O antídoto para o medo de Deus e da morte. Artigo de Enzo Bianchi

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02 Abril 2021

 

O amor vivido até o fim por Jesus, o amor sem contradições e, por isso, eterno, não podia deixar Jesus crucificado, presa da morte. Porque ele é o Vivente!

A reflexão é de Enzo Bianchi, monge italiano e fundador da Comunidade de Bose, na Itália, em artigo publicado na revista Vita Pastorale, de abril de 2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Nas crises que o cristianismo atravessa hoje, principalmente no mundo ocidental, tenho constatado várias vezes que não se leva em conta um fato primordial que habita o ser humano: o medo.

Nos nossos dias, certamente tomamos consciência dos medos mais do que em outras épocas culturais, descobrimos novos medos, como atesta o título de um livro recente de Marc Augé, mas não pensamos e meditamos precisamente sobre a ligação entre medo e religião, entre medo e cristianismo em particular.

O medo e os medos são um estado emotivo fundamental e ambivalente: reação de defesa, mas também fator de inibição e de paralisia. Não é, talvez, sobretudo o medo que apaga a esperança de uma pessoa ou de uma geração? Não é, talvez, o medo que inibe a expectativa de um “novum”? Não é, talvez, o medo que habita os jovens de hoje aquilo que os impede de iniciar e de levar em frente histórias de amor?

Também é verdade que, desde sempre, o ser humano convive com o sentimento do medo: é tarefa sua reconhecer os medos que emergem e assumi-los, integrando-os na consciência de si, até os chamar pelo nome e, assim, poder atravessá-los sem ser oprimido por eles.

Mas, se removermos esse fatigante trabalho sobre os sentimentos do medo, se bloquearmos a vida sujeitando-a ao ídolo do “destino”, então a nossa existência se torna alienada e sem sentido. Porém, tentemos enfocar, precisamente pela sua influência na fé cristã, dois medos em particular: o de Deus e o da morte.

O medo de Deus, segundo o relato das primeiras páginas do livro do Gênesis, é o primeiro que os humanos experimentam conscientemente. A humanidade criada por Deus, por ele abençoada e julgada algo muito belo e bom, a obra-prima das obras criacionais, depois de ter consentido com a tentação das três libidos – a libido amandi, a libido possidendi e a libido dominandi –, experimenta o sentimento do medo e reage fugindo da presença de Deus.

É então que Deus chama: “Terrestre, adam, onde estás?” (Gn 3,9), e eis a resposta, a primeira vez que o ser humano fala com Deus: “Tive medo!”. A voz de Deus era uma busca cheia de solicitude, não ameaçava nem castigava, mas eis o nascimento do medo de Deus, do Deus juiz, do Onipotente, o espião do comportamento humano.

O rosto de Deus foi pervertido e, apesar de ele mostrar atitudes de proteção, de cuidado, de amor pela humanidade, esta traz em si o medo de Deus. Sim, o temor de Deus não é medo de Deus, é consciência da sua presença, mas será muito fácil pregá-lo e transmiti-lo como um sentimento a ser alimentado por um Deus cuja imagem dá medo ao ser humano.

Não nos esqueçamos das páginas de Jean Paul Sartre: “Aquela sensação do Deus que vê, que espia o que eu faço, pronto para me castigar me tornou ateu, sem Deus, mas então conheci a liberdade”.

Por gerações e gerações de cristãos, devemos confessar, Deus deu medo: os pais humanos eram melhores do que o Pai celeste que mandava ao inferno quem pecava e infringia leis feitas por homens, mas imputadas a ele. Ainda hoje, esse medo de Deus é atestado profundamente, embora esteja presente em uma minoria dos cristãos que habitam as marés da indiferença.

Mesmo recentemente, durante a pandemia, ouvimos vozes, até mesmo de bispos, que ainda propunham Deus como o mandante do castigo que se abateu sobre a humanidade pelos seus pecados.

Porém, Jesus Cristo veio precisamente para “evangelizar”, tornar o rosto de Deus uma “boa notícia”: veio para desmascarar um rosto divino moldado pelos homens religiosos amantes mais da lei do que da humanidade, atentos mais aos pecados a serem descobertos do que aos sofrimentos dos pecadores, zelosos mais com a sua ritualidade do que com a comunhão com Deus.

Se houve uma fuga da Igreja e se hoje o “discurso cristão” permanece distante das pessoas comuns, é também por isto: profundamente, sedimentou-se um árido medo de Deus, e é melhor, portanto, não pensar nele. Sim, nós recaímos muitas vezes nesse medo, não conseguimos acreditar que é possível “ser amados por Deus enquanto estamos no pecado” (cf. Rm 5,6-8), não conseguimos crer no amor (cf 1Jo 4,16).

Estreitamente relacionado ao medo de Deus está o medo da morte, que não é apenas aquela consciência que nos assalta com o pensamento de que devemos morrer, mas é um verdadeiro poder, uma dominante eficaz nas nossas profundezas e que age mesmo quando estamos plenamente conscientes disso.

De fato, em todas as nossas escolhas, pesa a dominante da morte. Cada escolha nossa deveria ser entre a vida e a morte, mas, justamente por medo da morte, dominados e alienados por essa experiência, acabamos pecando, opondo-nos à vida verdadeira.

É isso que nos revela uma passagem da Carta aos Hebreus, pouco lida: “Jesus se tornou partícipe do nosso sangue e da nossa carne para reduzir à impotência mediante a morte aquele que tem o poder da morte, isto é, o diabo, e assim libertar aqueles que, por medo da morte (phóbo thanàtou), estavam alienados por toda a vida” (Hb 2,14-15).

De acordo com o apóstolo, o medo da morte é escravizante, alienante, a morte é “o rei dos medos” (melek ballahot, Jo 18,14), porque supera todos os outros medos e é causa do pecado que cometemos.

Mas, precisamente no coração da fé cristã, o evento da Páscoa de Jesus, da sua ressurreição da morte, é o antídoto ao medo de Deus e ao medo da morte, que Jesus venceu precisamente com a sua preciosa morte! Eis a boa notícia que é “esperança na ressurreição dos mortos” (At 23,6), esperança de vida para sempre (cf. Tt 3,7). “Onde está, ó morte, a tua vitória?”, grita o apóstolo Paulo (1Cor 15,55).

Essa é a especificidade da nossa fé cristã, aquilo que torna o cristianismo “outro” em relação a qualquer outra religião, aquilo que permite crer que “o Amor é forte como a morte!” (Ct 8,6). O amor vivido até o fim por Jesus, o amor sem contradições e, por isso, eterno, não podia deixar Jesus crucificado, presa da morte. Porque ele é o Vivente!

Houve um tempo em que os cristãos eram definidos como “aqueles que não tem medo da morte”! Não porque fossem heroicos, não porque desejassem morrer, não porque não temessem os sofrimentos, mas pela sua fé sólida: Jesus Cristo ressuscitou, é o Vivente, e nós somos seus seguidores também para além da morte!

 

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