Missão Economia. Um guia para mudar o capitalismo. Novo livro de Mariana Mazzucato

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16 Abril 2021

 

Mariana Mazzucato fala sobre o sucesso do projeto público Apollo para chegar à Lua. Agora, explica, é o momento de replicá-lo aqui embaixo.

A reportagem é de Francesco Manacorda, publicada por La Repubblica, 15-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Mariana Mazzucato não é uma estudiosa que pode nos deixar indiferentes. Economista, defensora de longa data da valorização do papel do Estado na economia, ela é uma acadêmica de sucesso, mas também uma polemista "larger than life", midiaticamente muito eficaz e sempre pronta para enfrentar debates acirrados com a escola liberal que teve tanto peso nestes anos em sua disciplina. A categoria dos que a apreciam hoje é bastante ampla e inclui, usando uma expressão de Jovanotti (ele também, podemos apostar, seu admirador) "uma grande igreja, que vai de Che Guevara", não a Madre Teresa, mas sim ao Papa Francisco, visto que o Pontífice a mencionou várias vezes e também lhe deu um papel em uma comissão de estudos do Vaticano. Também parecem estimá-la líderes políticos de todo o mundo (da África do Sul à Itália do governo Conte) que se valeram de suas consultorias. Bem compacto é também o partido dos que contestam suas teses, não apenas nas fileiras da direita clássica. Mas em qualquer caso, vale sempre a pena ouvi-la e lê-la, mesmo que não se concorde com ela: tanto pela contundência dos seus argumentos como pela paixão civil que os anima.

Missione economia de Mariana Mazzucato
(Laterza, p. 240, euro 18)

É o caso também do seu último livro Missione Economia, que se apresenta desde o título como um prático, mas ambicioso, “guia para mudar o capitalismo”, publicado na Grã-Bretanha no início do ano e que chega agora à Itália para a Laterza. O capitalismo está em crise - explica Mazzucato - e depois da crise financeira de 2008, até as catástrofes ambientais e, por último, a atual pandemia mostram uma situação em que se deixou e se deixa amplo espaço para a iniciativa privada, enquanto apelamos ao Estado somente quando há a necessidade de juntar os cacos. Mas até mesmo os Estados estão atravessando uma crise de identidade, e uma vez que "a intervenção do governo nas crises só é eficaz se o Estado tiver correspondente capacidade para agir", é necessário não apenas repensar o capitalismo atual, mas também "transformar o Estado a partir de dentro e fortalecer seus sistemas em matéria de saúde, educação, transporte e meio ambiente, ao mesmo tempo imprimindo um novo rumo à economia”. Em particular, trata-se de criar uma economia "orientada para a meta", na qual os governos traçam objetivos e caminhos e também atuam como "investidores de primeira instância" em áreas que eventualmente podem não oferecer retornos econômicos imediatos, mas que "impulsionam a produtividade a longo prazo”, explica Mazzucato, lembrando-nos mais uma vez que sem investimentos públicos hoje não existiriam nem a Internet nem a Tesla.

Para ilustrar como um estado se move quando tem um objetivo a atingir, a autora analisa em detalhes o programa espacial US Apollo anunciado em 1962 pelo governo Kennedy e que culminou em 1969 com o primeiro homem a chegar à Lua e retornar à terra. É talvez a parte mais fascinante do livro, onde os detalhes organizacionais se misturam aos técnicos, as tragédias humanas - as mortes de três astronautas em uma simulação na Apollo 1 - se juntam ao entusiasmo pioneiro dos jovens Estados Unidos - a média de idade na sala de controle da missão era de 26 anos - na corrida espacial. O resultado daquela aposta não é apenas a supremacia dos EUA no cosmos, mas também as "vinte coisas que não teríamos sem as viagens espaciais", da câmera nos celulares à tomografia computadorizada, do leite em pó aos tênis de corrida, hoje onipresentes em nossas vidas. Portanto, é a tese, se o Estado se atribui objetivos prioritários e decide alcançá-los, isso acarreta efeitos benéficos em termos de inovação e desenvolvimento em todo o sistema através da interação entre o setor público e as empresas privadas e com o necessário envolvimento dos cidadãos. Claro, Mazzucato alerta que as missões tecnológicas são muito mais circunscritas do que aquelas econômicas e sociais e também por isso mais fáceis de realizar. No entanto, indica algumas missões "terrestres" para os governos nesta nova época: criar um New Deal "verde", inovar para garantir o acesso à assistência médica para o maior público possível; reduzir a exclusão digital.

Orientar a economia para as missões também cria uma mudança de paradigma: “Fazer a economia funcionar para os objetivos da sociedade, ao invés de colocar a sociedade a serviço da economia, exige um repensamento na forma de entender os orçamentos - escreve Mazzucato. Temos que começar nos perguntando ‘o que precisa ser feito?’ e depois pensar em como pagar pelas intervenções necessárias”. Uma revolução copernicana para a "velha" Europa do Pacto de Estabilidade e de Crescimento e para países como a Itália, onerados por uma elevada dívida pública e, portanto, perenemente - ou quase, como vemos hoje com a crise deflagrada pelo Covid - obrigados a cumprir severas restrições orçamentárias.

A missão econômica chega em um momento muito favorável para o debate sobre o papel do Estado e das organizações supranacionais na revitalização da economia. A pandemia, as dificuldades no fornecimento de vacinas, os lucros elevados que alguns setores estão obtendo em uma fase muito difícil para a maioria da população, levam a superar muitos tabus e propiciar a visão de quem vê mais vantagens do que desvantagens em um setor público que oriente e acompanhe os atores do mercado. Afinal, o plano Biden de 3 trilhões de dólares para restaurar o vigor da economia nos EUA ou o Plano de Recuperação Europeu são justamente casos de intervenções públicas dignas de manual. Intervenções ex post, que se realizam justamente para "juntar os cacos" de uma crise dominada pelo mercado, mas que pelo menos na versão europeia - onde o Plano de Recuperação se liga a investimentos em áreas específicas como a transição ambiental e energética - visam para transformar o papel do público como motor de inovação.

É de se esperar que a Missão economia, com suas receitas fortes e sua galeria de horrores de mercado, desperte debate. Aconteceu no mundo anglo-saxônico, e também na Itália haverá quem classifique aquelas de Mazzucato como utopias inatingíveis. Utopias talvez, mas no caso utopias necessárias.

 

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