a devida atenção à condição material e espiritual humana. O que advém de todas as considerações acima é, exatamente, a necessária vinculação entre a pobreza e um sentido espiritual para a construção de uma economia verdadeiramente humana.

Não obstante, o certame não se encerra aí e a corrente personalista, entre outros temas e sob a égide de uma “revolução personalista”, propôs o engajamento e outros caminhos para um confronto com a realidade, mormente nos contextos de aviltamento da pessoa. Que se consuma a curiosidade do leitor no aprofundamento acerca dessas temáticas tão pertinentes à vida.

 

Considerações finais

 

Assim como as “pobrezas” se agravam e se alastram, não apenas no aspecto quantitativo expresso nos variados indicadores demográficos e estatísticos, também se diferenciam os tipos de pobreza. Isso implica a existência de novas concepções em torno da pobreza, inclusive falando-se em aporofobia [10]. Como consequência de uma mentalidade de estigmatização social que vem sendo nutrida há, desde a modernidade, a marginalização daqueles que já são vítimas de um sistema econômico nada humano e nada inclusivo.

Conforme o viés advindo do pensamento de Emmanuel Mounier, o artigo em tela se debruçou sobre uma concepção construtiva de pobreza, a pobreza espiritual, que coadunada com a perspectiva do processo de personalização, ambos guarnecidos por uma variedade de conceitos e ideias personalistas, aprofundam uma desafiante forma de a pessoa existir no mundo: a economia da generosidade, no amor, a partir do despojamento de si.

Tal como a concepção e a vivência da situação de pauperismo têm se renovado, por assim dizer, também deve ser renovada a forma de se responder às novas situações que se apresentam, principalmente diante do flagelo da covid-19 e outros tipos de “vírus”. Neste sentido, a proposta deste estudo revelou uma urgente oportunidade de se renovar uma reflexão sobre o valor pobreza de espírito, a liberdade interior que conduz a uma existência solidária, a uma economia humana. Acredita-se, destarte, que a temática é potencialmente capaz de agregar ao pensamento daqueles que têm se dedicado à Economia de Francisco e de Clara e vem ao encontro das aspirações do Papa Francisco.

Entre tantas possíveis considerações, não se pode negar que a atualidade solicita daqueles que estão em melhores condições, para além de uma teorização, gestos concretos, criativos e eficientes no sentido de atenuar as desigualdades e possibilitar a vida, a vida humana tão ameaçada por tantas crises. O amor, mais que uma mera resposta, é o sentido da vida e amar é viver comprometido, comprometido com Deus, consigo mesmo e com o próximo, em especial nestes tempos de extremismos ideológicos e incompreensões preconceituosas, onde, numa frase do “Pobrezinho de Assis”, “o Amor não é amado”.

 

Notas

[1] Referência a um provérbio africano: “Quando dois elefantes brigam, quem sofre é o gramado”.
[2] COQ, (2012, p. 102-104), condensando as considerações de Emmanuel Mounier em sua obra “Refaire la Renaissance”, op. cit., p.74-76.
[3] Referência à expressão do filósofo e matemático francês René Descartes, no latim: cogito, ergo sum. Tal expressão é comumente traduzida como "penso, logo existo".
[4] SEVERINO (1974, p. 85-86), ao aprofundar e sintetizar o pensamento de Mounier em sua obra Révolution personnaliste et communautaire, I, p.187-195.
[5] SEVERINO (1974, p. 81), ao se debruçar sobre textos da obra Le Personnalisme, III, p. 467.
[6] MOUNIER apud LORENZON (1996, p.50): Traité du Caractère (1946), O.t.II, 795p.
[7] MOUNIER apud MOIX (1968, p. 93): Manifeste, p. 164.
[8] MOUNIER apud COQ (2012, p.81-85, em especial nos escritos intitulados Qu’est que le Personnalisme?, Le personnalisme de l’engagement e Écrits sur le Personnalisme.
[9] MOUNIER apud MOIX (1968, p.91) em sua obra Les certitudes difficiles (1933, p.20).
[10] Termo atribuído a Adela Cortina, filósofa contemporânea de Valência (Espanha), que pode ser traduzido como aversão ou rejeição aos pobres.

 

Referências

COQ, Guy. Mounier: o engajamento político. Aparecida, SP: Ideias & Letras, 2012.

LORENZON, Alino. Atualidade do pensamento de Emmanuel Mounier. 2.ed. Ijuí: Unijuí,1996.

MOIX, Candide. O pensamento de Emmanuel Mounier. 1. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.

MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. trad. Vinícios E. Alves. 1.ed. São Paulo: Centauro, 2004.

SEVERINO, Antônio Joaquim. Recolhimento em Si e Abertura ao Outro: contribuição do personalismo para a educação da pessoa, In: RAMPAZZO, L; DIAS, Mário J. (org). Pessoa, comunidade e instituições na obra de E. Mounier e de P. Ricoeur. Campinas: Alínea, 2013.

SILVEIRA, Carlos Roberto da. O humanismo personalista de Emmanuel Mounier e a repercussão no Brasil. [Tese de Doutorado] Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP, São Paulo, 2010.

 

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